Depois de passarem boa parte do século 20 sendo relacionadas com tratamentos charlatões, as sanguessugas estão ressurgindo na medicina. Mas apesar de existirem evidências reais que confirmam os diversos benefícios das sanguessugas, não consigo deixar de ser cético a uma das afirmações que um vídeo da Reuters mostrou nessa terça (6) – especificamente que elas podem melhorar a recuperação de atletas.

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Artur Klena, identificado como um líder do laboratório de uma empresa polonesa de exportação de sanguessugas, disse à Reuters que clubes esportivos estão comprando sanguessugas para ajudar seus atletas a “regenerar músculos depois de exercícios intensos.

Sanguessugas foram usadas há milhares de anos para tratar uma variedade de condições médicas, incluindo dores, gota, febre, e perda de audição.

Na maioria das vezes, as sanguessugas foram veneradas simplesmente por sugar o sangue de nós – a principal teoria apontava que doenças eram causadas por um desequilíbrio de “humores”. Nossa sina pelo animal ficou tão grande que por muito pouco não extinguimos certas espécies que costumávamos usar no início do século 19, como a Hirudo medicinalis. Mas conforme a era da medicina moderna começou a se expandir, as sanguessugas se tornaram irrelevantes.

Recentemente, no entanto, médicos e pesquisadores descobriram que elas – e o coquetel de químicos encontrados dentro de suas salivas que auxiliam na rotina de comer-e-correr – realmente podem proporcionar efeitos benéficos ao corpo humano.

A saliva do animal contém poderosos químicos anticoagulantes e anti-inflamatórios que já foram usados para desenvolver tratamentos para doenças cardiovasculares, enquanto as próprias sanguessugas podem limpar algumas feridas abertas melhor que métodos modernos disponíveis. Outra pesquisa encontrou evidências que os componentes da saliva da sanguessuga poderiam possivelmente até tratar dores derivadas do câncer e até curar condições como artrite.

Dito isso, apesar da Food and Drug Administration FDA (FDA, na sigla em inglês. Agência federal dos EUA que regula, entre outras coisas, medicamentos e tratamentos médicos; equivalente a Anvisa) ter formalmente aprovado tratamento com sanguessugas em 2004, elas só pode ser usadas em propósitos restritivos.

“Elas são liberadas para uso médico para uma razão muito específica: remover sangue coagulado estagnante que se juntou de forma anormal em uma área e deve ser removido para liberar pressão e permite que sangue fresco entre na área em seu lugar”, disse Ronald Sherman, médico clínico na Agência de Saúde de Orange County, na Califórnia, e diretor da Fundação BioTherapeutics, Education & Research (BTER), ao Gizmodo por email.

“Muitas pessoas também usam sanguessugas para outros propósitos … mas elas geralmente não são médicas ou hospitais, cujas licenças poderiam ser revogadas por utilizar sanguessugas em métodos não aprovados”, afirmou.

Apesar de Sherman não conhecer nenhuma pesquisa que formalmente estudou os benefícios na recuperação de exercícios das sanguessugas (e eu também não pude encontrar nada em uma busca no PubMed), ele diz que isso não está necessariamente muito distante da nossa realidade.

“A saliva da sanguessuga contém moléculas que causam a vasodilatação ou dilatação dos vasos sanguíneos”, ele explica. “Nós sabemos que vasos dilatados podem carregar mais nutrientes, oxigênio e células especializadas em combater infecções, reparar danos, e fazer uma série de outros trabalhos que precisam ser feitos para proteger e reparar o corpo. Vasos dilatados são semelhantes à adição de novas faixas em estradas, tornando o transporte de materiais mais fácil e rápido (neste caso, materiais como oxigênio, bioquímicos, células) para onde é preciso”.

Sanguessugas também cospem moléculas como a hialuronidase, que são conhecidas por alterar a estrutura física do tecido do hospedeiro (mas, de novo, falhei em encontrar qualquer pesquisa clara dessa conexão).

De qualquer forma, fica claro que sanguessugas estão se tornando um tratamento barato e popular mais uma vez, especialmente em lugares como a Rússia, onde 10 milhões de sanguessugas são prescritas a cada ano, de acordo com um artigo do Miami Herald. Sherman diz que é difícil medir a prevalência de tratamentos com sanguessugas nos estados, mas ele especula que o uso não aprovado deve ser dez ou 20 vezes mais que o que é oficialmente registrado por hospitais.

Imagem de topo: KCBIO/Flickr

[Reuters]