Nesta semana, a gente publicou um texto sobre o Aquífero Guarani, o enorme reservatório de água que se espalha por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Era uma assunto que estava na nossa mesa fazia um tempão. Afinal, vários Estados do Brasil estão passando por uma tremenda crise hídrica. Quando foi descoberto, o Aquífero foi visto por muita gente como uma espécie de bônus natural tanto para acelerar o desenvolvimento do país quanto para servir de reserva nos momentos difíceis.

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A conversa na área de comentários foi bem animada. Algumas pessoas disseram que um texto sério não pode ser bem humorado (ou ter gracinhas, como uma pessoa escreveu. Sem erro. Cada um tem uma opinião e não estou com vontade de entrar nesse papo agora. Um dia eu volto a ele).  Outras pessoas disseram que o termo caixa d’água gigante, que eu usei como uma imagem para mostrar o potencial do reservatório, era incorreta. E ai, amigos, uma coisa incrível aconteceu.

Um leitor do Gizmodo é especialista em aquíferos. É Ingo Daniel Wahnfried, doutor em geociências pela USP e professor da Universidade Federal do Amazonas. No papo da área de comentários, ele explicou de uma maneira clara e interessante como é um aquífero – exatamente a área de especialidade dele. Ele explicou, aliás, de uma maneira que eu nunca saberia explicar. É um negócio sensacional – profissionalmente falando.

Para mim, o jornalismo tem algumas missões. Uma delas é começar uma conversa sobre assuntos relevantes e estimular que as pessoas participem dessas conversas. Boas conversas estimulam ações. E boas ações, quem sabe, podem ter alguma influência positiva no mundo (acordei otimista hoje, é verdade).

Jornalistas não sabem tudo (embora o nosso ego nos engane com frequência). Com frequência, há pessoas na comunidade de leitores e leitoras que sabem muito mais. Porém, como as áreas de comentários se transformaram numa área de intolerância e agressão, essas conversas ficaram cada vez mais raras.  Ninguém se entende e há muito conhecimento jogado fora. Esse processo ideal se perde.

A conversa com o professor Ingo é um desses casos em que vale a pena se meter na áreas de comentários. Então, chega de falar. Abaixo, a explicação do professor. Qualquer coisa, perguntem para ele – também na área de comentários.

E obrigado, sempre, aos leitores do Gizmodo que se esforçam para manter a nossa área de comentários um lugar agradável e interessante de viver. Não é fácil, mas a gente consegue.

EXPLICAÇÃO 1: 

Algumas pequenas correções, para não passar impressões erradas aos leitores: a água do Guarani não fica em “um buraco irregular”, mas sim em poros, muitos e pequenos poros que existem entre grãos de areia. Sabe quando você cava um buraco na praia, e a água surge? É isso.

O mais interessante é que uma grande parte do Aquífero Guarani é formado por areias de um paleo-deserto, que se estendia até o continente africano, e foi soterrado por derrames de basalto (lava) quando a América do Sul se separou daquele continente, há pouco mais de 100 milhões de anos. Esses basaltos, presentes em Ribeirão Preto, por exemplo, se alteram na superfície formando a famosa terra roxa, e são eles que aparecem na foto do Parque Curupira, em Ribeirão Preto.

Aliás, são os mesmo derrames que formam o Cânion de Itaimbezinho, entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul (geologia pode ser muito bonito e interessante). Também são eles que protegem o Guarani de contaminações, em sua maior parte.

Mas um pouco a leste de Ribeirão as formações geológicas que o compõe ali, Botucatu e Pirambóia, afloram, ou seja, estão na superfície, sem a cobertura dos basaltos. É aí que entra a maior parte da água que chega ao Guarani, água da chuva que entra nos poros presentes entre os grãos de areia. Portanto, a água não vai e vem.

Ela vai, apenas, destas áreas de recarga até as zonas de descarga, para sudoeste, em direção ao Paraguai e Argentina. Os limites do Guarani estão a pelo menos 200 km da cidade de São Paulo, e por isso sairia muito caro utilizá-lo para resolver o problema da má gestão lá.

EXPLICAÇÃO 2:

Caro Leandro, antes de mais nada, muito obrigado por ter dado destaque para o que escrevi. Isto é uma atitude muito rara no jornalismo atual, e é muito nobre.

Uma grande parte do problema hídrico de SP, hoje, é a falta de conexão entre jornalistas e pesquisadores. Acho que nós dois acabamos de fazer a nossa parte para diminuir o problema!

Eu sei das dificuldades de explicar algo complexo de forma simples. Sou professor de hidrogeologia, e fiz meu doutorado sobre os basaltos que recobrem o Guarani, por isso tenho um pouco de experiência em juntar estas informações. Você tem toda razão: é super difícil, e toma tempo. Até hoje, a cada vez que repito o curso de hidrogeologia para meus alunos, faço aprimoramentos nas aulas para melhorar a compreensão. E isto é completamente impossível no desenvolvimento de matérias jornalísticas.

Eu resolvi contribuir porque é uma assunto cada vez mais importante, e alguns detalhes podem fazer com que as pessoas tenham impressões erradas sobre o que é o gerenciamento correto destes recursos. Depois, são estas pessoas que reelegem os gestores que erraram.

Ribeirão Preto, com todos os problemas que tem, é um dos pouquíssimos municípios do Brasil que têm um plano de gestão para o aquífero que ocorre em seu subsolo. Foram obrigados a desenvolvê-lo por causa do excesso de exploração do Guarani na região central da cidade. Veja esta matéria da Folha (infelizmente eles não citam o autor).

Pelas respostas à sua matéria, as pessoas desconhecem que o DAERP está tentando proteger o Guarani. Aliás, o site deles não é ruim, e explica um pouco sobre como funciona uma aquífero. Veja o site do DAERP.

O excesso de exploração do Guarani em Ribeirão é uma questão local, exatamente porque a água flui muito lentamente, o que, por sua vez, ocorre porque ela está contida em poros sub-milimétricos. Assim, se no centro de Ribeirão o Aquífero tem pouca água, 20 km ao sul ele ainda tem muita. Isto não pode ser compreendido se dissermos para as pessoas que o aquífero é como se fosse uma caixa com água, ou uma enorme caverna.

Às vezes até pesquisadores usam termos que geram mais confusão que compreensão. Você lembra do Rio Hamza? Tem até verbete na Wikipedia. Mas veja isto.

Enfim, fico à disposição para ajudar, caso necessite de mais informação sobre aquíferos e água subterrânea!

Sobre a crise hídrica em SP, a Revista Pesquisa Fapesp tem vídeos curtos muito bons, com especialistas de ponta. Estão aqui.

Abraços.


 

Então é isso. Se tiverem mais alguma dúvida, me avisem. E professor Ingo: mais uma vez, muito obrigado! O jornalismo fica melhor com leitores assim.

Foto da reportagem: Cânion do Itaimbezinho, citado pelo professor na resposta. A imagem é de João Paulo Lucena, na Wikipedia.