Por Lucas Gelape, Alexandre Orrico, Rodolfo Almeida e Sérgio Spagnuolo

Não é preciso entender muito de estatística para saber que 4% da população brasileira vacinada é um percentual bem abaixo do que precisamos para conter a Covid-19. Na contramão da tendência mundial, nos primeiros meses de 2021 o Brasil registrou o patamar mais alto de mortes em um ano de pandemia no país.

Na falta de um plano nacional de enfrentamento à doença, cientistas, pesquisadores, divulgadores e outros especialistas em ciência e saúde têm recorrido às redes sociais para informar a sociedade e difundir as medidas mais eficazes para frear o avanço do vírus. Essa atividade foi inicialmente essencial para informar jornalistas e formadores de opinião, mas passou a crescer e a alcançar cada vez mais o público em geral.

Análise do Núcleo a partir de tweets monitorados pela ferramenta Science Pulse mostra que os expressivos picos de engajamento nas contas dos principais divulgadores de ciência brasileiros coincidem com o agravamento dos números da pandemia no país.

“Acredito que a falta de uma centralização na divulgação de informações por parte do governo tenha gerado uma necessidade nas pessoas de buscarem essas informações por conta própria”, diz Mariana Varella, jornalista de saúde, cientista social e divulgadora científica que acabou de ultrapassar os 50 mil seguidores no Twitter. Ela é chefe de redação do Portal Drauzio Varella.

As 12 principais vozes brasileiras da ciência nas redes, que tiveram média de 411 curtidas e RTs por tweet na primeira semana em que foram monitoradas, mais do que dobraram seu engajamento nas últimas semanas, chegando a 948 até a semana encerrada em 4 de março (a última completa no período de análise).

Além disso, as cinco semanas com maior volume de engajamento dos 12 principais perfis brasileiros de divulgação científica foram em 2021.

Os principais divulgadores de ciência foram identificados a partir de um estudo do IBPAD com dados do Science Pulse, publicado em dezembro de 2020.

Do total, 21,5% (ou 190) dos perfis são verificados pelo Twitter, que vem cada vez mais notando o esforço dos divulgadores. Nesta última semana, por exemplo, foram verificados os perfis do cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt e da bióloga Beatriz Hörmansederentre outros.

Rede Átila de divulgação científica

No período analisado, a tendência geral de crescimento foi encontrada nas principais contas brasileiras monitoradas.

A exceção foi o perfil de Atila Iamarino, que apresentou uma tendência geral de queda. Mas o biólogo não ficou menos importante: o que aconteceu foi uma distribuição de influência e engajamento.

O período de análise iniciou-se em junho de 2020, quando Átila já havia se firmado como uma voz central na disseminação de informações sobre a pandemia. Durante a primeira semana de monitoramento, o biólogo era responsável por cerca de 3 a cada 4 engajamentos desse grupo de 12 perfis, número que foi gradativamente passado para outras contas. Na última semana de análise, ele correspondia a 38,7% do total.

A resposta que explica essa queda passa pela pluralização e fortalecimento de vozes. Essa distribuição é muitas vezes estimulada pelo próprio Átila, que divulga e retweeta outros divulgadores, e também organizada por eles próprios.

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“Muitos médicos e cientistas começaram a fazer esse trabalho agora na pandemia. Há reuniões virtuais de divulgadores, pesquisadores, pensando juntos estratégias de comunicação”, diz Mariana.

As 4 semanas em que ele teve menor engajamento relativo neste grupo foram em 2021. Neste ano, em somente três das dez semanas Átila ultrapassou 50% do engajamento semanal dentro deste grupo. Porém ele é, indiscutivelmente, o principal divulgador do grupo, responsável por 19 dos 20 maiores engajamentos semanais.

Este texto foi publicado originalmente pelo Núcleo Jornalismo e foi autorizado a ser reproduzido no Gizmodo Brasil. Para ler a metodologia completa do estudo, além de outas análises acesse a página deles.