O Facebook afirma há anos que trabalhar para salvaguardar as eleições (lembra daquela história de Sala de Guerra?) mas, de alguma forma, toda essa proteção não impediu que a desinformação sobre votação continuasse a proliferar nem que a campanha do presidente Donald Trump tivesse um papel ativo na disseminação de fake news.

Independente de tudo isso, a empresa, em um blog post, informou as ações que tomará caso algum candidato queira deslegitimar o pleito e que “não aceitará novos anúncios políticos na semana das eleições”. Não custa lembrar que as eleições nos EUA ocorrem daqui a dois meses.

Não se iluda pensando que isso é algo que se assemelha a uma tão esperada proibição de anúncios políticos. O Facebook continuará a mostrar às pessoas anúncios comprados anteriormente (que podem incluir mentiras). O comunicado serve menos para apresentar uma política útil e mais para admitir que a rede espera uma série de eventos ultrajantes, mas previsíveis — e os deixará livres com o mínimo de interferência.

Por um lado, os posts (aparentemente anúncios ou posts regulares) não podem dizer que as pessoas vão pegar coronavírus ao votar. Por outro, a pandemia pode ser usada para “desencorajar a votação” com um link de informações sobre o coronavírus. Sério: é isso que diz a nova e ousada estratégia da empresa de Mark Zuckerberg:

Removeremos as postagens que afirmam que as pessoas contrairão COVID-19 se forem votar e anexaremos um link para informações oficiais sobre o coronavírus a postagens que podem usar o COVID-19 para desencorajar a votação.

Se uma campanha ou candidato quiser deslegitimar o resultado da eleição, pode, mas aparecerá um rótulo informativo no post. O Facebook permitirá que um determinado candidato reivindique vitória antes do resultado da eleição: a rede apenas vai adicionar um rótulo que redireciona as pessoas para a Reuters (agência de notícias) e para o National Election Pool (consórcio de empresas de mídia dos EUA que fornece informações no dia da eleição).

O Facebook parece estar preparando uma campanha de intimidação de eleitores e um cenário em que Trump tenta reivindicar preventivamente a Casa Branca por meio do Facebook.

Em uma postagem, Mark Zuckerberg disse que está “preocupado que, com nossa nação tão dividida e a demora de dias ou até semanas para a finalização dos resultados das eleições, possa haver um risco maior de agitação civil em todo o país”.

Prevendo isso, ele disse que o Facebook está agindo contra campanhas que desincentivam a votação (o que já é proibido pelos padrões da comunidade, mas é uma atitude que acontece desenfreadamente na plataforma), tem removido mensagens mentirosas sobre os requisitos de votação e está “expandindo esta política para incluir declarações incorretas implícitas sobre o voto, como ‘ouvi dizer que qualquer pessoa com carteira de motorista vai votar neste ano’, porque isso pode enganar sobre o que é necessário para conseguir uma cédula de votação, mesmo que, por si só, não necessariamente invalide o seu voto”.

Você pode imaginar que, sabendo a importância desta eleição e o escrutínio que o Facebook está sofrendo para não influenciar como em 2016, os rótulos acrescentariam um contexto útil ou pelo menos declarariam sem rodeios quando o conteúdo de uma postagem é uma mentira completa — mas, pelo menos na implementação atual dessas políticas, não é bem assim. Aqui está, com um exemplo prático, de como o Trump ensina como votar duas vezes, o que é ilegal:

Tuite de Trump em inglês ensinando como votar duas vezes

Com base no grande número de cédulas não solicitadas e solicitadas que serão enviadas a eleitores em potencial para a próxima eleição de 2020 e para que você GARANTA QUE SEU VOTO SEJA CONTADO, VALIDADO E ENVIADO na urna O QUANTO ANTES: no dia da eleição, ou na votação antecipada, vá ao seu local de votação para ver se a sua correspondência foi tabulada (contada) ou não. Se foi, você não conseguirá votar, e o sistema funcionou corretamente. Se não foi, VOTE (que é um direito do cidadão). Se a sua cédula chegar depois de você votar [pessoalmente], o que não deveria acontecer, essa cédula não será usada ou contada porque seu voto já foi lançado e contabilizado.

AGORA VOCÊ GARANTIU QUE SEU PRECIOSO VOTO FOI CONTADO, não foi “perdido, jogado fora ou destruído de alguma forma”. DEUS ABENÇOE A AMÉRICA!!!

A ladainha usada por tantas empresas de mídia social — que “discurso bom” se contrapõe a “discurso mau” no imaginário mercado de ideias — convenientemente camufla o jogo que Trump está jogando nas plataformas. O argumento do Facebook é que só “mais discurso” pode desmentir coisas desse tipo, mas os únicos vencedores nesse ambiente são as pessoas que gritam mais alto e as plataformas que conseguem lavar as mãos de qualquer responsabilidade real.

“É importante que os comitês possam rodar campanhas que incentivem o voto, e eu geralmente acredito que o melhor antídoto para o mau discurso seja mais discurso”, escreveu Zuckerberg, “mas nos dias finais das eleições pode não ter tempo o suficiente para contestar novas reivindicações”.

O Gizmodo entrou em contato com o Facebook para comentar e atualizará este texto se recebermos uma resposta.