Embora toda semana apareça a notícia de que um asteroide passou raspando pela Terra, apenas um pequeno punhado de objetos representam uma ameaça séria ao nosso planeta. Mas o pouco que existe, de fato, pode causar danos significativos, e o gigantesco asteroide Apophis está entre eles. E novas análises feitas por cientistas apontam que o rochedo tem potencial para nos atingir em um curto período de tempo: daqui a 48 anos.

As observações feitas no início deste ano com o telescópio Subaru, no Havaí, estão fornecendo aos astrônomos uma ideia de como o efeito Yarkovsky tem influenciado o caminho orbital do asteroide conhecido como 99942 Apophis. Este efeito é como um sistema de propulsão embutido para asteroides, no qual traços de radiação vazam e podem alterar o momento de um objeto no espaço, fazendo com que ele se desvie ligeiramente de seu percurso original traçado pela gravidade.

“Sem levar em conta a deriva de Yarkovsky, Apophis ainda é um objeto ameaçador, e não apenas em 2068. Levando o efeito Yarkovsky em consideração, o cenário de impacto de 2068 ainda está em jogo. A chance é pequena, mas não está descartada”, explicou Dave Tholen, pesquisador do Instituto de Astronomia da Universidade do Havaí e coautor do estudo pendente.

Tholen, junto com Davide Farnocchia do Jet Propulsion Laboratory da NASA, analisou os novos números, descobrindo que a aceleração de Yarkovsky está mantendo a ameaça Apophis dentro da janela de 2068. As descobertas estão em uma nova pesquisa apresentada no encontro virtual de 2020 da Divisão de Ciências Planetárias da Sociedade Astronômica Americana.

Asteroide Apophis. Imagem: UH/IA

Uma captura do asteroide Apophis (dentro do círculo) feita durante sua descoberta em 2004. Imagem: UH/IA

Atualmente, Apophis possui o título de terceira maior ameaça na Tabela de Risco Sentinela da NASA. A estimativa da Escala de Perigo de Impacto Técnico de Palermo sugere que há uma chance de 1 em 150.000 do Apophis atingir a Terra em 12 de abril de 2068 (marque a data no seu calendário). Ou, se você preferir porcentagens, é uma chance de 0,00067% de impacto na Terra. Tholen disse que as chances estão realmente próximas de 1 em 530.000 — um número usado pelo serviço de monitor de impacto NEODyS, que inclui uma taxa de variação nominal do efeito de Yarkovsky.

A nova análise resultará em uma revisão do risco de ameaça para o Apophis. Mesmo assim, Tholen disse que precisaremos “ter cuidado com este cálculo”, pois haverá outras variáveis ​​a serem consideradas. E, de fato, devemos esperar que as chances mudem ao longo do tempo, conforme os astrônomos controlam melhor o itinerário do asteroide.

Uma colisão com a Terra — por mais improvável que pareça — seria seriamente ruim. Envolto com níquel e ferro, o Apophis mede mais de 300 metros de largura, o que equivale a mais de três campos de futebol. Um impacto com a superfície liberaria o equivalente a cerca de 1.151 megatons de trinitrotolueno (mais conhecido como TNT, uma substância química altamente explosiva). Esse evento calamitoso acontece na Terra uma vez a cada 80.000 anos.

Por isso, é compreensível os cientistas estarem observando de perto o Apophis para melhorar suas estimativas. Quando o asteroide foi descoberto em 2004, por exemplo, os astrônomos inicialmente previram um cenário muito pior, com chance de 2,7% de um impacto na Terra em 2029. Eles já descartaram essa possibilidade, junto com um possível impacto em 2036. Mas nada segue confirmado quanto ao encontro de 2068, que ainda não pode ser descartado devido a como o efeito Yarkovsky está influenciando o Apophis.

Por serem expostos aos raios do Sol, os asteroides absorvem muita energia. Eventualmente, esse excesso de calor é redirecionado de volta para o espaço, mas não de uma forma perfeitamente uniforme em todo o corpo do asteroide. Isso resulta em alguma aceleração adicional, que pode mudar a trajetória do objeto.

“A luz irradiada de um corpo dá a esse objeto um pequeno empurrão. O lado mais quente de um asteroide empurra um pouco mais forte do que o lado mais frio porque o mais quente emite mais luz (em comprimentos de onda infravermelhos invisíveis), então há uma força não-gravitacional agindo no corpo”, explicou Tholen, que é um dos pesquisadores que descobriram o Apophis. “É uma força tão pequena que não é perceptível para objetos maiores, mas quanto menor ele for, mais fácil fica para detectar o efeito”, completou.

Tholen e seus colegas têm rastreado a posição de Apophis nos últimos 16 anos, e agora eles notaram um ligeiro desvio de um caminho orbital, restrito exclusivamente pela gravidade.

“As observações feitas com o Subaru em janeiro e março deste ano foram críticas para o sucesso desta observação, pois nos permitiram medir a posição do asteroide com uma precisão de cerca de duas vezes o tamanho dele próprio. O Apophis tem 300 metros de diâmetro e medimos a posição a cerca de 700 metros, apesar de estarmos a aproximadamente 70 milhões de quilômetros do objeto”, disse.

Os cálculos de sua equipe mostram que o semieixo maior (metade do comprimento mais longo de uma órbita elíptica) da órbita de Apophis está atualmente encolhendo a uma taxa de cerca de 170 metros a cada ano como resultado do efeito Yarkovsky, e não por causa da gravidade. Quando o Apophis passar pela Terra em 2029, seu semieixo maior aumentará significativamente por conta da gravidade do nosso planeta.

Mais observações devem melhorar as estimativas, incluindo uma melhor caracterização de como o efeito Yarkovsky está influenciando a taxa de deriva do Apophis. É bastante seguro dizer que os astrônomos saberão se um impacto com a Terra será inevitável bem antes de 2068.

E só por curiosidade: os dois objetos próximos à Terra com classificações de risco mais altas na Escala de Perigo de Impacto Técnico de Palermo são o asteroide 29075 (1950 DA) e o asteroide Bennu.

O 29075 (1950 DA) tem 1 chance em 8.300 (0,012%) de atingir a Terra em 2880, e Bennu, que está sendo rondado pela espaçonave OSIRIS-REx da NASA, tem 1 chance em 2.700 (0,037%) de um impacto na Terra entre os anos de 2175 e 2199.

Existem objetos com maior chance de nos atingir, mas a escala de Palermo leva outros fatores em consideração, como o potencial de um asteroide para causar danos catastróficos.