Nesta semana, uma nova série de animação de Star Wars na Disney+, The Bad Batch, nos reintroduziu aos últimos dias da Guerra dos Clones e à ascensão do sinistro Império. Mas, em meio às lutas explosivas e rostos familiares, alguns fãs mostraram preocupação com a mudança dos tons de pele dos personagens principais da série, afastando-os de suas raízes.

The Bad Batch é estrelado por Dee Bradley Baker, que tem sido a voz dos guerreiros clones experimentais de Star Wars desde o início da série, em 2008. O grupo Clone Force 99 — formado pelos soldados Hunter, Wrecker, Crosshair, Tech e Echo e introduzido na temporada final de The Clone Wars — é o esquadrão de tarefas operacionais especiais e exclusivas do exército da República. Todos são chamados de “Os Malfeitos, pois apresentam defeitos em relação ao modelo base original para os clones.

No entanto, essas “anormalidades” se manifestam não apenas nas aparências alteradas em comparação com clones padrão, mas também resultam em habilidades aprimoradas, como aumento de força, habilidades de pontaria ou hiperinteligência. Mas, após a estreia desta semana, alguns fãs expressaram preocupação de que essas diferenças também sejam evidenciadas por um fator totalmente diferente: a cor de suas peles.

Para quem não conhece, cada soldado clone — em filmes de Star Wars e projetos animados como The Clone Wars, Star Wars Rebels e agora The Bad Batch — é baseado no material genético do caçador de recompensa humano Jango Fett. Ele é interpretado pelo ator Temuera Morrison, tanto em Ataque dos Clones (Episódio II) quanto na série The Mandalorian. Nascido na Nova Zelândia, Morrison possui ascendência maori, escocesa e irlandesa. Com seu recente retorno ao universo Star Wars interpretando o filho de Jango, Boba Fett (em The Mandalorian e na futura série limitada The Book of Boba Fett), o ator discutiu como ele deseja trazer elementos de sua herança cultural maori para sua representação do personagem.

Temuera Morrison como Jango Fett em Ataque dos Clones e Boba Fett com cicatrizes de ácido em The Mandalorian. Imagem: Disney.

Embora Morrison não tenha dublado os soldados clones animados (Baker, que é branco, adota uma aproximação vaga e americanizada do retrato de Morrison), sua aparição nos projetos animados da Lucasfilm foi baseada em sua aparência desde o início. Mesmo que a estética tenha mudado — The Clone Wars, em particular, passou por várias melhorias estilísticas e gráficas ao longo de suas sete temporadas — uma coisa que permaneceu relativamente inalterada é que todos os soldados clones têm pele escura, refletindo a origem polinésia de Morrison.

Isso nos leva a The Bad Batch. Embora algumas preocupações sobre a cor da pele e as estruturas faciais dos personagens tenham sido levantadas durante os episódios de estreia de Clone Wars, a preocupação dos fãs aumentou na preparação para a nova série de animação, conforme trailers e imagens promocionais eram lançados. Embora The Bad Batch seja uma série sucessora de Clone Wars, seus criadores, incluindo os produtores executivos Jennifer Corbett e Brad Rau (que também são roteirista e diretor supervisor da série, respectivamente), notaram por meio da imprensa que a série refinou os processos estéticos e tecnológicos de seu antecessor.

Clones sem capacete conforme apareciam na primeira temporada da série predecessora de Bad Batch, Clone Wars. Captura de tela: Lucasfilm.

No entanto, com esses ajustes veio a preocupação de que existem escolhas visuais que fazem The Bad Batch parecer significativamente diferente das caracterizações de Clone Wars. Cada membro do esquadrão tem, em vários graus, estruturas faciais radicalmente diferentes em comparação com os clones padrão, assim como parte de seus designs e tons de pele. Alguns personagens, como Wrecker e Hunter, tendem a um tom de pele mais escuro, enquanto personagens como Crosshair e Tech, que também têm cores de cabelo significativamente mais claras em comparação com o cabelo preto dos clones normais, são apresentados com tom de pele muito mais claro.

Assine a newsletter do Gizmodo

Só Echo (que ainda se parece com seus predecessores em Clone Wars) teve mudanças consideradas pequenas na estrutura facial. No entanto, o personagem também perdeu sua cor de pele, apresentando-se como um personagem lido como branco. Isso foi explicado na série anterior como resultado da captura e tortura como prisioneiro de guerra nas mãos das forças separatistas, o que envolveu implantes cibernéticos e prisão por vários anos.

Captura de tela: Lucasfilm.

Independentemente da variação dentro do próprio esquadrão, os personagens se contrastam quando colocados ao lado dos clones padrão no episódio de estreia da série, “Depois do Fim”. Embora o episódio aconteça em locais bem iluminados, como o planeta Kaller e o laboratórios higienizados de Kamino, o que desempenha um papel considerável na aparência geral dos personagens, ainda existem diferenças notáveis entre a aparência de The Bad Batch em comparação com seus equivalentes clones e com o homem polinésio que inspirou todos.

A questão também não se restringe aos personagens titulares. Omega, uma nova personagem apresentada na série (dublada pela atriz neozelandêsa Michelle Ang), é revelada no episódio como também um clone “defeituoso” do mesmo lote dos personagens principais, mas por sua vez, seu tom de pele parece significativamente mais claro do que os clones padrão, e ela ganhou cabelo loiro claro.

Para além dos clones, uma aparição surpresa do jovem padawan Caleb Dume na abertura do episódio, que eventualmente passa a ser conhecido como Kanan Jarrus, um personagem principal na série de animação Rebels, também incomodou a muitas pessoas. Mesmo levando em consideração a iluminação brilhante das cenas em que Caleb aparece, incluindo uma foto promocional oficial recém-lançada do personagem que lhe confere um tom de pele mais quente, ele ainda é consideravelmente mais claro em comparação com a sua versão adulta.

Da esquerda para à direita: Omega, uma personagem totalmente nova criada para The Bad Batch, Caleb Dume e a versão mais jovem de Kanan Jarrus em Star Wars Rebels. Captura de tela: Disney.

Tudo isso levou os fãs a se preocuparem com as mudanças visuais do programa — que para eles podem ser lidas como, na melhor das hipóteses, um tanto ignorantes e, na pior das hipóteses, como uma decisão criativa racista. O que resultou em várias manifestações nas redes sociais. Utilizando uma página Carrd.co para compartilhar uma coleção de imagens comparativas e recursos antirracistas criados por um usuário do Tumblr CloneHub, os fãs preocupados com a representação desses personagens se uniram sob a hashtag #UnWhiteWashTBB, pedindo à Lucasfilm para pelo menos reconhecer preocupações e esforços para alterar o design e as escolhas estéticas de The Bad Batch à medida que a série avança.

Embora a Lucasfilm ainda não tenha feito uma declaração pública sobre as críticas apontadas, há sinais de que o feedback foi recebido internamente. Uma fonte familiarizada com a produção de The Bad Batch disse ao Gizmodo que, na preparação para sua estreia nesta semana, mudanças nas ferramentas de iluminação utilizadas pela equipe de animação foram feitas para moderar seus efeitos no episódio de estreia. Esses ajustes também serão feitos em episódios futuros.

Assine a newsletter do Gizmodo

Ainda não sabemos se essas mudanças internas irão satisfazer ou não as preocupações de alguns fãs. Mas a discussão de The Bad Batch surge em um momento que a Lucasfilm tem tentado lidar com questões raciais e de diversidade dentro do fandom de Star Wars e nas suas produções que estão sendo desenvolvidas.

Em 2020, a Lucasfilm fez uma rara declaração pública apoiando o ator John Boyega, que interpreta o personagem Finn desta (nem tão) nova trilogia, por sua participação nos protestos em apoio ao movimento Black Lives Matter em Londres. Isso ocorreu após o próprio ator se expressar publicamente em várias entrevistas de que, como um homem negro em projetos de Star Wars , ele não se sentia apoiado pela empresa, especialmente ao falar do arco de seu personagem, que recebeu críticas por parte de alguns fãs da franquia.

O estúdio também não se posicionou contra o abuso racista e sexista que a atriz Kelly Marie Tran, de Raya e o Último Dragão, recebeu. Ela precisou bloquear suas contas nas redes sociais após o lançamento de Star Wars: O Último Jedi. A questão foi agravada ainda mais quando a Lucasfilm enfrentou críticas e acusações de que a personagem de Tran, Rose Tico, teve seu papel drasticamente reduzido no filme final da trilogia, A Ascensão Skywalker.

Captura de tela: Lucasfilm.

No entanto, parece que a empresa está mudando lentamente quando se trata de abordar ativamente as preocupações com o racismo e a falta de vozes diversas em papéis de protagonismo. Uma série de projetos recentemente anunciados são dirigidos ou protagonizados por uma produção mais inclusiva em comparação com os projetos passados de Star Wars.

E temos exemplos: o próximo filme de Star Wars de Taika Waititi, a série limitada Obi-Wan Kenobi de Deborah Chow ou o já mencionado The Book of Boba Fett, dirigido por Robert Rodriguez de The Mandalorian e estrelado por Morrison ao lado de Ming-Na Wen (que também vai reprisar o papel de Fennec Shand, uma caçador de recompensas em The Bad Batch). Além disso, no início deste ano, a Lucasfilm postou uma declaração oficial no Twitter para apoiar a apresentadora Krystina Arielle, responsável pela série mensal The High Republic Show da empresa no YouTube, depois de ela ter sido alvo de ataques racistas e sexistas por proeminentes comentaristas conservadores de direita.

Mudanças positivas na apresentação de uma galáxia mais diversa também vêm ao reconhecer quando o estúdio erra em sua representação de personagens de cores e origens diversas. Só o tempo dirá como ou se a Lucasfilm planejará agir de acordo com essas preocupações, especialmente sobre as possíveis mudanças na iluminação de The Bad Batch e projetos futuros. Discussões como essa mostram que, apesar de todos os passos que a Lucasfilm deu para ampliar e expandir sua percepção de Star Wars, tanto dentro da ficção quanto no fandom, ainda há muito a ser feito.