Nesta segunda-feira (19), um apagão deixou 11 Estados e o Distrito Federal sem luz por mais de uma hora. Milhões de pessoas ficaram sem energia elétrica em SP, RJ, ES, MG, PR, RS, SC, GO, MS, MT, RO e DF, após um pico de consumo associado a uma falha na distribuição de energia pelo país.

Este “apaguinho” pode ser uma prévia de futuras quedas de energia previstos para acontecer ao longo de 2015, devido ao calor intenso, falta de chuvas e poucos investimentos na rede elétrica do país. Vamos entender melhor a situação.

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O ONS encontrou um problema no Sistema Interligado Nacional…

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) é uma entidade criada em 1998 que coordena e controla a geração e transmissão de energia elétrica pelo país. Ele administra o SIN (Sistema Interligado Nacional), conjunto de usinas hidrelétricas e termelétricas espalhadas por todo o país. Apenas 1,7% da energia gerada no país encontra-se fora do SIN (são pequenas usinas isoladas na região amazônica).

As usinas de diferentes regiões do país se interligam para formar o SIN. Este é o mapa do sistema:

IntegracaoEletroenergetica_2014setembro

Esse sistema permite que uma região não fique sem luz caso sofra falhas em sua rede: é possível redirecionar energia elétrica de outros estados até que a situação se regularize.

Mas nem sempre isso funciona: na segunda-feira, o ONS disse que o SIN estava gerando energia “com folga”, mas aconteceram “restrições na transferência de energia das Regiões Norte e Nordeste para o Sudeste”.

Isso se juntou a um pico de consumo: a instabilidade derrubou a geração de 11 usinas no Sudeste, Centro-Oeste e Sul, incluindo a usina nuclear Angra I.

… que o fez exigir o desligamento…

Com o verão, mais pessoas usam ventilador e ar-condicionado ao mesmo tempo, o que exige mais da rede elétrica. No entanto, quando a demanda é extremamente alta, isso pode causar falhas na distribuição de energia que são difíceis de consertar – levando a um apagão.

Edmilson Moutinho dos Santos, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Universidade de São Paulo), diz ao UOL: “para não desarmar o sistema e evitar um apagão, o órgão preferiu controlar esse processo e pedir para que concessionárias desligassem de forma organizada”. Isso evita que todo o sistema elétrico entre em colapso.

O Globo explica que o ONS tem um mecanismo automático junto às distribuidoras para reduzir a carga da rede, caso o consumo supere a capacidade da oferta. Elas já têm previamente selecionadas as regiões onde será feito o corte de energia, para manter o fornecimento a hospitais, escolas, trens e metrô.

… e isso pode se repetir nas próximas semanas…

Célio Bermann, também do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Universidade de São Paulo), diz ao UOL:

O sistema elétrico brasileiro, que é interligado, chegou ao limite da sua capacidade de produção de energia para satisfazer a demanda. O que o ONS fez foi antecipar aquilo que nós vimos em 2001, na época do apagão.

Entre julho de 2001 e setembro de 2002, o Brasil passou pela crise do apagão: quedas frequentes na energia elétrica, obrigando os brasileiros a racionar o consumo.

A crise foi causada por uma conjunção de fatores: escassez de chuvas, poucos investimentos para ampliar a geração de energia, e falta de planejamento. Quatorze anos depois, estamos vendo estes fatores se alinharem de novo.

Em fevereiro de 2014, diversas regiões do país sofreram um apagão após um curto-circuito em linhas de transmissão no Tocantins. O motivo: recordes sucessivos na demanda máxima instantânea de energia no país, quando o calor ficou acima da média.

Mas a situação agora é mais grave: João Carlos Mello, presidente da consultoria Thymos Energia, disse ao Estadão que o nível dos reservatórios nas usinas hidrelétricas é inferior ao visto em 2001, quando foi anunciado o racionamento.

… porque dependemos bastante da energia hidrelétrica e está chovendo pouco…

Segundo a Aneel, 83,2% da energia elétrica gerada no país depende de usinas hidrelétricas, que usam o movimento das águas de rios represados. Mas com a escassez de chuvas, baixa o nível de água dos reservatórios, impactando a geração de eletricidade.

E o principal parque gerador de hidroeletricidade fica no Sudeste, onde vem chovendo menos que a média histórica. Segundo o G1, os reservatórios das usinas hidrelétricas estão com 19% de sua capacidade; o esperado era pelo menos 40%.

Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), diz ao G1: “infelizmente, se continuar sem chuva e muito calor, não vamos conseguir aumentar a oferta de energia, e vamos continuar tendo esses tipos de eventos muitas vezes”.

… as usinas termelétricas podem não ser o bastante…

O Brasil também conta com usinas termelétricas, que geram energia através da queima de combustível (óleo, carvão, gás natural). Mas além de serem poluentes, elas são caras: o megawatt-hora custa R$ 85 em uma hidrelétrica de grande porte, e até R$ 600 em uma termelétrica. E essas usinas podem não ser o bastante.

Há alguns meses, especialistas apontavam o risco de racionamento no país em 2015. Em outubro, Erik Rego, diretor da consultoria Excelência Energética, disse à Reuters: “em 2014, as térmicas conseguiram gerenciar o problema. Ano que vem, se passarmos por isso de novo (nível de represas caindo no mesmo ritmo que no último período úmido), as térmicas não dão mais conta”.

… e os investimentos em energia foram insuficientes nos últimos anos…

O Brasil tem um sério problema de geração de energia: nós estamos consumindo cada vez mais eletricidade, mas a capacidade das usinas não vem acompanhando este ritmo. Edmar de Almeida, professor-adjunto do Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explica:

Um país que precisa dobrar a produção de eletricidade até 2035 não pode perder de vista o modelo de financiamento do setor. Segundo a Agência Internacional de Energia, o Brasil precisa investir cerca de US$ 24 bilhões de dólares por ano até 2020 para garantir o suprimento de energia no país. A Eletrobrás acaba de divulgar seu planejamento estratégico para 2018. A empresa planeja investir R$ 61 bilhões de reais até 2018. Ou seja, cerca de 5 bilhões de dólares por ano apenas.

Diversos especialistas e ambientalistas apontam que, para melhorar a geração de eletricidade no Brasil, é preciso diversificar, apostando em fontes de energia renovável – eólica, solar e biocombustíveis.

O BNDES diz que o setor elétrico brasileiro investirá R$ 192,2 bilhões entre 2015 e 2018, mas especialmente para gerar energia hidrelétrica.

A segunda fonte de energia com maior investimento no período é a eólica. O BNDES prevê que, em cinco anos, ela terá cerca de 10% de participação na matriz elétrica brasileira. (Em 2013, ela correspondia a apenas 1,7%.)

… o que pode levar a um racionamento em 2015.

Segundo o Estadão, a presidente Dilma Rousseff “não quer nem ouvir falar em contenção de consumo de energia”, e cobrou soluções do ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga. O ONS fará uma reunião ainda hoje para avaliar o problema.

Só que o problema na oferta de energia é grave, e pode piorar. Tudo depende agora das chuvas do verão, o “período úmido”: se as represas do Sudeste e do Centro-Oeste atingirem pelo menos 20% até abril, pode-se evitar um racionamento.

Senão, prepare-se para ficar sem luz. João Carlos Mello, da Thymos Energia, diz à Reuters que um possível racionamento tenderia a começar em abril ou maio.

Foto por Leandro Neumann Ciuffo/Flickr