O Talkative foi criado como maneira de facilitar o tratamento de pacientes afásicos — pessoas que sofreram a perda da linguagem devido a lesões no sistema nervoso central e têm dificuldades de comunicação, algo comum com pacientes que sofrem com as sequelas de um AVC, por exemplo.

“São pessoas que têm dificuldades para falar coisas simples, como ‘quero comer ovo'”, explica Juliana Salgado, 24, uma das quatro desenvolvedoras do app. “O paciente sabe o que quer falar, ele só não consegue se expressar”.

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Atualmente, o tratamento para afasia é feito com pranchetas de comunicação assistiva: figuras e os respectivos nomes impressões em folhas ou cartões. O paciente aponta para cada palavra, montando a frase que quer comunicar.

 

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Tela de abertura do app Talkative

Esta forma de comunicação é conhecida por Símbolos de Comunicação Pictórica, ou Picture Communication Symbols (PCS na sigla em inglês). Foi criada em 1980 pela fonoaudióloga americana Roxanna Mayer Johnson. Além de auxiliar no tratamento de pacientes afásicos, o PCS também é utilizado para no aprendizado de crianças.

Por se tratarem de folhas e cartelas impressas, o processo manual desta comunicação assistiva é mais comum e mais barata — talvez não tão prática, devido ao volume de papel que ele gera, mas certamente o de menor custo.

Existem alternativas eletrônicas a este processo manual, e elas são variadas: desde softwares para computador, a outros apps para celulares e tablets, até hardwares específicos – o computador acoplado à cadeira de rodas de Stephen Hawking, por exemplo, é uma tecnologia de comunicação assistiva (Hawking seleciona os caracteres de um teclado movendo a bochecha).

Stephen Hawking e o sistema ACAT (1)

Stephen Hawking conta com um sofisticado sistema de comunicação assistiva

Entretanto, nenhuma dessas alternativas é muito barata: o unitário de softwares para computador pode custar mais de R$ 1.000; alguns apps da categoria podem custar na casa dos US$ 70, sem contar o valor da cadeira como a de Hawking. Já o Talkative, por sua vez, custa US$ 3.

Desenvolvimento do Talkative

Ele foi elaborado por Pedro Figueiredo, 23, Elias Ayache, 24, Arthur Alvarez, 25, e Juliana, todos de Campinas, no interior de São Paulo, em pouco mais de 6 meses como um projeto de conclusão do BEPiD (Brazilian Education Program for iOS Development), um curso de desenvolvimento iOS do Instituto de Pesquisas Eldorado.

O app foi feito sem investimento externo. “O único custo que tivemos foi com a contratação de um artista para a criação das imagens”, conta Elias. “E isso saiu do nosso bolso”.

O custo com a arte obrigou os desenvolvedores a selecionarem melhor quais palavras estariam disponíveis, limitando-as a 321 palavras em português e 324 em inglês, nesta primeira versão. “Mas é possível criar o seu próprio teclado customizado com fotos”, explica Juliana enquanto anexa a foto de um bolo à respectiva palavra no teclado. É possível ainda adicionar as próprias palavras, criando ilimitadas possibilidades ao usuário.

Seleção e acompanhamento

Os desenvolvedores não chegaram a lidar diretamente com pacientes, mas estudaram análises do comportamento de usuários tratados por fonoaudiólogos e especialistas que fizeram uso do aplicativo. Isso serviu para melhorar não apenas a usabilidade, mas saber quais palavras estavam faltando. “Observamos a falta de algumas palavras bem brasileiras, como ‘churrasco’, por exemplo”, conta Elias mostrando a imagem de um espetinho de carne no app.

Descobriram também que era comum o usuário apertar mais de duas palavras ao mesmo tempo. “O toque múltiplo quebrava o aplicativo”, explica Arthur.

 

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O app foi testado no Hospital e Maternidade Celso Pierro, em Campinas, e a fonoaudióloga Luciana Granja utilizou o Talkative durante este período de testes com pacientes.

Ela explica que a prancheta digital pode, sim, melhorar no tratamento, tornando-o mais rápido, “mas isso depende de cada paciente”, uma vez que o nível da doença pode variar em cada caso. E apesar das facilidades que o tablet traz, o preço do dispositivo ainda pode ser um problema. “Principalmente nesta crise”, diz.

Foi durante o período de testes, porém, que os desenvolvedores perceberam que o objetivo do aplicativo ultrapassou as expectativas iniciais.

Além de ajudar no tratamento de uma doença específica, a equipe começou a reparar que a solução deles também funcionava bem no tratamento de dependentes químicos, portadores de esclerose e deficientes auditivos.

Barato, mas nem tanto

Apesar de mais acessível que outras soluções, o Talkative está disponível apenas para iOS e, como lembrou a fonoaudióloga Luciana, isso implica na necessidade de comprar um iPad ou iPhone, que, como sabemos bem, não são nada baratos no Brasil. “É obviamente mais barato que as alternativas, mas ainda é um custo e, para quem já paga por tantos tratamentos, pode ser um valor pesado”, diz Juliana.

Além do preço agressivo, outro grande diferencial do Talkative é o reconhecimento facial, o único da categoria com tal função, conforme alegam os desenvolvedores. “É o nosso grande diferencial”, explica Elias. Utilizando a câmera frontal do iPad, o usuário pode acelerar a seleção de imagens no teclado com o olho esquerdo e selecionar a figura desejada com um sorriso – algo similar ao computador de Stephen Hawking.

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Planos futuros

Com apenas 350 vagas para estudantes em todo o mundo, o Talkative esteve presente na WWDC, evento anual de desenvolvedores da Apple. Foi o segundo ano de Juliana na feira, onde ela pode apresentar o app para executivos e funcionários da Apple. “Conversamos direto com os desenvolvedores do iOS, então foi possível saber que alguns bugs no aplicativo não eram nossos, mas deles”, conta rindo.

Após explicar o Talkative, a equipe recebeu feedbacks de especialistas da Apple e pode conversar com outros programadores da plataforma. “Eles nos passaram dicas de como melhorar nos quesitos tanto de usabilidade quanto de desenvolvimento, foi uma experiência muito enriquecedora.”

A ideia agora é buscar investimento externo e parcerias com hospitais e instituições para melhorar a usabilidade do app e adicionar ainda mais palavras no vocabulário.

Por enquanto o Talkative está disponível apenas para plataformas iOS, mas os desenvolvedores têm planos de lançá-lo também para Android, “mas isso ainda vai levar um tempo”, diz Pedro. Ele prevê que a versão para a plataforma Google comece a ser criada no meio de 2017.

Você pode baixar o Talkative na App Store e conhecer mais sobre a equipe aqui.

Imagem do topo: Da esquerda para a direita: Elias Ayache, Juliana Salgado, Pedro Figueiredo e Arthur Alvarez. (Crédito: Renan Lopes).

Atualizado às 17:45