Os arqueólogos podem ter finalmente descoberto como um crânio sem mandíbula de 5.300 anos acabou em uma profunda caverna no norte da Itália. Descoberto em 2015, durante um trabalho exploratório em uma caverna de gesso natural, foi encontrado próximo ao topo de um poço vertical, aproximadamente 12 metros abaixo de um complexo de cavernas sinuosas e 26 metros abaixo do nível do solo.

O fato de um crânio ser encontrado em um local tão estranho e isolado foi uma surpresa completa, para dizer o mínimo. Nenhum outro resto humano ou evidências arqueológicas foram encontrados nas imediações. O local que o crânio foi retirado só pode ser acessado com equipamento especial de escalada, então os povos antigos não poderiam ter alcançado facilmente.

Em 2017, os arqueólogos voltaram à caverna, conhecida como Marcel Loubens, para documentar e recuperar o crânio. Assim, uma nova pesquisa publicada nesta quarta-feira (03) na PLOS One, fornece uma análise detalhada do fóssil, junto com uma possível explicação de como ele acabou em um local tão inacreditável. A documentação foi liderada pela arqueóloga Maria Giovanna Belcastro, da Universidade de Bolonha, na Itália.

A localização do crânio, visto que foi encontrado dentro de uma caverna italiana. Imagem : Belcastro et al, 2021, PLOS ONE.

Como os autores especulam, o crânio provavelmente foi transportado para a plataforma por uma série de processos geológicos naturais, incluindo a abertura de ralos, deslizamentos de terra e água corrente. O fóssil de 5.300 anos, ao que parece, viajou por este sistema de cavernas por conta própria. Para o estudo, os pesquisadores estavam “focados em investigar as circunstâncias que envolveram a morte desse indivíduo, uma vez que o crânio apresenta sinais de algumas lesões que parecem ser resultados de manipulação [pós-morte], provavelmente realizada para remover tecidos moles”.

Na verdade, o crânio Marcel Loubens (ou MLC), como está sendo chamado, tem alguns arranhões e marcas de corte que são consistentes com a remoção da carne, o que provavelmente foi feito como parte de um ritual de morte, de acordo com os autores. Parece bizarro, mas a eliminação de indivíduos falecidos era uma prática pré-histórica relativamente comum (mesmo entre os Neandertais), tanto nesta parte do mundo quanto em outros lugares.

Como explicou a antropóloga Alessia Zielo, da Universidade de Pádua em um artigo de 2018, havia algumas razões muito boas para a prática:

Nas culturas do passado, a cabeça era considerada a sede da alma, que continha a força vital e que possuía qualidades extraordinárias. Foi também o símbolo profundo de um poder intimamente ligado aos conceitos de vida, morte e fertilidade. Além disso, após a morte, a manipulação dos crânios mostrou que os restos mortais do falecido continuaram a desempenhar um papel importante na vida da comunidade à qual [eles] pertenciam.

O fato de o crânio ter sido encontrado em uma caverna, no entanto, não é uma surpresa. O uso desses espaços como “cavidades naturais”, nas palavras dos pesquisadores, era comum durante a primeira metade do terceiro milênio a.C, como evidenciado por descobertas arqueológicas anteriores. Pessoas falecidas eram trazidas para dentro dessas cavernas e colocadas para descansar, o que provavelmente é a situação que ocorreu com o dono do crânio. Na verdade, a sua datação por radiocarbono ficou entre 3630 e 3380 a.C, colocando-o dentro deste período de tempo, conhecido como Eneolítico da Itália, ou como Idade do Cobre.

Para uma contextualização geográfica, Ötzi, o Homem de Gelo – aquela múmia encontrada incrustada no gelo – viveu em algum ponto entre 3400 e 3100 a.C. Ele morreu nos Alpes de Ötztal, na fronteira entre a Áustria e a Itália, e aproximadamente 345 km ao norte da caverna Marcel Loubens.

Aliás, voltando ao crânio encontrado: ele ainda tinha vários dentes presos em sua arcada dentária, que estava em excelente condição, permitindo uma análise mais aprofundada. Deste modo, Belcastro e seus colegas usaram microscópios e um tomógrafo para estudar o fóssil, além de analisar uma réplica 3D detalhada.

Visão múltipla do crânio. Imagem : Belcastro et al, 2021, PLOS ONE.

Medidas detalhadas do crânio foram cruzadas com um banco de dados forense, sugerindo que pertencia a uma mulher que morreu entre as idades de 24 e 35 anos. As lesões provavelmente aconteceram após a morte, já que nenhum sinal de cura foi detectado. Um pouco de ocre também foi detectado, o que pode ter algo a ver com o ritual funerário.

Outras evidências sugerem que essa mulher não era particularmente saudável. Ela sofria de anemia crônica, como deficiência de ferro ou vitamina B. Ela provavelmente suportou estresse metabólico prolongado quando criança e parece ter um distúrbio endócrino, como revelou uma análise odontológica. Na verdade, a mudança para estilos de vida neolíticos não foi só diversão e jogos. Novas dietas (baseadas na agricultura), hábitos de vida e arranjos de vida mais densos resultaram na diminuição da saúde e aumento da exposição a condições anti-higiênicas, patógenos e parasitas, de acordo com o jornal.

Ao conduzir uma revisão geológica do sistema de cavernas e ao estudar o crânio, os cientistas desenvolveram uma explicação plausível para a estranha localização do crânio: logo depois que a mulher foi colocada para descansar, seu crânio se soltou e rolou. Água e lama começaram a correr pela caverna, transportando o crânio ainda mais para baixo, através da encosta de um sumidouro e para dentro de uma caverna mais profunda. A atividade contínua de um sumidouro esculpiu a caverna em sua forma atual, pousando o crânio em seu estranho local de descanso.

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Um adendo importante: a caverna Marcel Loubens, está situada dentro de uma depressão na região conhecida localmente como “Dolina dell’Inferno”, que se traduz literalmente como “Poço do Inferno”. Acho que se pensarmos em tudo o que este crânio vivenciou ao longo dos anos, faz sentido ele estar onde foi encontrado, não é mesmo?

Provavelmente nunca saberemos a história exata de como ele acabou dentro do poço profundo da caverna, mas este estudo oferece algumas descobertas notáveis ​​com base em um único crânio encontrado completamente fora de um contexto arqueológico. Aliás, os arqueólogos, como mostra este artigo, são muito hábeis em trabalhar com muito pouco. De certa forma, é o que eles fazem.