Um pedaço de rocha negra que data os primeiros dias do Sistema Solar caiu no final do mês passado em uma entrada de garagem residencial no Reino Unido. Pesando cerca de 300 gramas, o fragmento de corpo celeste foi encontrado pelo casal Rob e Cathryn Wilcock, que vive na pequena cidade de Winchcombe, que tem origem medieval.

“Quando ouvi cair, levantei e olhei pela janela para ver o que estava lá. Mas, como estava escuro, não consegui enxergar nada”, disse Hannah, a filha do casal, à BBC. “Foi apenas na manhã seguinte, quando saímos, que o vimos no caminho — como se alguém tivesse jogado lá. E, para ser sincera, meu primeiro pensamento foi: ‘alguém está jogando pedaços de carvão nos jardins das pessoas?’”.

Contudo, o que eles não esperavam era que o “pedaço de carvão” fosse um meteorito. E não qualquer tipo de meteorito: ele é uma pequena parcela de condrito carbonáceo, com uma idade estimada de 4,5 bilhões de anos, data da formação do Sistema Solar, de acordo com um comunicado da Universidade de Manchester.

“Quase todos os meteoritos vêm de asteroides, os blocos de construção remanescentes do Sistema Solar que podem nos dizer como os planetas, incluindo a Terra, se formaram”, afirma Ashley King, pesquisadora do UK Future Leaders Fellowships no Departamento de Ciências da Terra do Museu de História Natural, em comunicado. “A oportunidade de ser uma das primeiras pessoas a ver e estudar um meteorito que foi recuperado quase imediatamente após a queda é um sonho que se tornou realidade!”

A bola de fogo, vista sobre o Reino Unido e o norte da Europa, em 28 de fevereiro de 2021. Imagem: Ben Stanley/Markus Kempf/rede AllSky7 via Universidade de Manchester.

A chegada da rara amostra foi acompanhada por um clarão, como você confere na foto acima, iluminando os céus do Reino Unido e do norte da Europa em 28 de fevereiro de 2021. A bola de fogo, que entrou na atmosfera da Terra a uma velocidade que atinge os 14 quilômetros por segundo, foi avistada por milhares de testemunhas, muitas das quais relataram o espetáculo à Rede de Observação de Meteoros do Reino Unido.

Outras imagens tiradas de diferentes ângulos permitiram aos cientistas triangular um local de pouso e também recriar sua trajetória de voo através do Sistema Solar, segundo o comunicado da Universidade de Manchester. Acredita-se que outros restos do asteroide destruído tenham caído na região conhecida como Cotswold, e a busca por esses valiosos fragmentos ainda continua. Junto com a peça principal, outros fragmentos menores do meteorito também atingiram a garagem. Apesar de ser uma bagunça composta por pó e estilhaços, as amostras estão em excelentes condições, sendo até mesmo comparadas a amostras imaculadas retornadas de missões espaciais.

“Fiquei em choque quando o vi e imediatamente soube que era um meteorito raro e um evento totalmente único”, disse Richard Greenwood, pesquisador da Open University, no comunicado. “É emocionante ser o primeiro a confirmar para as pessoas que estão diante de você que o baque que ouviram na garagem durante a noite é uma coisa tão importante.”

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Os condritos carbonáceos são formados a partir de uma combinação de minerais e compostos orgânicos, como aminoácidos. Ao estudar esses objetos antigos, os cientistas podem remontar aos primeiros dias do Sistema Solar, permitindo compreender melhor a origem dos planetas e da água, além de como os elementos que deram origem à vida chegaram à Terra.

“Estamos absolutamente entusiasmados com isso, porque é muito valioso para a ciência e para a compreensão humana do mundo e do Sistema Solar. Também estamos felizes que possamos ser uma pequena parte disso”, disse Rob Wilcock à BBC.

O meteorito será transferido para o Museu de História Natural, permitindo uma investigação formal do objeto. Das dezenas de milhares de meteoritos conhecidos na Terra, apenas 51 são condritos carbonáceos. O meteorito de 28 de fevereiro é o primeiro a ser encontrado no Reino Unido e a primeira amostra a ser recuperada no condado desde 1991.