Tim Cook, CEO da Apple, cedeu uma longa entrevista ao Washington Post e comentou sobre o mercado de smartphones, privacidade, direitos civis e Steve Jobs. A conversa aconteceu no dia em que ele anunciou a venda do bilionésimo iPhone e alguns dias depois da divulgação dos resultados financeiros da companhia, que não foram muito animadores.

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Aqui estão algumas das melhores passagens da entrevista – via Washington Post e Recode:

Sobre mudanças na companhia:

“Estamos falando sobre o DNA da empresa, que sempre foi o mesmo. Para nós é fazer produtos incrivelmente bons que realmente mudem o mundo de alguma forma – que enriqueça a vida das pessoas. Nossa razão de ser não mudou. Outras coisas mudaram. Mas esse é o laço que mantém tudo junto.”

“A mudança mais clara é o número de funcionários na empresa. A companhia está quatro vezes maior [em receita, comparada com 2010]. Nós expandimos a linha de iPhones. Foi uma decisão importante e acho que foi uma boa.”

Sobre o mercado de iPhones:

“O mercado global de smartphones é de 1,4 bilhão. Com o tempo, acredito que todas as pessoas no mundo terão um smartphone. Isso pode demorar um pouco e nem todos terão um iPhone, mas o mercado de produtos eletrônicos é o melhor do mundo.”

“A inteligência artificial fará com que ele seja um produto ainda mais essencial. Se tornará um assistente ainda melhor do que é hoje. Se você não sai de casa sem o celular hoje – você realmente passará a estar conectado com ele no futuro. O nível de performance irá crescer de forma excepcional. E não há nada que irá substituí-lo a curto ou médio prazo.”

Sobre agradar investidores:

“Eles diziam em 2007 – ‘esse iPhone estúpido, quem inventou essa coisa?’. Então eles diziam que tínhamos chegado ao auge em 2010, depois em 2011. Conseguimos US$ 60 bilhões [em receita], e diziam que não cresceríamos mais do que isso. Bem, no ano passado chegamos a US$ 230 bilhões. E, sim, estamos sofrendo uma queda esse ano. Nem todo ano é bom, você sabe. Já escutei tudo isso antes.”

“Se você olhar para aquilo que fizemos nos últimos cinco anos, o retorno total sobre o investimento é de mais de 100%. É um número muito bom. E acho que a maioria das pessoas que tinham ações durante esse tempo, provavelmente estão bem felizes.”

Sobre Steve Jobs:

“Pra mim, Steve é insubstituível. Por qualquer um. Steve era original. E eu nunca achei que esse fosse o meu papel. Acho que seria uma coisa muito desleal de se tentar. Quando eu assumi o cargo de CEO, na verdade achei que Steve estaria aqui por muito tempo. Porque ele seria o presidente da companhia, trabalhando um pouco menos depois de se recuperar. Então eu tinha um pensamento, mas semanas depois…”

Sobre ser franco com questões sociais, como quando assumiu que era gay:

“Eu queria que estivesse numa publicação de negócios. É isso o que eu sei, é isso o que eu sou. Houve muito trabalho ali. Eu visitei pessoas. Conversei com Anderson Cooper por muito tempo – diversas vezes. Porque eu sempre achei a maneira com que ele revelou isso foi muito elegante. Eu estava recebendo conselhos de pessoas que eu realmente achava que eram grandes pessoas, que pensavam nisso profundamente.”

Sobre a quem ele pede conselhos:

“Quando eu estava decidindo o que deveríamos fazer a respeito do retorno financeiro aos acionistas, eu pensei ‘quem poderia nos dar um bom conselho? Quem não teria parcialidade?’ Então eu falei com Warren Buffett. Acho ele uma pessoa singular e sempre tento passar por esse processo com todo mundo. Isso não significa que eu sempre faço o que eles dizem.”

Sobre a batalha pública da Apple com o FBI, no caso do atirador de San Bernardino:

“Nós pensamos, sabe, que dependeria do que poderíamos incluir ou não. Outras pessoas estavam envolvidas nesse processo – especialistas em segurança, entre outras pessoas, e era evidente a partir dessas discussões que não podíamos ceder. Sentimos que o risco do que aconteceria se liberássemos poderia ser terrível para a segurança publica.”

“Ficou claro que essa troca, por assim dizer, estaria colocando centenas de milhares de pessoas em risco por um telefone que poderia ou não ter algo importante. O que não parecia ser o caso, a partir de outras coisas que sabíamos a respeito. Achamos que foi uma decisão clara. Uma decisão difícil, porém clara. E aí se tornou mais uma questão de como explicaríamos isso. Porque não é fácil. Você pode imaginar. Apenas ouça: telefone bloqueado. Terrorista. Pessoas mortas. Por que você não irá desbloquear isso?”

Sobre sucessores:

“Meu papel é ter certeza de que o conselho tenha bons candidatos para serem escolhidos internamente. E levo esse papel extremamente a sério. Veja com quantas grandes pessoas eu trabalho – existem pessoas talentosíssimas na empresa.”

Sobre inteligência artificial:

“O que temos feito com a inteligência artificial busca ajudar o consumidor. Anunciamos em junho que estamos abrindo a Siri para desenvolvedores, para que eles possam utilizar a assistente. Então, num simples exemplo, você poderia pedir um Uber ou um Lyft nos Estados Unidos apenas usando sua voz.”

“Mas há outras coisas, como a capacidade de prever a próxima palavra ou frase que você irá usar – a Siri ficou muito mais inteligente com isso.”

“Em vez de passar toda a informação da Siri para a nuvem, onde manteríamos tudo, nós fazemos com que a assistente trabalhe no próprio dispositivo. Então você tem controle sobre os seus dados. E acho que pessoas talentosas podem surgir com soluções de inteligência artificial que não violem a privacidade. Existe uma nova tecnologia chamada privacidade diferencial que essencialmente olha para grandes quantidades de dados para prever o comportamento e as demandas do usuário sem analisar tudo individualmente.”

Sobre realidade aumentada:

“Eu acho a realidade aumentada extremamente interessante e uma espécie de tecnologia essencial. Então, sim, é algo com que temos trabalhado.” Cook evitou falar sobre realidade virtual.

Sobre o projeto “secreto” de um carro da Apple:

“Nós sempre observamos que as pessoas amam surpresas. E não temos tido muitas surpresas em nossas vidas.”

Imagem do topo: AP Photo/Richard Drew.
[Washington Post via Recode]