A virada de 2021 para 2022 terá um gostinho especial pata todos.

No último final de ano, muitas famílias ficaram separadas pelos altos riscos da Covid-19. Agora, com a grande adesão à vacinação, reuniões controladas voltarão a ser possíveis. Mas ainda é cedo para dizer que o Brasil e o mundo estão na situação ideal.

Há muitas dúvidas sobre a variante Ômicron, a vacinação em crianças e a recusa ao imunizante.

O Gizmodo Brasil entrevistou com exclusividade a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC) para projetar o que se pode esperar de 2022 sobre temas relacionados à pandemia.

Vamos a eles:

Vacinação no Brasil

Apesar da disparidade entre estados, o Brasil é um país que apresenta altos níveis de vacinação. O imunizante começou a ser oferecido aos idosos em janeiro deste ano e, neste momento, parte desse grupo já recebeu até mesmo uma terceira dose do imunizante.

Tudo isso torna o ano de 2022 promissor: os jovens estarão com a terceira dose e as crianças devem ser vacinadas, tendo uma cobertura vacinal em massa no país. Mas a pandemia é algo mundial. De acordo com Natalia Pasternak, o Brasil teria que pensar de forma globalizada e se preocupar neste momento em ter um protagonismo na América Latina.

“Há muitos países, por exemplo, na América Central que ainda não conseguiram vacinar. De repente, o Brasil se juntando com outros países que também avançaram bem na vacinação como o Chile e Uruguai, poderia pensar em prover assistência para esses países mais pobres. Enquanto houver países que não conseguem controlar a pandemia, o mundo inteiro estará em risco”, explica a microbiologista. 

Recusa vacinal no exterior

Por outro lado, há desafios a serem enfrentados em outras partes do mundo. Países da Europa e os Estados Unidos possuem vacinas em abundância, mas sofrem resistência por parte da população. Por conta disso, esses países não conseguem atingir a meta de vacinação.

Em contrapartida, há países, principalmente no continente africano, que não têm acesso a vacinas na quantidade necessária para suprir a demanda da população. De acordo com Pasternak, essas duas situações “acabam deixando o mundo mais vulnerável à pandemia”.

É preciso investir na vacinação em massa, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez na década de 70, levando a erradicação da varíola. A cientista explica que o Sars-CoV-2 não será erradicado, mas que podemos alcançar medidas de controle efetivas com programas de vacinação global.

Mas convencer as pessoas a tomar o imunizante já é um pouco mais difícil. Foram 50 anos de esforços do Programa Nacional de Imunizações (PNI) no Brasil para que o brasileiro ganhasse confiança nas vacinas.

“É um processo longo de convencimento da população, de esclarecimento de campanhas informativas, de campanhas publicitárias e isso não se faz da noite para o dia.”

Variante Ômicron 

A recusa à vacinação abre espaço para o surgimento de variantes, que podem ter certo escape à vacina. Isso não significa que pessoas vacinadas irão necessariamente desenvolver quadros graves da doença, mas ainda podem se infectar e transmitir o vírus. Dessa forma, a pandemia se estende, os níveis de hospitalização seguem altos e pessoas continuam morrendo em decorrência da Covid-19.

Por enquanto, autoridades e cientistas do mundo todo estão de olho na variante Ômicron. Estudos preliminares indicam que ela é mais transmissível que a Delta e parece ter um escape de vacinas. Isso significa que o vírus pode acabar passando batido por parte de nossos anticorpos. Mas estes anticorpos não são a nossa única resposta imune, o que indica que não estamos 100% desprotegidos do vírus, apenas um pouco mais vulneráveis. 

O escape foi observado, principalmente, entre pessoas que receberam apenas uma ou duas doses do imunizante. A terceira dose parece ser suficiente para barrar a Ômicron. “Isso traz algumas informações interessantes para a gente: primeiro, de que provavelmente as vacinas vão acabar se fixando em vacinas de três doses. Mais do que chamar de dose de reforço, a terceira dose vai entrar no regime vacinal”, explica a microbiologista. 

Se a situação for confirmada por pesquisadores, talvez uma quarta dose não seja necessária em 2022. De toda forma, farmacêuticas como a Pfizer e a Moderna já estão desenvolvendo vacinas específicas para a variante. Pasternak diz que “essa é a grande vantagem das vacinas chamadas plug and play. É muito fácil trocar uma sequência genética delas”, o que facilita na hora de desenhar imunizantes específicos para novas variantes. 

Mas ainda há uma pergunta sem resposta sobre a Ômicron: afinal, ela causa doenças mais graves? Até agora, a variante parece ter causado quadros leves de Covid-19. Porém, essa observação deve ser tratada com cautela.

Os cientistas ainda não sabem dizer se os sintomas leves são consequência da fisiologia do vírus ou resultados de uma infecção obtida após a vacinação ou pré-exposição ao Sars-CoV-2. 

Vacinação infantil

A Anvisa aprovou a vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos na última quinta-feira (16), o que significa que a faixa etária deve receber o imunizante até o próximo ano. Isso trará tranquilidade aos pais, que poderão ver seus filhos participando de atividades sociais e escolares de forma protegida.

Por mais que seja de conhecimento geral que as crianças têm menor probabilidade de transmitir a doença e também de desenvolvê-la de forma grave, ainda há preocupações.

“O próprio CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos EUA traz a informação em seu site de que ocorreram mais de 8.000 hospitalizações de crianças [por Covid], com aproximadamente cem mortes. O número pode parecer muito baixo, mas já coloca a Covid-19 entre as 10 principais causas de morte infantil dessa faixa etária. Isso já justifica a inclusão da vacina no calendário vacinal junto a outras doenças”, explica Pasternak.

Efeito das eleições

Em 2020, o momento das eleições causou preocupações devido à aglomeração de pessoas nos locais de votação. Esse ano, o medo deve partir de outro lugar: a politização feita em cima da ciência e das vacinas. 

Para Pasternak, apesar da ciência existir em um ambiente político, sendo utilizada no desenvolvimento de políticas públicas, por exemplo, “ela precisa ser compreendida na sua essência”. 

“Vacinar é questão de saúde pública e é algo que precisa ser muito bem comunicado. Quando você começa a politizar em cima [da vacina] dizendo que vai ferir liberdades individuais, você está distorcendo a ciência para uma causa ideológica e política. Enfim, isso pode atrair votos, mas acaba prejudicando a saúde coletiva”, finaliza a cientista.