Violentos confrontos étnicos e um labirinto de guerras civis continuam atormentando Mianmar. Por isso, o Facebook proibiu quatro grupos armados com base no país de usarem a plataforma. O anúncio veio como parte de um esforço contínuo para expulsar “organizações perigosas” que promovem a violência na rede social.

O Facebook tem um longo e sombrio histórico em Mianmar. Ele foi acusado de falhar ao não prever nem agir para impedir o abuso de sua plataforma, o que levou a uma violência massiva e contínua. Tanto internamente quanto publicamente, funcionários do Facebook, incluindo o CEO Mark Zuckerberg, reconheceram no ano passado que foram “lentos demais” para agir e evitar que publicações alimentassem o genocídio no país do sudeste asiático.

A rede social tem sido usada para promover a violência no país há pelo menos meia década. Em 2014, o Facebook tinha apenas um único prestador de serviços capaz de falar birmanês e revisar postagens problemáticas promovendo a violência.

Quase todos os 20 milhões de usuários de internet de Mianmar estão no Facebook. No ano passado, pesquisadores da Organização das Nações Unidas concluíram que a plataforma desempenhou um “papel determinante” na incitação do genocídio, que resultou em pelo menos dezenas de milhares de mortes e na fuga de quase um milhão de pessoas de Mianmar para Bangladesh. A maioria das pessoas impactadas diretamente pertence aos Rhoyinga, um grupo étnico muçulmano que vive principalmente no oeste de Mianmar.

Na terça-feira, o Facebook baniu o Exército de Arakan, o Exército da Aliança Nacional Democrática de Mianmar, o Exército Independente de Kachin e o Exército de Libertação Nacional Ta’ang. Os grupos compõem a Aliança do Norte, uma coalizão de militantes de diferentes etnias que lutam contra o governo de Mianmar em suas respectivas regiões. São conflitos que vem e vão há mais de três décadas.

A história por trás dessa rodada particular de ação do Facebook foi iniciada há um mês, quando o governo de Mianmar prometeu “esmagar” o grupo insurgente conhecido como Exército Arakan depois de integrantes terem atacado as delegacias de polícia em janeiro. Um porta-voz do Exército Arakan disse ao New York Times que a violência foi uma retaliação contra ataques dos militares de Mianmar, deixando claro que os combates eram parte de um ciclo de violência que se mostrou inescapável até agora.

“Esses grupos armados estão agora banidos do Facebook e todos os elogios, apoio e representação relacionados serão removidos imediatamente após tomarmos conhecimento disso”, anunciou a empresa em um post no seu blog. O Facebook apontou para “evidências claras de que essas organizações foram responsáveis ​​por ataques contra civis e se envolveram em violência em Mianmar, e queremos evitar que eles usem nossos serviços para inflamar ainda mais as tensões no terreno”.

A postagem no Facebook anunciando a nova rodada de proibições totaliza cerca de 400 palavras, uma declaração curta que não explica em detalhes toda a lógica por trás da mudança. Mianmar abriga consideravelmente mais de quatro grupos armados independentes. O Facebook ainda não respondeu às perguntas do Gizmodo.

Tradução: Cada mancha colorida neste mapa de Mianmar é um território reivindicado por um grupo armado diferente — cada um defendendo uma etnia diferente. Estranhamente, o Facebook está expulsando apenas quatro desses grupos. Quatro que são particularmente odiados pelo exército. As justificativas não estão claras.

A ONU diz que mais de 4.500 pessoas foram deslocadas desde dezembro de 2018 devido aos combates entre o Exército de Arakan e o governo nacional de Mianmar. Outros grupos da lista estavam envolvidos em recentes confrontos que deixaram dezenas de mortos.

Em 2018, o Facebook removeu contas e páginas relacionadas aos militares de Mianmar. Segundo a empresa, elas espalhavam desinformação e ódio sobre os Rhoyinga. A campanha militar on-line de Mianmar começou há meia década, uma linha do tempo que chama a atenção para a lenta reação do Facebook à crise em curso.

O desafio está longe de terminar. Além da violência atual, uma eleição geral em 2020 está no horizonte. Observadores esperam que o site mais popular do país, o Facebook, desempenhe um papel importante — para o bem ou para o mal.

“Reconhecemos que as fontes de violência étnica em Mianmar são incrivelmente complexas e não podem ser resolvidas por uma empresa de mídia social”, disse a empresa quando as proibições foram anunciadas na terça-feira, “mas também queremos fazer o melhor possível para limitar o incitamento e o ódio, que aumentam um conflito já mortal”.