A chegada da variante Delta — cepa considerada mais transmissível do novo coronavírus — nos Estados Unidos está preocupando os cientistas e a população. Mas até que ponto você deveria se preocupar, especialmente se já estiver totalmente vacinado?

A Delta, também conhecida como B.1.617.2, foi descoberta pela primeira vez na Índia em outubro do ano passado. As evidências, em grande parte do Reino Unido e da Índia, sugerem que ela é mais transmissível do que a variante Alfa (também conhecida como B.1.1.7), cepa encontrada pela primeira vez no Reino Unido. As estimativas variam, mas a Delta pode ser cerca de 40% mais transmissível do que o Alpha e até duas vezes mais transmissível do que o primeiro Sars-CoV-2.

A Alfa rapidamente se estabeleceu como a cepa dominante em muitos países, incluindo os EUA, no início deste ano, e agora a Delta fez o mesmo pelo menos no Reino Unido e na Índia. Nos Estados Unidos, acredita-se que cerca de 20% dos novos casos sejam ​​pela Delta e, no próximo mês ou mais, é quase certo que seja a nova cepa dominante.

Neste ponto, não está claro se ela é simplesmente mais transmissível do que as cepas anteriores ou se também é mais mortal. Mas mesmo que fosse apenas mais contagiosa, os cientistas estão preocupados com seu potencial de se espalhar mais rápido. Acredita-se que ela já tenha alimentado o maior pico de contágio na Índia, que registrou quase 400 mil mortes. Além disso, ela parece estar por trás das novas ondas da doença na África.

A maioria desses países ainda têm taxas de vacinação baixas ou inexistentes. Mas a Delta também tem causado impacto em países altamente vacinados, como o Reino Unido e Israel. No Reino Unido, ela foi claramente responsável por uma onda de casos relatados no último mês, e em Israel, um aumento de casos ligados à Delta levou o governo a restabelecer as regras sobre o uso de máscaras em ambientes fechados. A Organização Mundial da Saúde também pediu que as pessoas vacinadas continuassem usando máscaras.

Tudo isso para dizer que Delta é uma versão mais perigosa de uma doença altamente contagiosa que já matou milhões. Não é correto dizer que as pessoas vacinadas não têm absolutamente nada a temer. Mas, felizmente, o risco parece ser muito baixo.

A vigilância do vírus no Reino Unido, provavelmente uma dos melhores do mundo, não apenas registrou o surgimento da Delta no país, mas também forneceu dados sobre o risco que ela representa para pessoas totalmente vacinadas com a Pfizer ou a AstraZeneca. Esses dados sugeriram que a primeira dose de qualquer uma das vacinas não fornece tanta proteção contra a Delta quanto contra outras cepas. Mas essa proteção é apenas ligeiramente menor quando se compara a Delta com outras variantes em pessoas totalmente vacinadas com duas doses. E o mais importante, ambas as vacinas continuam a oferecer proteção altamente eficaz (mais de 90%) contra hospitalizações e mortes.

Isso também é confirmado por dados em nível nacional — embora os casos tenham aumentado significativamente nas últimas semanas, as hospitalizações não aumentaram tanto e as mortes não aumentaram nada. Já em Israel, que tem a maior taxa de vacinação total do mundo, quase 60%, os casos aumentaram um pouco, mas não as mortes e hospitalizações.

Uma questão mais aberta diz respeito à vacina Johnson & Johnson, que apenas 12 milhões de americanos tomaram. No momento, não há dados sobre como a eficácia pode mudar com a Delta. Mas outras evidências de variantes anteriores, como Alpha, sugerem que a Delta deve, na pior das hipóteses, diminuir modestamente seu nível de proteção, mas a proteção contra infecções mais graves deve permanecer alta com a J&J. Dito isso, alguns especialistas estão especulando que uma imunização de reforço, provavelmente com uma vacina de mRNA, pode ser valiosa para aqueles que tomaram a J&J.

A Delta representa uma atualização da cepa original do coronavírus no que diz respeito ao chamado “fit”, como é denominada a probabilidade de se replicar em nossas células. Mas sempre que alguém foi exposto a ele, por vacinação ou infecção anterior, o sistema imunológico do corpo aprende como neutralizar o germe. Assim como os vírus, nossas células imunológicas podem produzir versões ligeiramente mutantes de anticorpos que tentam antecipar como é provável que eles evoluam. Essa adaptabilidade significa que não é fácil para um vírus enganar completamente um sistema imunológico em funcionamento que já viu alguma forma anterior dele.

Claro, o coronavírus pode eventualmente evoluir o suficiente para escapar substancialmente de nossa imunidade. Mas a Delta não parece ter atingido esse objetivo, com base em todas as informações até o momento. Uma nova pesquisa publicada, na verdade, sugere que a imunidade fornecida pelas vacinas de mRNA tem o potencial de durar pelo menos mais alguns anos.

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Infelizmente, mesmo nos Estados Unidos, ainda existem áreas do país onde as taxas de vacinação são muito mais baixas do que o nível nacional (63% das pessoas elegíveis têm pelo menos uma dose). Pessoas imunossuprimidas que foram vacinadas, mas não criam uma resposta tão robusta quanto outras também podem estar em maior risco de doença, e há milhões de crianças com menos de 12 anos que simplesmente não têm acesso à vacinação agora.

Mesmo quando você leva em consideração que muitas pessoas não vacinadas nos EUA podem já ter contraído uma infecção, permanece a possibilidade de que a Delta leve a picos regionais da pandemia. Como antes, esses picos serão impulsionados por pessoas sem nenhuma exposição anterior a qualquer versão do coronavírus. Mas, ao contrário dos picos anteriores, quase todos os casos de doenças graves e morte agora são facilmente evitáveis ​​por meio da vacinação.