O Facebook relatou, nesta sexta-feira (28), uma enorme falha de segurança. Quase 50 milhões de contas foram afetadas pela falha, embora ainda não esteja claro se as contas foram usadas para fins escusos ou se dados pessoais foram acessados. A minha conta pode ser uma das afetadas. Sei disso porque, quando fui checar, o Facebook havia me desconectado. A essa altura, caí de cara no teclado, sem saber o que fazer. Já tenho aguentado muita porcaria dessa empresa há anos. Já estou cansado.

• Facebook tem 50 milhões de contas afetadas em enorme falha de segurança
• Facebook está dando para anunciantes informações que você sequer forneceu ao site

Faz quase 15 anos que tenho um perfil no Facebook. Entrei quando estava na faculdade, assim como muita gente da minha idade, e, na época, Mark Zuckerberg gostava de se referir ao site como um diretório. É assim que as pessoas o usavam no começo. Se você entrou para o Facebook em 2004, como eu, tudo o que você conseguia fazer no “Thefacebook ponto com” era adicionar algumas informações de contato e uma foto de perfil. Isso era ótimo na época, porque criar um site pessoal ainda era difícil para muita gente, e o Facebook facilitava isso para que você pelo menos se apresentasse na rede.

Muita coisa aconteceu desde então. O Facebook cresceu e se tornou uma das empresas mais poderosas e secretas do mundo. Mark Zuckerberg, antes um CEO nervoso e com dificuldades em público, agora é um dos homens mais ricos na Terra. O Facebook tem cerca de 2,23 bilhões de usuários no mundo todo, e a empresa já foi acusada de fomentar genocídio, violar a privacidade dos usuários, compartilhar dados privados de usuários de forma imprudente, espalhar notícias falsas e de destruir a democracia norte-americana. E essa é a lista reduzida.

Tudo isso, e agora essa notícia de que o Facebook não consegue manter dezenas de milhões de contas longe das mãos de hackers? Sinceramente, estou exausto. Ao longo dos anos em que tenho usado o Facebook, sempre pareceu que essa rede social esteve tomando mais de mim do que me oferecendo alguma coisa.

Bom, tecnicamente falando, acho que ela está dando mais para os anunciantes, mas, quanto a mim, acho que estou me ferrando. Assim como várias coisas na internet, o Facebook é um serviço livre que sou bem-vindo a usar se eu der para a empresa uma quantidade incontável de informações pessoais minhas. Quando o escândalo da Cambridge Analytica explodiu há alguns meses, foi preocupante que o Facebook tivesse deixado aqueles dados chegarem às mãos erradas. No entanto, com essa nova falha, parece claro que o site não consegue proteger meus dados mesmo quando está ativamente tentando fazer isso. A empresa admitiu que os tokens de acesso (pedaços de código que os hackers poderiam usar para assumir o controle de contas) de 50 milhões de pessoas haviam sido comprometidos nessa mais recente brecha. O Facebook resetou os tokens de acesso de mais 40 milhões de usuários em uma “medida de precaução”, depois de descobrir a falha. De um jeito ou de outro, fui desconectado do Facebook em basicamente todos os lugares e sinto como se tivesse sido vítima de um hacking.

Isso é uma droga. Tornei minha conta no Facebook privada há muito tempo e, desde então, percebi que impedir que pessoas aleatórias na internet acessem meus dados privados não impede o Facebook de pegá-los e compartilhá-los com anunciantes. Depois de ouvir a notícia dessa falha de segurança recente, comecei a excluir o máximo de informação pessoal possível da rede, embora eu perceba que fazer isso não implique necessariamente no Facebook ser incapaz de me rastrear no futuro. Eu poderia deletar minha conta no Facebook completamente, e isso não afetaria meu dia a dia tanto assim, já que eu nunca checo meu feed de notícias e quase nunca posto atualizações no meu perfil. Ainda assim, rola essa ansiedade esquisita de não existir no Facebook. Talvez essa fosse a sensação de não estar na lista telefônica, algumas décadas atrás.

Portanto, vou manter meu perfil, mas estou fazendo a limpa nas informações dele. Depois do escândalo da Cambridge Analytica nesse ano, revoguei o acesso ao meu perfil de quase todos os apps que já usei, o que foi ótimo e não afetou minha vida pessoal. Agora, me vejo deletando o máximo de informações possível do meu perfil, mesmo que os hackers já as tenham e isso não faça a menor diferença. Também comecei a usar o Privacy Badger, uma extensão do Chrome construída pela Electronic Frontier Foundation (EFF) para bloquear rastreamento invisível.

O fato de que eu não estou deletando meu perfil talvez seja um ponto de orgulho. Eu gosto do argumento feito por Siva Vaidhyanathan no New York Times alguns meses atrás: essa ideia de que não deveríamos deletar nossos perfis no Facebook, mas, sim, crescer como usuários para desafiar a dominância ainda não testada da empresa. Eu quero ficar de olho no Facebook, e o ponto de vantagem de ser um usuário (ainda que inativo) talvez seja valioso no futuro.

Porém, se estou falando de entrar no jogo do Facebook — ao dar à rede social ainda mais informações que ela irá perder, vender ou até coisa pior —, já cansei disso. Essa minha nova postura de desafio ao Facebook também significa que eu devo me distanciar do Instagram, que pertence ao Facebook. E eu farei isso. Farei como os próprios fundadores do Instagram fizeram alguns dias atrás. Aparentemente, eles não gostaram da maneira como o Facebook estava os explorando. Bom, eu também não.

Facebook já está sendo processo por causa da mais nova brecha de segurança

Nos Estados Unidos, a empresa já enfrenta sua primeira ação judicial coletiva por sua incapacidade de proteger os dados dos usuários. Provavelmente, esse será o primeiro de vários processos que virão pela frente, se o padrão visto na sequência do caso da Cambridge Analytica servir de referência.

Carla Echavarrai e Derrick Walker, dois usuários do Facebook, entraram com uma ação no Tribunal de Distrito do Norte da Califórnia, acusando a rede social de negligência, de ocultar suas medidas de segurança “totalmente inadequadas” e de violar a lei de concorrência desleal.

A ação também busca representar “todas as pessoas que se registraram em contas no Facebook nos Estados Unidos e cujas informações pessoalmente identificáveis foram acessadas, comprometidas ou roubadas do Facebook na brecha de segurança de setembro de 2018”.

Imagem do topo: Facebook / Gizmodo