Uma nova pesquisa publicada na revista Nature, nesta quarta-feira (30), mostra que a camada de gelo da Groenlândia já ultrapassou os limites da perda de massa observada nos últimos 12.000 anos. Mesmo sob o melhor cenário climático, em que a humanidade reduz as emissões de gases poluentes o mais rápido possível, a camada de gelo deve atingir níveis de perda sem precedentes ao longo do século.

O manto de gelo da Groenlândia é um dos mais destruídos do mundo nos últimos anos. Fumaça de incêndios florestais, poeira, ondas de calor e até mesmo o céu ensolarado contribuíram para enormes colapsos anuais. A região está perdendo gelo em um ritmo acelerado, e o novo estudo soma essas perdas ano após ano e as coloca no contexto do passado e do futuro.

Para fazer isso, os pesquisadores usaram simulações de computador com dados passados e as compararam a amostras de gelo e outros dados baseados na geologia ao redor da Groenlândia. Com essas informações, os pesquisadores conseguiram reconstruir o crescimento e a perda de gelo nos últimos 12.000 anos para uma área do oeste da Groenlândia que espelha o resto do manto de gelo. O período de tempo é significativo, pois representa o fim da Idade do Gelo e um período conhecido como Holoceno.

Ao longo desse tempo, as flutuações naturais do clima afetaram a camada de gelo, incluindo um grande período de perda há cerca de 8.000 anos, quando cerca de 6.000 gigatoneladas de gelo derreteram no mar a cada século. Isso equivale a 6 trilhões de toneladas de gelo. Desde então, ocorreram perturbações muito menores na camada de gelo. Até agora.

Os humanos começaram a sobrecarregar esse sistema, bombeando poluição de carbono na atmosfera. O planeta aqueceu cerca de 1 grau Celsius desde o final do século 19, mas o aquecimento tornou-se mais agudo nas últimas décadas. Isso levou a todos os tipos de problemas, incluindo declínios mais rápidos na massa do manto de gelo da Groenlândia. As novas descobertas sugerem que, se a taxa de perda nas últimas duas décadas permanecesse a mesma ao longo deste século, a Groenlândia despejaria 6.100 gigatoneladas de gelo nos oceanos.

Infelizmente, a mudança climática deve piorar. O estudo projeta que mesmo em um cenário extremamente otimista, onde o mundo começa a reduzir as emissões agora e as zera até o final deste século, ainda resultaria em um mínimo de 8.800 gigatoneladas de gelo derretido neste século. Se o mundo continuar queimando carbono com abandono irresponsável, até 35.900 gigatoneladas (35.900 trilhões) de gelo podem acabar no mar no fim de 2099.

Serão enormes as consequências para comunidades costeiras e também para os ecossistemas. O derretimento da camada de gelo é responsável por cerca de 30% de todo o aumento do nível do mar. As descobertas mostram que, independentemente da ação da humanidade para reduzir as emissões, os países também precisarão se adaptar a um mundo com oceanos mais altos. Isso poderia significar construir defesas contra enchentes naturais ou artificiais, ou recuar completamente cidades inteiras da costa.

Ao mesmo tempo, todo o derretimento do gelo da Groenlândia está levando a um bolsão de água fria e mais fresca na costa. Isso está diminuindo a velocidade da corrente que sobe a costa leste e atravessa de lá para o outro lado do Atlântico. Como isso impacta o ecossistema na região, bem como a circulação do oceano em outros lugares, ainda é uma área de pesquisa ativa, mas desconcertante. Os cientistas também continuarão examinando o destino do manto de gelo em diferentes cenários de emissões.