Um novo estudo publicado nesta segunda-feira (14) parece confirmar uma realidade desagradável: a proliferação de algas potencialmente tóxicas nos lagos de água doce ao redor do mundo tornou-se mais intensa nos últimos 30 anos. E embora a mudança climática possa não ser a única razão pela qual o florescimento se agravou, é provável que o aumento das temperaturas dificulte a recuperação dos lagos.

Para o estudo, pesquisadores da Universidade de Stanford e da NASA utilizaram dados do satélite Landsat 5, que orbitou e tirou fotos da superfície da Terra por quase 30 anos até ser desativado em 2013. Em seguida, eles usaram um algoritmo emprestado do Google Earth Engine para identificar a proliferação de algas nos maiores lagos do mundo.

“Dados melhores estão disponíveis para os últimos anos, obtidos via instrumentos como MERIS e MODIS”, disse a autora do estudo Anna Michalak, pesquisadora sênior da Carnegie Institution for Science, de Stanford, ao Gizmodo. “O objetivo aqui, no entanto, era obter o registro mais longo usando uma abordagem única, tanto em relação ao período quanto na quantidade de lagos analisados em todo o mundo”.

No geral, eles estudaram as tendências de algas em 71 grandes lagos localizados em 33 países de seis continentes. Eles descobriram que em 68% dos lagos, o pico da intensidade de florescimento piorou no verão, enquanto a intensidade dessa proliferação só diminuiu em 8% dos lagos durante o mesmo período.

O mesmo padrão acontecia em um tipo particularmente perigoso de algas feitas de bactérias chamadas algas verde-azuladas, que podem ser tóxicas para a vida selvagem, animais de estimação e até mesmo para pessoas.

As descobertas, publicadas na Nature, fornecem mais evidências de que o florescimento tóxico realmente está se se espalhando em todo o mundo e “contrariam a hipótese de que o aumento das notificações de florescimento tóxicas é um subproduto do aumento da atenção científica”, conforme apontaram os autores.

Embora pareça haver uma ligação entre as alterações climáticas e esses florescimentos, a relação é complicada. Michalak e os coautores não identificaram uma associação consistente entre o aquecimento da temperatura e a possibilidade de proliferações mais intensas nos lagos ao redor do mundo.

O que isso provavelmente significa, segundo Michalak, é que o florescimento de algas pode ser afetado por diversos fatores, dependendo do ambiente de cada lago. E embora esses fatores possam incluir a temperatura, também podem incluir a precipitação ou o uso de fertilizantes nas proximidades.

“No entanto, uma constatação consistente é que apenas os lagos que aqueceram menos (ou realmente arrefeceram) foram capazes de sustentar ganhos na qualidade da água”, acrescentou ela.

Em outras palavras, mesmo que a mudança climática não esteja tornando o florescimento de algas em um determinado lago mais frequente, o aquecimento ainda fará com que tentar controlá-las seja um desafio para cientistas e governos de todo o mundo.

Os autores já observaram que a proliferação de algas nos Estados Unidos custa ao país US$ 4 bilhões por ano, graças aos danos que podem causar à água potável, à agricultura e ao turismo. Também podem ser fatais, como vimos este ano com a onda de mortes de animais de estimação nos EUA, durante o verão do hemisfério norte, todas ligadas a algas verde-azuladas.

Uma das principais conclusões do estudo, disse Michalak, “é que o combate às alterações climáticas também nos beneficiará de muitas outras formas, como a preservação da qualidade da água”.

“Uma segunda conclusão”, acrescentou, “é que as estratégias de gestão da água precisam levar em conta o fato de que as temperaturas e a precipitação estão mudando. Fazer isso aumentará a chance de sucesso dessas estratégias”.