A Europa, com suas curtas distâncias entre países, mostrou-se o terreno fértil ideal para que a BlaBlaCar apresentasse o que seu app era capaz de fazer, reduzindo custos de viagem e conectando pessoas e cidades em uma plataforma de carona rápida entre cidades. Seria de se esperar que uma vinda para o Brasil fosse desafiar o modelo, com as dimensões continentais do País. Porém, quase três anos depois de chegar em solo brasileiro, não há muito mais pelo que os executivos da empresa poderiam ter esperado. O futuro, sim, para eles, guarda um caminho ainda mais frutífero.

O vice-presidente de mercados internacionais da companhia, o polonês Piotr Jas, encontrou-se com o Gizmodo Brasil, assim como Ricardo Leite, diretor da BlaBlaCar no Brasil, e, na conversa, a dupla analisou a vida ainda curta da startup no País, os desafios atuais do serviço neste mercado, além de projetar quais os próximos passos para a companhia, que, entre o final do ano passado e esta metade de 2018, viu seu número de usuários brasileiros crescer em 36%, indo de 1,6 milhão para 2,5 milhões.

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Apesar de ser o mercado de crescimento mais rápido da BlaBlaCar, o Brasil atualmente não gera nenhum lucro para a companhia francesa, mas Jas afirmou durante a entrevista que isso deve mudar em um futuro próximo, com a introdução de um sistema de assinatura que, acredita ele, não assustará os usuários atuais.

Piotr Jas, vice-presidente de mercados internacionais da BlaBlaCar (Imagem: Divulgação/BlaBlaCar)

Em um país perigoso como o Brasil, era de se esperar que uma das principais preocupações em relação a um serviço em que você entra no carro de um desconhecido para ser levado até outra cidade fosse a segurança, mas o executivo acredita que os mecanismos adotados pela companhia, incluindo a introdução inédita da checagem de identidade no cadastro, tenham ajudado os usuários a superar essa desconfiança.

Isso e a economia gerada a partir da divisão das despesas de viagem contribuíram para o crescimento rápido do serviço no País, mas tanto Jas quanto Ricardo Leite acreditam que um componente em especial diferencia o Brasil dos outros mercados e, por sua vez, traz ainda mais atratividade ao app: a sociabilidade do brasileiro. Abaixo, um resumo da conversa com os executivos da BlaBlaCar:

O que torna o Brasil um lugar especial para um serviço como o BlaBlaCar?

Piotr Jas:  O Brasil é um mercado de crescimento rápido, o que o torna definitivamente especial. É um contribuidor muito grande em termos de número de reservas acontecendo. É o quarto colocado em termos de reservas atualmente. Este foi um dos últimos mercados em que lançamos, então é um mercado muito bom que tem se desenvolvido há uns dois anos. Venho da Polônia, onde lançamos a BlaBlaCar em outubro de 2012, ou três anos antes do Brasil, e esses mercados hoje não estão longe um do outro. Estamos muito satisfeitos com o que está acontecendo aqui, em termos de crescimento, de atividade, de recepção do serviço.

Ricardo Leite: Costumo dizer para os meus colegas franceses que a França cabe na Bahia, o que é verdade. E temos custos altos para dirigir, é caro comprar um carro e dirigi-lo, o que aumenta a necessidade de se dividir custos.

Quais diferenças vocês veem entre os consumidores europeus e os brasileiros?

PJ: A partir do que discuto com o Ricardo (Leite) frequentemente, acho que as pessoas (brasileiras) tomam muitas decisões de última hora de viajar, o que também significa que, às vezes, haverá problemas de pessoas cancelando de última hora sua viagem ou decidindo de última hora que vão viajar. Então, é algo em que precisamos melhorar, melhorando essa experiência, antecipando essas coisas ao combinar as pessoas para que tudo dê certo. Mas acho que é um desafio.

Segundo a BlaBlaCar, no Brasil, 38% das vagas em carros para viagens são publicadas nas 24 horas que antecedem a carona.

RL: Não temos dados rígidos, de fato, mas sabemos que os usuários no Brasil são mais sociáveis, então, no fim de uma viagem, uma de seis horas, digamos, de São Paulo até o Rio, já são amigos. Nós, na verdade, temos dados mostrando que 21% dos usuários contam segredos no carro que nunca haviam dito a ninguém antes. No fim da viagem, elas são amigas, estão trocando Facebook, às vezes saem juntas. E em outros países, as pessoas, não que elas sejam frias, mas elas são um pouco menos sociáveis nesse sentido. Outra coisa é a idade: muitas pessoas pensam que a BlaBlaCar é só para estudantes universitários e pessoas muito jovens, e isso não é completamente a verdade.

Dito isso, o que vemos é que a média de idade dos novos usuários está subindo ao longo do tempo. Quando pensamos em early adopters, temos os millennials. Então, muita gente com 35 anos começa a se juntar e, depois, em dois, três, quatro anos, começamos a visar pessoas com 40, 50 anos. Algumas campanhas de marketing na França hoje estão visando pessoas com 50 anos.

Vocês tiveram que adaptar algumas estratégias levando em conta o mercado brasileiro?

PJ: O Brasil tem um mercado móvel forte (85% dos passageiros preferem usar o celular para reservar suas viagens, contra uma média de cerca de 50% na Europa). Nós sabíamos que seria (por meio disso) como cresceríamos. Então, precisávamos ajustar como iríamos propagandear este produto, como nos comunicaríamos com as pessoas sobre ele. E também reforçar recursos que são móveis em nosso produto. Acho que também sabíamos que existia uma certa necessidade de aumentar a segurança e a confiança na plataforma, então, no Brasil, lançamos (o serviço) com a checagem de identidade, para que as pessoas possam certificar sua identidade na plataforma, o que não é o caso para todos os mercados. Era um recurso importante para o mercado brasileiro, e é muito popular. Ouvimos das pessoas que elas são bastante gratas por isso.

Em termos de como o mercado de transportes funciona, obviamente, a maneira como vimos o mercado foi muita demanda de “conexão”, no sentido de que existem muitos lugares que não são conectados com o transporte público. Existem vários lugares que não são conectados, em que as pessoas não podiam viajar, e agora vimos que conectamos 40 mil pares de cidades no Brasil — e que 50% dessas rotas não são conectadas entre si com nenhum outro tipo de transporte. Então, sabíamos que tinha um grande potencial, e nosso produto serve a esse propósito, de conectar alguém que vive em uma cidade pequena, no interior de São Paulo, digamos, e quer chegar até o Rio de Janeiro, por exemplo. Essa pessoa precisava antes viajar primeiro para São Paulo e, depois, para o Rio. E nosso produto é projetado para atender esse tipo de necessidade.

No sentido de que se trata de um território enorme e que tem a demanda por nosso produto, existem algumas diferenças entre mercados. O Brasil é o único mercado em que operamos em que não há ferrovias. Se isso interferiu em como fizemos nossa estratégia? É algo que sabíamos.

RL: Só para dar dois exemplos, de cidades que não são conectadas por trens, ônibus ou mesmo barcos, Campinas e Ubatuba. Se você está em Campinas, precisa ir para São Paulo e, de lá, para Ubatuba, mas, com a BlaBlaCar, você pode ir diretamente.

PJ: Também sabemos que tem muito trabalho a fazer para aprimorar essa experiência, para torná-la direta, para que você apenas entre em seu app móvel, querendo ir de uma cidade pequena para uma cidade grande. E, certamente, existem milhares de motoristas que passam por sua cidade pequena, mas não estão sequer cientes de que você quer ir com eles, e eles (de outro modo) não pensariam em parar para te buscar. Então, da maneira como o nosso produto funciona agora, estamos melhorando essa experiência, basicamente atendendo esse tipo de necessidade. E isso também exige educar todos os passageiros e motoristas sobre essas oportunidades, combinando essas pessoas de uma forma dinâmica. Portanto, isso é um desafio que nós encaramos. Mas já atendemos vários desses casos e acreditamos que possamos melhorar.

A falta de um sistema ferroviário nacional foi uma das motivações para trazer o serviço ao Brasil? A França, onde foi criado a BlaBlaCar, por exemplo, conta com um sistema robusto no SNCF (um sistema de transporte ferroviário nacional público).

PJ: Nesse sentido, na França você também vai encontrar certa demanda em cidades menores, porque a experiência de lá requer múltiplos níveis, como pegar o metrô para chegar até o terminal de ônibus, para ir até o trem e, então, trocar para o táxi para chegar até seu endereço. Acho que isso também acontece lá, só que são diferentes necessidades de transporte.

Eu diria que todos os mercados trazem aprendizados que a gente tira para desenvolver nosso produto e que ele é aplicável globalmente. Há leves diferenças, como em como a geografia funciona, mas acho que esse é um sistema que funcionaria em qualquer cidade.

Vocês mencionaram o hábito dos brasileiros de viajar de última hora. Estão trabalhando em ferramentas para evitar problemas em relação a isso?

PJ: Acho que estamos melhorando cada vez mais. Existe um certo mecanismo no app que nos ajuda a conscientizar mais as pessoas sobre isso, que é o sistema de avaliações, porque nos ajuda a atrair mais pessoas, já que os usuários pensam duas vezes antes de cancelar as corridas (de última hora), porque você sabe que tem uma avaliação negativa caso você chegue atrasado ou cancele de última hora. Temos uma grande equipe de serviço de atendimento ao consumidor por trás da plataforma, então existem pessoas de verdade a quem você pode relatar comportamentos como esse.

Acho que essa é uma parcela muito pequena de toda a atividade, acho que a maioria das pessoas se conectam com sucesso, e é por isso que crescemos tão rapidamente no Brasil. Embora ainda existam tópicos em que precisemos focar, de maneira que ajude as pessoas a entender a plataforma de uma maneira que seja mais justa para motoristas e passageiros.

RL: Por outro lado, (observando esse comportamento brasileiro), existe muito mais espaço para espontaneidade, o que é positivo. Conheci uma pessoa uma vez, por exemplo, que disse que estava no aeroporto, pegando o último voo de São Paulo para Belo Horizonte, e, por algum motivo, o voo foi cancelado. Ele pegou o celular, abriu a BlaBlaCar, digitou “São Paulo – Belo Horizonte”, “agora”, e em uma hora ele foi para Belo Horizonte. Ou, digamos, você acorda em um sábado de manhã, às 7h, e pensa: “Quero ir para a praia agora”. Você busca uma cidade,como Ubatuba, e vê uma pessoa partindo de São Paulo (para lá) naquele momento, por exemplo.

O que está por trás do crescimento no número de usuários brasileiros do fim de 2017 para este meio de 2018?

PJ: Acredito que, em termos do número de pessoas que viajam no Brasil, estamos apenas na superfície, e existem muitas pessoas que não viajam. E essas pessoas poderiam agora viajar, porque a BlaBlaCar está lá e ela traz uma solução mais acessível. Como explicamos, existem muitos casos em que as pessoas vivem em lugares em que não encontram um meio de transporte (entre cidades). Também estamos melhorando no entendimento das necessidades da comunidade, na combinação entre as pessoas (passageiros e motoristas), estamos com mecanismos mais inteligentes nisso e estamos trabalhando em um algoritmo que vai funcionar em casos em que um motorista está passando por um lugar em que ele inicialmente não iria parar, mas onde há um passageiro que quer viajar. E eles podem facilmente entrar em contato entre si, e nós os conectamos.

É isso que estamos desenvolvendo, ainda estamos testando, então tem muito trabalho pela frente. Mas isso são coisas que dão apoio ao crescimento. O principal, entretanto, são os usuários. Eles conversam entre si, recomendam, dizem que tiveram uma ótima experiência. Como motorista, você divide os custos, e, como passageiro, existem exemplos (de benefícios), como você ficar preso em um aeroporto e encontrar uma solução para chegar em casa. Essas são histórias que as pessoas contam umas para as outras.

Alguns serviços podem ter maior dificuldade de entrar no mercado brasileiro, ainda que tenham funcionado mais facilmente em outros países, e temos ainda a questão da preocupação com a segurança no Brasil. Como vocês enfrentaram esse desafio?

PJ: Essas coisas que você descreveu não restringiram nosso crescimento. Acho que elas perceberam que essa é uma ótima plataforma para superar medos como a insegurança, com o sistema de avaliações. Acho que é algo que muitas pessoas aprovaram. Temos um ótimo sistema de avaliação, em que tanto passageiro quanto motorista podem avaliar um ao outro. Todas essas avaliações carregam uma mensagem muito forte. Essa avaliação é suficiente para comprovar a confiabilidade do passageiro/motorista. E as pessoas têm múltiplas avaliações.

Então, acho que esse é o maior recurso que nos ajuda a superar esses medos. E quando olhamos para os perfis, vemos fotos reais das pessoas, vemos que elas tiveram suas identidades checadas, que elas colocaram algumas palavras para se descrever. Portanto, se você passa por todos esses detalhes, acredito que não seja mais um estranho, mas, sim, uma pessoa que fez um esforço de não apenas verificar seu perfil, mas também de já ter feito algumas viagens e ter seu RG identificado.

Acho que isso é o que nos ajuda a crescer. Este é o primeiro mercado em que lançamos isso (verificação de identidade). O Brasil não é nosso primeiro mercado, então aprendemos as lições e melhoramos a cada dia, descobrindo como ajudar as pessoas a superarem esse medo de viajar com alguém que não conheciam.

Ainda no assunto de segurança, vocês têm o recurso Só Para Elas, que conecta passageiras e motoristas mulheres. Como ele tem se saído?

PJ: Este recurso foi lançado quando lançamos o serviço, há seis anos. Inicialmente, foi uma resposta a um pedido da comunidade, e percebemos que, ao longo do tempo, houve uma diminuição no número de mulheres que usam esse recurso, porque, uma vez que elas começam a usar nosso serviço, percebem que não têm o que temer. Basicamente, elas normalmente usam o recurso no começo, mas depois utilizam o serviço normal. Não vemos um grande interesse nesse recurso atualmente.

Atualmente, a BlaBlaCar não tem ganho dinheiro no Brasil, apesar do crescimento do serviço. Vocês têm planos para monetizar o serviço?

PJ: Como toda empresa, precisamos ganhar dinheiro em algum momento. Isso acontece em todos os mercados em que operamos. Ainda estamos trabalhando nisso, então não é como se fôssemos lançar agora. Mas, claramente, temos planos de monetizar o mercado. Só queremos fazer isso de uma maneira que as pessoas paguem pelo serviço de valor que oferecemos. Já sentimos que o produto tem boa qualidade, então é natural que o serviço fosse se tornar pago. Os detalhes ainda não serão divulgados, mas o que posso dizer é que o modelo seria como uma assinatura, com pagamentos para acessar recursos do serviço.

E por que não diluir essa cobrança em taxas nas corridas, como outros apps de corrida fazem?

PJ: Acreditamos em possibilitar que os usuários paguem em dinheiro e não gostaríamos de matar essa opção. Talvez tenhamos a opção que você descreveu no futuro, para que seja possível fazer a transação de dinheiro online. É difícil dizer quando, porque requer algumas mudanças, e ainda estamos trabalhando nisso. Portanto, acreditamos que, como a BlaBlaCar oferece um valor substancial para os passageiros, dando às pessoas ótimas oportunidades de viajar de forma acessível e com conexões entre lugares que não seriam possíveis antes, acreditamos que elas estariam dispostas a pagar por um serviço desses.

Vocês mencionaram um número grande de brasileiros que não costumam viajar por turismo e que a BlaBlaCar seria uma alternativa interessante para iniciar essas pessoas. Tornar o serviço pago não afastaria as pessoas que não viajam tanto?

PJ: Não acho. Ainda somos mais baratos, de 20% a 40% mais barato, dependendo de onde você vem e do meio de transporte. Mas, mais importante, nós conectamos lugares que não são conectados. Então, por que você não pagaria por um serviço que te possibilita isso? Quando implementarmos isso, ofereceremos a possibilidade de explorar, para que as pessoas utilizem o serviço de graça e, depois que elas estiverem convencidas, possam pagar pelo serviço. Temos diferentes soluções que farão as pessoas sentirem que pensamos nela. Somos uma empresa que, no fim, vai gerar lucros, e não mentiríamos para ninguém. Mesmo quando lançamos no Brasil, dissemos que o serviço era de graça, mas por enquanto. Que gostaríamos de criar um valor para os usuários e que, quando ele existisse, cobraríamos pelo serviço.

Quem vocês veem como os principais concorrentes da BlaBlaCar no Brasil?

PJ: Acho que não temos concorrentes, por assim dizer. Uma plataforma como a nossa é única. Acho que a oportunidade para nós são todos os carros que estão nas estradas com assentos vazios, então vemos mais da perspectiva das oportunidades. Acho que a variedade que vemos no mercado é algo muito bom, e acreditamos que todo esse mercado pode crescer junto.