Algumas semanas atrás, eu estava conversando com um amigo sobre streaming. Eu estava maravilhado com a facilidade de fazer uma transmissão de vídeo ao vivo em qualquer lugar, não apenas para um amigo ou grupo, mas para o mundo inteiro. O que era restrito para equipes de redes de notícias com um caminhão com conexão via satélite agora foi ampliado para qualquer um com um smartphone.

Eu esbravejava que nós estamos apenas no começo do processo que irá transformar a maneira que nós assistimos imagens em movimento, sem mencionar o que são estas imagens e como nós as produzimos. Nós já passamos da era da televisão – onde vídeo significa sentar em uma sala e assistir “programas” cuidadosamente agendados, profissionalmente produzidos – e agora nós estamos prestes a mudar do nosso paradigma mais fluido, faça-você-mesmo do YouTube em algo diferente: uma explosão de vídeos que estão acontecendo agora mesmo.

Independendo de o ponto ser compartilhar um ambiente com amigos ou colegas de trabalho por um período de tempo mais longo, para desfrutar de um evento bem produzido e melhorado por saber que é ao vivo, ou para acompanhar os eventos mais emocionantes do planeta a qualquer momento, mais e mais do que nós iremos assistir estará acontecendo ao vivo.

Como o amigo em questão era Kevin Kelly, um adepto do “Long Bets“, um site onde pessoas com diferentes visões de uma previsão apostam dinheiro em seus palpites, nós fizemos uma aposta: Se dentro de 10 anos, mais da metade de todos os vídeos assistidos forem ao vivo, eu ganho.

Assim que concordamos, eu puxei o meu iPhone e abri um app chamado Color. Eu então virei a câmera para Kelly e pedi para que ele explicasse a aposta. Em segundos eu fui capaz de mostrar para ele que várias pessoas em meu círculo social já estavam assistindo-o, ao vivo. Eu acho que isso balançou um pouco a confiança dele.

(Ok, não tinha áudio na transmissão do Color – mas eu tenho 10 anos para esperar para que esse negócio melhore!)

Claro, até certo nível, nós já ficamos bem acostumados a transmitir vídeo ao vivo. Milhões de pessoas conversam via Skype, algumas vezes por horas. Eventos transmitidos ao vivo na web já foram novidade e agora são comuns: Tudo, desde uma audiência do governo local, até o Super Bowl pode ser assistido conforme acontece. Nós agora estamos nos aproximando do ponto onde as pessoas ficam irritadas se certos eventos não são transmitidos ao vivo. Mas estamos alcançando lentamente do ponto de declínio.

O próximo passo para todo mundo é usar as pequenas câmeras com qualidade HD de nossos celulares e computadores para transmitir ao vivo rotineiramente para alguns amigos mais próximos ou todo mundo.

Empresas grandes e pequenas estão crescendo para fornecer um ecossistema de transmissão ao vivo. Neste momento, o líder em transmissão instantânea é o Ustream, que tem uma plataforma de transmissão em tempo real que pode chegar a grandes eventos. Chegando de fininho, vem o gigante YouTube, que espera ter milhões de canais. Nenhuma empresa tem a infraestrutura e a audiência do Google e eu espero que o foco do YouTube possa mudar de upload de vídeos para transmissões em tempo real.

O Google também rapidamente entrou no jogo de vídeos sociais em tempo real. O componente bem sucedido do Google+ é o Hangouts, um sistema de vídeo conferência em tempo real. (Tanto que o Google agora usa isso como seu sistema de conferências corporativas).

Mas empresas menores estão entrando na jogada. Existe até mesmo um projeto Open source chamado WebRTC, desenvolvendo uma tecnologia simples de browser que implementa transmissão em tempo real em páginas da web.

E também tem o Color, o app de iPhone que eu usei para mostrar a minha aposta para o mundo. Funfado pelo empreendedor Bill Nguyen, o Color permite que você transmita ao vivo para a sua rede social com o toque de um botão. Um fato interessante: Nguyen adotou este plano como uma redefinição dos negócios depois do lançamento inicial desastroso do seu app – para salvar sua empresa, o astuto especialista em tecnologia percebeu a próxima tendência.

O Color é bastante integrado com o Facebook, que tem visões de streams ilimitados através da sua política Open Graph. O próprio Facebook também transmitiu ao vivo vários eventos.

Sean Parker e Shawn Fanning – co-fundadores de um dos serviços mais controversos da internet, o Napster – estão investido dinheiro na tecnologia de tempo real, com uma startup de vídeos chamada Airtime. E ainda existe por aí a Justin.tv, que começou como uma maneira para o fundador Justin Kan fazer transmissões em tempo real de sua vida, cada minuto dela. Eu acabei de dar uma espiada no site e encontrei 3107 canais ao vivo. Um spin-off da Justin TV, a Socialcam, tem alguns milhões de downloads.

Uma geração inteira já não sabe mais que algum dia nossos antepassados pensavam que era uma novidade muito legal “aparecer na TV”.

Mas essa geração que está surgindo provavelmente nunca irá passar um dia onde não estarão em vídeos transmitidos ao vivo pela internet, pelo menos parte do tempo. (Se você contar com câmeras de segurança, esse dia já chegou). Como o CEO da Socialcam, Michel Seibel, contou a um repórter: “Basicamente 30 milhões de americanos estão a cinco passos de distância de uma câmera de vídeo 24 horas por dia. Nunca foi assim antes.”

Uma nova e inovadora startup, Prism Skylabs, está dedicada a utilizar câmeras de segurança via análises e truques gráficos para “combinar steams de vídeos lavados e cheios de ruídos em belas imagens com qualidade fotográfica…” Eu deixarei para os ativistas de privacidade e sociólogos falarem sobre as implicações. Confiem em mim, elas são gigantes.

E o que acontece com os fornecedores tradicionais de vídeo, os profissionais que fornecem programação para as emissoras? O aumento da qualidade dos vídeos em tempo real significa que a vitalidade dos vídeos em tempo real pode subir na cadeia alimentar.

Mais e mais profissionais irão adotar isso como técnica, de uma maneira parecida que cineastas famosos usam câmeras portáteis para adicionar valor ao seu trabalho. Os expectadores acostumados com o vídeo em tempo real podem perder a paciência com a falta de espontaneidade, e exigir que os estúdios mostrem programação ao vivo com valores de produção perceptivelmente elevados.

Para ajudar essa revolução a acontecer, eu vejo a necessidade de dois componentes importantes que, até onde eu sei, ainda não existem.

Se você é um empreendedor procurando por uma oportunidade, sinta-se livre para roubar a ideia. (Claro que não faria mal para o seu carma dividir uma pequena porcentagem comigo).

Primeiro, um equivalente virtual ao trailer do diretor em um jogo da Liga Nacional de Futebol Americano. (Nome ideal para este produto: Sala de controle). Rodando a partir de um laptop, a sala de controle aceita qualquer número de streams de um único evento ( ou uma montagem de alguns eventos relacionados) e permite ao “diretor” escolher qual vai entrar ao vivo a qualquer segundo. Todas as ferramentas da sala de controle – títulos, telestrators, zoom, etc – estão disponíveis.

Eu posso imaginar que o jogo de futebol ou peças escolares de todas as crianças terão pelo menos um pai ou mãe usando isso para orquestrar uma única produção em alta qualidade disponível ao vivo na web para qualquer parente que não puder estar presente. E toda demonstração terá seu Costa-Gravas em tempo real. Bill Nguyen me contou que o Color já está trabalhando em um acordo com um fornecedor de notícias para ajudar os usuários a fornecerem transmissões em tempo real de grandes eventos.

O segundo produto é uma engine de busca de vídeos em tempo real.

Vai depender de alguém desenvolver uma engine que permita buscar através de todos os milhões de transmissões ao vivo acontecendo a qualquer momento, produzindo a que o usuário queira ver. Eu não sei se o Google está trabalhando nisso, mas eu não ficaria surpreso se algum gênio da ciência da computação lançasse primeiro.

Novamente, todo tipo de problemas sociais surgem aqui. O que nós fazemos sobre o reconhecimento facial?  (Por mais problemático que seja o prospecto, eu não sei como nós vamos resolver isso). Quais serão as regras quando as pessoas começarem a aparecer em câmeras o tempo todo, e fizerem transmissão ao vivo do conteúdo na web? Todos nós seremos como Justin? Ou seremos uma sociedade focada no voyeurismo?

Obviamente, eu não tenho resposta para estas perguntas. No entanto, o que eu acredito é que conforme fica cada vez mais fácil fazer vídeos nos nossos celulares, tornar público o conteúdo, e talvez até ganhar uma graninha com isso, não há mais volta.

Qualquer um que duvide disso nunca notou como virou um reflexo para as pessoas, quando estão testemunhando qualquer incidente que seja minimamente interessante, pegar os celulares e começar a gravar. Só o que está faltando é conseguir deixar o vídeo disponível para o mundo no momento que ele está acontecendo – tornar tão fácil fazer uma transmissão ao vivo de um vídeo quanto é atualmente Tweetar.

Ah, claro, eu esqueci. Já existe uma empresa se autodenominando “O Twitter dos vídeos”. Ela é chamada de Klip, liderada por Alain Rossman, que participou da equipe original do Macintosh e é um dos pioneiros no ramo de tablets.

“Nós estamos chegando a um ponto onde tudo é capturado e tudo é compartilhado em tempo real,” disse Rossmann recentemente à Business Week. “Toda a nossa história será registrada e um mosaico de vídeos.”

Provavelmente o maior obstáculo a este movimento é a nossa deplorável taxa de adoção de banda larga de alta velocidade.

Fazer transmissão ao vivo de milhões de vídeos vai engarrafar tudo. Nós precisamos de compressão melhor, mais banda, e chutar a bunda dos poderes oligárquicos que querem limitar os nossos planos de dados.

Sem isso, a era dos vídeos em tempo real vai nos atingir mais como um Tsunami. Todas as conferências. Todos os shows. Todos os aniversários. Todos os LOLcats prestes a cair no banheiro depois de comerem catnip. (Ele vai cair? Não vai cair? Para os fanáticos por loucuras felinas, o que era um vídeo de 20 segundos no YouTube irá se transformar em uma perda de tempo de duas horas). Nossas câmeras irão capturar cada vez mais momentos grandiosos ou mundanos das nossas vidas – eventualmente nós poderemos nem desliga-las, exceto para carregar as baterias.

E, eu acredito que em uma década – ou talvez até antes – nós estaremos assistindo mais vídeos ao vivo do que programas de televisão pré-filmados, clipes no YouTube e trechos reciclados do Daily Show.

Melhor não apostar contra isso.

Foto: Um livestream via Justin.tv / John C Abell

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