A vida de um golfinho-roaz pode ser surpreendentemente dura, com indivíduos perseguindo, mordendo e esmagando-se uns aos outros na luta pelo domínio social. Às vezes, os machos formam alianças duradouras uns com os outros para ter uma vantagem, porém, como uma nova pesquisa mostra, isso não acontece às custas de um aspecto indelével da identidade de um golfinho: seu próprio nome único.

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Os golfinhos fazem todos os tipos de ruídos, como pulsos de explosão, cliques e assovios. Alguns desses sons são usados para a ecolocalização ou para transmitir humor, mas também podem ser utilizados pelos golfinhos para chamar um ao outro pelo nome. Biólogos marinhos não têm certeza sobre como cada golfinho recebe seu nome, mas um “assovio característico” surge nos primeiros meses de vida e pega. Pesquisas feitas uns anos atrás, por exemplo, mostraram que os assovios característicos entre golfinhos-roaz fêmeas selvagens permaneceram estáveis por pelo menos 12 anos, o que apontou a importância social de nomes entre essa espécie de golfinho.

Tanto os golfinhos-roaz machos quanto fêmeas chamam uns aos outros pelo nome, porém, entre os machos, esses nomes têm uma importância maior, como uma nova pesquisa publicada nesta quinta-feira (7) na Current Biology mostra.

“Descobrimos que os golfinhos-roaz machos que formam parcerias de cooperação ou alianças de longo prazo uns com os outros mantêm rótulos vocais individuais, ou ‘nomes’, o que lhes permite reconhecer muitos amigos e rivais diferentes em sua rede social“, disse Stephanie King, principal autora do novo estudo e bióloga marinha da Universidade da Austrália Ocidental, em um comunicado. “Nosso trabalho mostra que esses ‘nomes’ ajudam os machos a acompanharem seus vários relacionamentos diferentes: quem são seus amigos, quem são os amigos de seus amigos e quem são seus concorrentes.”

Um trio de golfinhos machos aliados dando um rolê. (Foto: Simon J Allen at the Dolphin Alliance Project)

Os golfinhos-roaz machos formam grupos cooperativos, ou “alianças aninhadas”, para perseguir e defender seu acesso às fêmeas. Estudos anteriores mostraram que esses relacionamentos costumam durar décadas e são um aspecto essencial do sucesso reprodutivo masculino. Na baía Shark, na Austrália Ocidental, por exemplo, os machos cooperam em alianças de primeira ordem, consistindo de dois ou três indivíduos. Juntos, eles “reúnem” e controlam os movimentos de uma única fêmea (pouparemos os detalhes desagradáveis, mas mais informações sobre esse comportamento sexual podem ser encontradas aqui). Porém, existem alianças de segunda ordem, que consistem de quatro a 14 machos. Alianças de segunda ordem são consideradas a unidade central da organização social masculina — um grupo que trabalha em conjunto para reunir e defender as fêmeas.

Para o novo estudo, King e seus colegas procuraram determinar se as pistas vocais e os assovios característicos desempenhavam um papel na coordenação de comportamentos sociais complexos entre os golfinhos-roaz, incluindo a cooperação. Uma possibilidade, como sugerido por um estudo de 1999 sobre golfinhos na baía Shark, é que os machos aliados abandonam seus nomes em troca de um tipo de assovio compartilhado. Outra possibilidade é que golfinhos atribuam apelidos uns aos outros ou adotem nomes que soem parecidos. Mas, como os resultados do novo estudo mostraram, este não é o caso. Os machos dentro dessas gangues mantêm seus nomes individuais e não compartilham uma chamada comum, semelhante a uma senha secreta, com seus amigos cooperativos.

Para descobrir isso, os pesquisadores examinaram de perto os golfinhos-roaz na baía Shark — uma população que já foi estudada consistentemente nos últimos 30 anos. Usando microfones subaquáticos e registros de identificação de foto de longo prazo, os pesquisadores identificaram os assovios característicos de 17 machos adultos, que, juntos, compunham seis alianças de primeira ordem em três alianças de segunda ordem diferentes. Depois de meticulosamente analisar cada chamado, os pesquisadores não encontraram variação alguma nos nomes usados pelos machos aliados. Isso sugere que os golfinhos machos em parcerias próximas não simplesmente mudam seus nomes, como era sugerido anteriormente.

“Com os golfinhos-roaz… Cada macho mantém um chamado único, embora eles desenvolvam laços incrivelmente fortes uns com os outros”, disse King. “Portanto, reter ‘nomes’ individuais é mais importante do que compartilhar chamadas para golfinhos do sexo masculino, permitindo que eles acompanhem ou mantenham uma fascinante rede social de relacionamentos cooperativos.”

Naomi Rose, bióloga marinha do Instituto de Bem-estar Animal, em Washington, DC, gostou da nova pesquisa, dizendo que os autores fizeram um bom trabalho e que sua metodologia era impressionante. Para Rose, que não esteve envolvida no estudo, o resultado final é que os golfinhos têm nomes e não mudam de nome apenas porque saem mais com outros golfinhos.

“De modo geral, os biólogos descobrem que os animais mudam suas vocalizações ao longo do tempo para se encaixar com qualquer grupo a que eles se juntam quando adultos — eles usam vocalizações como um meio de reconhecer outros membros do grupo, então, fazer parte do grupo é mais importante do que reconhecer um indivíduo por si. Também é mais simples intelectualmente apenas lembrar o “aperto de mão secreto” em vez de todos os membros individuais do grupo”, disse Rose ao Gizmodo.

“Este estudo mostra que esses golfinhos não fazem isso — para eles, o reconhecimento a longo prazo de ‘Tom’, ‘Dick’ e ‘Harry’ como indivíduos é o que importa, em vez de um reconhecimento mais genérico de que um golfinho está em sua gangue. Eles se lembram de Tom, Dick e Harry e lembram que eles são membros de sua gangue — eles não precisam do aperto de mão secreto. Isso é mais sofisticado intelectualmente.”

Este resultado, segundo Rose, enfatiza que os golfinhos são autoconscientes e individualistas, em vez de fazerem parte de uma população ou grupo. “Eles são seres individuais com mentes individuais”, afirmou.

Rose também achou interessante que o novo estudo tenha contradito os resultados do artigo de 2004, que havia sido um estudo sobre a mesma população. Porém, como apontaram King e seus colegas, isso provavelmente aconteceu porque o estudo anterior usou uma amostra muito pequena. Os pesquisadores só observaram alianças de primeira ordem e a aliança formada sob circunstâncias anormais (os golfinhos passeavam em uma praia rasa onde humanos regularmente os alimentavam com peixes).

“Resumindo, o estudo anterior pareceu ser uma anomalia, em vez de a norma para essa população”, disse Rose. “Este novo estudo é o tipo de trabalho que se baseia em resultados anteriores; se e quando os resultados anteriores não podem ser replicados, é importante examinar por que e oferecer explicações razoáveis para as diferenças, em vez de simplesmente descartar o trabalho anterior.”

Este novo estudo oferece informações fascinantes sobre o comportamento dos golfinhos, mas a próxima fase da pesquisa promete ser ainda melhor. Os pesquisadores planejam reproduzir os assovios característicos de cada indivíduo macho de volta para eles para ver como cada um vai responder, dependendo do contexto. Vai levar algum tempo antes que possamos entender de verdade as nuances da comunicação entre golfinhos e seu comportamento, mas estamos chegando lá, um assovio por vez.

[Current Biology]

Imagem do topo: Simon J Allen at the Dolphin Alliance Project