Alguns cientistas já não suportam mais as bitucas de cigarro, particularmente aquelas com filtro de plástico. Em um artigo publicado nesta semana, os pesquisadores pediram uma proibição global de cigarros com filtro, apontando que os produtos não são mais seguros para nós (como era comumente anunciado). Além disso, eles são uma das fontes mais comuns de poluição por plástico no mundo.

Os cigarros com filtro foram inventados na década de 1950 e fabricados principalmente com um plástico sintético chamado acetato de celulose (em algum momento, o amianto também foi usado). Inicialmente, como os documentos da exploração da indústria do tabaco durante esse período revelaram, eles foram legitimamente criados como uma maneira de reduzir a exposição das pessoas aos muitos produtos químicos do cigarro que cientistas da indústria e de outras áreas começaram a suspeitar que poderiam causar câncer, particularmente o alcatrão. Mas logo ficou claro que eles realmente não mudaram muito a situação e podem até ter aumentado o risco de câncer das pessoas.

Embora esses filtros possam bloquear algumas partículas maiores de alcatrão e outros produtos químicos que fazem com que a fumaça do cigarro seja da forma como é, por exemplo, eles não fazem nada com as partículas menores que penetram mais profundamente nos pulmões. Os filtros, na verdade, incentivam as pessoas a inalar quantidades maiores de fumaça de cada vez, já que os cigarros causam menos irritação e os usuários ainda desejam obter a mesma sensação que receberiam do tipo não filtrado. E embora o acetato de celulose possa se degradar rapidamente em questão de meses, nas condições certas, as pontas de cigarro jogadas ao ar livre têm mais chances de levar uma década para desaparecer.

Isso os torna mais do que um risco para a saúde. Em um mundo cada vez mais sobrecarregado pela poluição plástica, os filtros descartados aumentam ainda mais um problema crescente. A proibição da China de aceitar plástico reciclável pode criar 111 milhões de toneladas de plástico até 2030. Microplásticos estão sendo encontrados em todo o lugar, do ar à cerveja. Bitucas de cigarro descartadas estão apenas aumentando o problema.

Apesar das crescentes evidências de sua ineficácia e seu impacto ambiental, a indústria do tabaco, sem surpresa, continuou fingindo que seus cigarros com filtro eram mais saudáveis. Eles foram tão longe que mudaram a fórmula do filtro para que ele descolorisse quando o cigarro fosse fumado, induzindo o usuário a pensar que o filtro estava fazendo algo. Eles também adicionaram outras inovações duvidosas que reduziriam a quantidade de fumaça inalada pelos usuários, como pequenos orifícios no filtro. Por décadas, eles comercializaram esses produtos como “leves”, “com baixo teor de alcatrão” ou “moderados”, e só recentemente os EUA e outros países proibiram esse tipo de publicidade.

Em seu editorial publicado na quarta-feira (23) no BMJ, pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, no Reino Unido, argumentam que os governos deveriam dar um passo adiante e apenas banir completamente os filtros. Eles ressaltam que não apenas esses filtros não fazem nada para os usuários, mas também se tornaram o lixo mais onipresente do mundo, segundo algumas estimativas. E essas bitucas não são apenas geram apenas uma poluição visual, mas podem estar prejudicando as plantas e a vida selvagem circundantes.

“Embora o filtro de acetato de celulose seja o item de lixo mais comumente coletado em todo o mundo, a indústria conseguiu evitar a revolta pública expressa em relação aos resíduos de plástico produzidos por, por exemplo, McDonald’s e Starbucks”, escreveram eles. Mesmo que a União Europeia tenha um plano para eliminar muitos produtos plásticos de uso único até 2021 (incluindo canudos), por exemplo, os cigarros com filtro não estão incluídos na proibição.

A logística de se livrar completamente dos filtros de cigarro pode parecer assustadora, já que a grande maioria dos cigarros agora é feita com eles. Mas não seria a primeira vez que os governos interviriam para mudar drasticamente a indústria, observaram os autores. E nas últimas décadas, essas intervenções realmente trabalharam para reduzir constantemente a taxa de fumantes em muitos países desenvolvidos. A proibição de cigarro filtrado, eles argumentam, deveria ser apenas parte do impulso global necessário para afastar o mundo do tabaco completamente.

“A ideia de que um maço de cigarros seria restrito a embalagens comuns com avisos gráficos parecia impensável”, escreveram eles. “Talvez seja hora de uma abordagem radical semelhante que fortaleça os laços entre o meio ambiente e as comunidades de saúde para o bem comum do planeta. Se não conseguirmos reduzir os trilhões de bitucas adicionados à carga mundial de resíduos anualmente, comprometeremos nossos esforços para reduzir o desperdício de plástico global e perderemos uma oportunidade de ajudar a acabar com a epidemia global de tabaco”.