Obras de infraestrutura costumam ser inimigas da ciência. Mas a construção de uma ferrovia na Inglaterra, por incrível que pareça, trouxe muitos frutos para a arqueologia.

Desde 2018, as obras do projeto HS2 – que visa ligar Londres às principais cidades da região central e norte do país – já desenterraram mais de 100 sítios arqueológicos. 

O mais recente deles, em Fleet Marston, no distrito de Aylesbury, revelou um cemitério do Império Romano Tardio (entre 284 d.C. e 476 d.C.) com 425 corpos. Cerca de 10% deles eram esqueletos decapitados, que foram enterrados com a cabeça entre as pernas ou ao lado dos pés.

Há uma possível explicação para a decapitação desse grupo: os pesquisadores sugerem que eles eram criminosos ou párias (excluídos da sociedade) — ainda que esse rito de sepultamento tenha sido comum na história da civilização romana.

Esqueletos decapitados
Esqueleto romano decapitado com o crânio entre as pernas. Imagem: HS2/Reprodução

Os achados não se restringem aos corpos. Também foram encontrados colheres, alfinetes e broches, sugerindo uma área habitada por civis. Dados e sinos desenterrados no local indicam ainda que jogos de azar e atividades religiosas também foram praticadas ali. 

Por fim, mas não menos importante, foram reveladas mais de 1,2 mil moedas, além de vários pesos de chumbo, sugerindo que havia também uma área de comércio. Os arqueólogos acreditam que as vendas tenham sido feitas na estrada, onde os antigos romanos montavam suas barracas e formavam uma espécie de mercado.

Dado romano
Dado antigo encontrado em cemitério do Império Romano Tardio. Imagem: HS2/Reprodução

Os pesquisadores devem continuar estudando os esqueletos decapitados a fim de descobrir mais sobre o estilo de vida, dieta e crenças dessa antiga civilização. As obras da HS2 devem ser entregues só depois de 2035, o que significa que vários outros sítios arqueológicos ainda podem ser revelados.

O projeto de 96 bilhões de libras enfrentou muita oposição devido ao seu impacto ambiental, mas parece estar tentando agir de forma responsável quanto às explorações científicas. 

“Todos os restos humanos descobertos serão tratados com dignidade, cuidado e respeito e nossas descobertas serão compartilhadas com a comunidade. O programa de arqueologia do HS2 procura envolver todas as comunidades locais e nacionais para compartilhar as informações e conhecimentos adquiridos, além de deixar um legado duradouro de arquivos e habilidades”, disse o porta-voz do projeto em nota.