Quando os animais se extinguem, suas funções em um ecossistema podem ser perdidas, muitas vezes levando à extinção de outras espécies que dependem deles. Se um pássaro que distribui sementes de uma planta não realiza essa função, por exemplo, é certo que ela deixará de existir. A partir daí, surgem espécies invasoras que, muitas vezes, são consideradas pragas. No entanto, elas podem ajudar?

Em um artigo escrito para o portal Scientific American, Samuel B. Case, Ph.D. da Universidade de Wyoming, discute essa questão. Ele exemplifica o dilema com o caso das ilhas havaianas, que costumam ser consideradas um sistema modelo para estudar o assunto — já que o local está sujeito a grandes mudanças ecológicas desde a chegada dos humanos.

A maioria das plantas do Havaí depende de pássaros para a dispersão de sementes. No entanto, pelo menos 67% dos animais nativos da ilha foram extintos. Então, para resolver esse problema, as pessoas introduziram muitos pássaros não nativos — que se estabeleceram e mantêm a dispersão de sementes e a polinização.

Dito isso, por mais que os conservacionistas acreditem que nativo é igual a bom e não nativo é igual a mau, a remoção de todos os pássaros não nativos iria prejudicar a natureza. Portanto, Case acredita que devemos considerar como cada invasor impacta o ecossistema separadamente antes de tirar conclusões com base apenas na origem.

Ainda assim, uma pesquisa feita pelo cientista mostra que há uma diferença de estrutura entre os pássaros extintos e os novos: o tamanho do bico. “Descobrimos que apenas quatro pássaros frugívoros permanecem em todo o arquipélago e, em comparação com os pássaros históricos, em sua maioria extintos, os modernos têm bocas 40% menores”, afirma. E isso restringe o tamanho das sementes que as aves podem consumir e dispersar. “A partir da revisão de estudos sobre a dispersão de sementes pelas ilhas, descobrimos que as plantas com sementes maiores não estão sendo dispersadas por pássaros invasores e podem estar em maior risco de extinção”, explica Case.

Esses resultados levantam uma questão óbvia: devemos introduzir pássaros com bocas maiores? Atualmente, não há estudos suficientes para saber se isso é uma boa ideia. Mas há um sério risco de impactos ecológicos não intencionais associados à introdução de qualquer espécie. A introdução de um pássaro de boca grande, por exemplo, pode desencadear uma disseminação repentina de plantas não nativas de sementes grandes, o que certamente é indesejável para a conservação da biodiversidade, uma vez que as plantas não nativas muitas vezes vencem as plantas nativas no uso de espaço e recursos.

Em um mundo com taxas crescentes de extinção e invasão, a reorganização das comunidades de espécies continuará a representar desafios para a conservação da natureza. “Uma abordagem que considere as características funcionais e papéis ecológicos de diferentes invasores, sob uma variedade de circunstâncias diferentes, será necessária para proteger processos importantes do ecossistema, como a dispersão de sementes”, conclui o especialista.

[Scientific American]