As enguias elétricas estão entre os grandes predadores do mundo. Quantas outras criaturas conseguem dar um choque capaz de paralisar um cavalo? Mas seus superpoderes são ainda mais impressionantes do que pensávamos: as enguias não usam a eletricidade apenas para atacar, mas também para ver.

Essa é a conclusão de um estudo publicado na Nature Communications. Em uma série de experimentos em laboratório, o neurobiólogo Ken Catania e seus colegas mostraram como as enguias elétricas “eletrolocalizam” a presa após paralisá-la, usando campos de energia para localizar e engolir suas vítimas quase que instantaneamente.

“A enguia consegue usar seus ataques elétricos como arma e sistema sensorial ao mesmo tempo,” disse Catania à National Geographic. “É meio que uma habilidade de ficção científica.”

Enguias elétricas, parentes dos bagres, se escondem silenciosamente nas profundezas escuras do Rio Amazonas, enquanto buscam presas para descarregar sua arma de 600 volts. As habilidades formidáveis de caça das enguias são conhecidas há décadas, mas os mecanismos exatos se mostraram difíceis de estudar (tente capturar um taser vivo de 2,5 m de comprimento para levá-lo até um laboratório – não é nada fácil).

Mas Catania é mais persistente do que a maioria. Em um estudo publicado no ano passado na Science, ele mostrou que os ataques de alta tensão das enguias elétricas podem estimular os neurônios motores da presa, causando espasmos musculares involuntários. Com duas ou três pequenas rajadas elétricas, as enguias forçam a vítima a apresentar a localização antes de descarregar para cima dela o golpe paralisante.

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Enguia elétrica lançando um estímulo eletricamente condutor (seta vermelha) antes do ataque de sucção (Catania et al. 2015)

Mas como a enguia encontra o almoço depois que a presa está desabilitada? Como destacou Catania, as enguias elétricas atacam e engolem as vítimas rapidamente – em questão de milissegundos.

A eletricidade é fundamental aqui, de acordo com uma série de experimentos feitos pela equipe de Catania. Como explica a National Geographic:

Para entender o que estava acontecendo, Catania trouxe enguias elétricas para o laboratório e deu a elas peixes anestesiados que estavam isolados dos eletrorreceptores da enguia por sacos plásticos. Com um eletrodo, Catania fazia o peixe tremer, e a enguia soltava seu ataque de alta tensão. Mas então elas pareciam não saber o que fazer em seguida – a enguia se lançou em direção ao movimento na água, mas não tentou sugar o peixe com a sua boca.

Catania então colocou um bastão de carbono eletricamente condutivo no tanque junto com o peixe. Ele fez o peixe tremer novamente, e então a enguia o atacou com um choque. Algumas vezes a enguia se moveu em direção ao peixe, mas então mudava a rota para atacar o bastão onde ele estivesse colocado no tanque. Para a enguia, o peixe parecia estar em dois lugares ao mesmo tempo.

O que esses experimentos mostram é que as enguias elétricas não apenas usam a tensão para imobilizar a presa: elas perseguem campos elétricos enquanto tentam encontrar a sua posição. Isso acontece com as enguias assim como com tubarões, raias e alguns peixes africanos capazes de eletrolocalizar a presa – uma adaptação que é parecida com a ecolocalização dos morcegos e golfinhos. [Nature via National Geographic]