Talvez você se lembre de um relatório climático de alguns anos atrás que dizia que precisaríamos reduzir em grande escala as emissões de gases do efeito estufa até 2030 para garantir que não excedamos o limite de 1,5 graus Celsius de aquecimento global acima das temperaturas pré-industriais? Bem, há uma chance de cruzarmos esse ponto muito mais cedo do que pensávamos.

A nova perspectiva da Organização Meteorológica Mundial constatou que as temperaturas médias provavelmente estarão pelo menos 1 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais – um limiar que cruzamos pela primeira vez em 2015 – em cada ano dos próximos 5 anos.

Eles também dizem que há 20% de chance de que um dos próximos cinco anos na Terra tenha uma média de 1,5 grau Celsius mais quente do que os níveis pré-industriais, mas essa chance está crescendo com o tempo.

A previsão, que se baseia em modelos de centros de previsão climática de todo o mundo, mostra a necessidade urgente de uma política climática global transformadora, especialmente se ainda queremos limitar o aquecimento global abaixo do objetivo de 2 graus Celsius delineado no Acordo Climático de Paris.

O limite de 1,5 grau Celsius também está delineado no Acordo de Paris. Embora cruzá-lo por um único ano não signifique que ainda não possamos atingir essa meta na média, certamente não é um bom sinal. Estudos anteriores mostram que a última década foi a mais quente da história, e que o ano passado foi o segundo ano mais quente que se tem registro na história, ficando atrás apenas de 2016.

“O colapso irreversível do clima está prosseguindo como os cientistas há muito previam”, disse Peter Kalmus, um cientista climático do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em um e-mail ao Gizmodo. Kalmus não trabalhou na análise e falou conosco em seu próprio nome. “Estamos no processo de perder a Terra como a conhecíamos”.

É provável que essas tendências sempre crescente de calor continuem. O novo relatório projeta que, nos próximos cinco anos, quase todas as regiões da Terra provavelmente serão mais quentes do que foram no passado recente. O relatório não leva em consideração a redução das emissões globais resultantes da pandemia de COVID-19, mas essa queda parece ser de curta duração.

Algumas partes da Terra continuarão a aquecer mais rapidamente do que outras. O Ártico, que nos últimos anos tem visto um derretimento dramático do gelo e está atualmente sofrendo incêndios e uma onda infernal de calor, deve continuar aquecendo duas vezes mais rápido do que a média global. O aquecimento no Ártico pode descongelar o permafrost, derreter o gelo e desencadear grandes tempestades que representam um enorme risco para as comunidades.

Atravessar a média de 1,5 grau Celsius permanentemente provocaria tempestades catastróficas, secas e ondas de calor. Isso ameaçaria o acesso a alimentos e água e poderia criar as condições para mais guerra e instabilidade econômica. E, claro, as pessoas pobres, especialmente no hemisfério Sul, sofrerão as piores consequências. Em termos simples, esta é uma emergência.

Chegar ao ponto em que este risco não seja inevitável foi o resultado de uma recusa por parte dos líderes cívicos em tomar medidas apesar das intermináveis advertências dos cientistas climáticos.

Como Eric Roston da Bloomberg escreveu esta semana, “carvão, petróleo e gás não se queimam sozinhos. Seu uso contínuo é o resultado de uma tomada de decisão ativa, realizada por instituições ligadas à inércia, cujo controle do poder depende da manutenção do status quo insustentável”.

Isso também significa que não é tarde demais para mudar de rumo. Os líderes mundiais ainda poderiam optar por colocar em ação um Green New Deal, interrompendo a produção de combustíveis fósseis, diminuindo as emissões de todos os setores da economia e fazendo todo o possível para garantir que as comunidades – especialmente as mais vulneráveis – possam se adaptar às mudanças climáticas. Isso não será fácil, mas a inação seria catastrófica.