A relação entre estresse e cabelos brancos é bem conhecida e popular — você mesmo já deve ter ouvido muita gente falar isso em conversas do dia a dia, seja sobre pessoas comuns, seja sobre famosos. Os cientistas também sabem disso, mas ainda não tinham descoberto como o estresse fazia o cabelo ficar branco. Em um estudo feito em Harvard e publicado na revista Nature, eles conseguiram mapear como o organismo reage a certas situações para que o pelo fique sem pigmentação.

As células-tronco de melanócitos — melanócitos são as células responsáveis pela pigmentação dos cabelos e pelos — se proliferam e se diferenciam (como é chamado o processo de transformação da célula-tronco em célula adulta) quando entram em contato com a noradrenalina do sistema nervoso simpático. Situações de estresse do tipo “lute ou fuja” ativam o sistema nervoso simpático, que libera noradrenalina no organismo.

Isso esgota o estoque de células-tronco de melanócitos, que estavam dormentes esperando o crescimento do cabelo. Quando novos cabelos nascem, não há os melanócitos necessários para a pigmentação, o que faz com que eles nasçam brancos.

Os cientistas — uma equipe da Universidade Harvard liderada por Bing Zhang, que inclui os brasileiros Thiago Cunha e William Gonçalves — fizeram testes com ratos de laboratório para chegar a essa conclusão. Eles submeteram os indivíduos a três condições de estresse: restrição física, dor física e um modelo de estresse psicológico. Nos três casos, os animais apresentaram crescimento de pelos brancos.

Para saber exatamente o que estava acontecendo nos organismos dos bichos, os pesquisadores testaram as hipóteses mais famosas: reações hormonais ou autoimunes. Eles, então, inibiram a sinalização pelo hormônio corticosterona e fizeram experimentos com animais com sistema imunológico comprometido. Os resultados, no entanto, foram os mesmos: os bichos continuavam a ficar com pelos brancos depois de um tempo.

Os autores do estudo perceberam, então, que as células-tronco de melanócitos produziam receptores para responder à noradrenalina. Eles removeram, então, as glândulas ad-renais dos ratos, que são as maiores produtoras da substância no organismo. De maneira surpreendente, isso não alterou a mudança na coloração do pelo.

Foi então que eles se voltaram para o sistema nervoso simpático, que também produz noradrenalina e possui ramificações próximas à pele, onde ficam os folículos capilares.

Depois de confirmar que era a proliferação das células-tronco de melanócitos que fazia os pelos crescerem brancos, os cientistas conseguiram bloquear o efeito através da supressão dessa proliferação por meios farmacológicos e genéticos.

A equipe liderada por Zhang conseguiu também confirmar o efeito em humanos. Os cientistas cultivaram melanócitos humanos e administraram noradrenalina nelas. Eles descobriram um gene que codifica proteínas chamadas quinases dependentes de ciclina. Quando em contato com a noradrenalina, a expressão desse gene se altera tanto nos ratos quanto nos humanos.

A pesquisa traz novas ideias para o estudo do envelhecimento e do estresse. Já se sabe que células tronco e progenitoras dos hematocitoblastos, que formam as células do sangue, passam por processo semelhante ao entrar em contato com a noradrenalina. Isso poderia explicar a queda de imunidade em situações de estresse.

A equipe responsável pela pesquisa também fará novos testes de duração mais longa para acompanhar o impacto no envelhecimento e a possibilidade de conter ou reverter os efeitos.

Como comenta a Nature, é interessante pensar em como cabelos e pelos brancos são fatores ligados à sabedoria e à experiência. A revista lembra que, em certas espécies de gorilas, pelos brancos marcam o amadurecimento e indicam que o animal está apto a liderar seu grupo. Pode haver uma lógica nisso, portanto: se o indivíduo foi capaz de passar por tantos eventos estressantes e sobreviver, ele deve ter a experiência necessária para guiar seus pares.

[Nature, The Next Web, Gizmodo ES]