A Apple tem um novo brinquedinho. É uma empresa de materiais chamada Liquidmetal, e todo mundo está falando sobre isso! O problema é que ninguém parece ter muita certeza do que está falando. Então… Liquidmetal. O que é esse troço? E o que a Apple quer com ele?

Liquidmetal. É um nome sutilmente poderoso. Invoca imagens de Exterminadores do Futuro se regenerando. E apesar do próximo produto da Apple provavelmente não ser um T1000, ela pode ter grandes planos para o novo metal misterioso.



O Liquidmetal atiçou o nosso interesse. Não por ser uma novidade, já que ele chegou ao mercado lá em 2003, depois de anos de desenvolvimento, mas precisamente por não ser. O material já foi usado em tacos de golfe e bastões de baseball, já foi enviado ao espaço, já esteve presente até em gadgets que você mesmo pode já ter visto. (Sabe aqueles pen drives SanDisk Cruzer Titanium? Pois é, eles não são feitos de titânio.)

Agora, subitamente, depois de todos esses anos, a Apple não apenas quis usar o Liquidmetal como quis também comprá-lo para si, talvez para impedir que outros o usem. Por quê? O que eles estão vendo que ninguém mais viu? E o que isso significa para o futuro dos produtos da Apple e para todos os outros nesta indústria?

A ciência da coisa

A definição científica do Liquidmetal é mais ou menos assim: ele é um membro de uma classe de ligas metálicas conhecidas formalmente como metais amorfos, ou vidros metálicos, porque o material tem algumas propriedades em comum com os vidros, como fragilidade ao impacto e, em vez de um ponto de derretimento fixo, uma perda gradual de integridade em temperaturas elevadas. É uma mescla de coisas das quais você já ouviu falar: cobre, titânio, alumínio e níquel. Então, sim, é só um tipo de coisa, como um polímero, uma liga de alumínio ou um vidro.

O segredo está em como ele é feito: em vez de simplesmente misturar a liga e deixá-la esfriar, as ligas amorfas são resfriadas mais rapidamente. Isso altera as suas estruturas atômicas, o que por sua vez altera as suas propriedades básicas. Metais comuns tipicamente têm estruturas atômicas cristalinas e ordenadas, de modo que tendem a sofrer deformações quando atingidos por impactos ou flexionadas. As ligas amorfas são feitas de átomos caóticos e desordenados, que tendem a voltar à sua forma inicial, de forma mais aproximada a um líquido. (A maioria dos metais têm espécies de fibras ou veios direcionais, como a madeira. O Liquidmetal não tem.)

O que torna o Liquidmetal especial em comparação com outras ligas amorfas é que ele é mais fácil de fazer. Simplificando brutalmente as coisas, basta dizer que ele não precisa ser resfriado tão rapidamente quanto outras ligas amorfas e que ele pode ser resfriado – ou seja, feito – em maiores quantidades.

Como eu disse, você provavelmente já ouviu algo mais ou menos por essas linhas. Mas a menos que você tenha formação em física, descrições como essa não importam tanto. Beleza, ele tem uma estrutura atômica esquisita, mas e daí? Isso é importante por quê?

O que é, o que é

Quando você pega um pedaço de Liquidmetal na sua mão, como ele é? Qual a sensação? "Em termos de aspecto e cor, a liga Liquidmetal se parece com um metal normal, mais para aço inoxidável do que para alumínio, apesar de ter uma coloração metálica distinta". Este é o Dr. Atakan Peker, um dos pesquisadores responsáveis pelo material. Ele trabalhou com a empresa Liquidmetalpor mais de dez anos e agora é Diretor de Materiais Avançados na WSU. "Em uma forma de cartão ou de bastão, ele se mostra bem mais flexível do que o aço inoxidável ou alumínio. Mas à medida que você o dobra mais e mais, ele vai se mostrando muito mais forte, exigindo muito mais força para ser dobrado… Pode-se pensar na liga Liquidmetal como uma versão muito mais forte de um plástico".

A coisa mais legal sobre o Liquidmetal é que o seu comportamento vai ficando mais radical à medida que as circunstâncias vão ficando mais extremas. Um trecho de um relatório da NASA sobre a substância:

No experimento, três bolas de aço do tamanho de bolas de gude foram derrubadas de uma mesma altura, cada uma dentro de um tubo de vidro. Cada tubo tinha uma superfície diferente abaixo dele: aço, titânio e Liquidmetal. Após caírem, as bolas foram deixadas quicando. As bolas que atingiram as placas de titânio e aço quicaram por cerca de 20 a 25 segundos, enquanto a bola que caiu na superfície de Liquidmetal quicou por um 1 minuto e 21 segundos. Durante o experimento, esta foi a única bola que quicou para fora do seu tubo.

Lembra o Flubber, não?

O Dr. Peker me concedeu uma imagem mental ainda mais vívida: "Se um clipe de papel fosse feito de Liquidmetal, ele permaneceria bastante flexível, e uma pessoa querendo deformá-lo completamente machucaria ou cortaria um ou dois dedos antes de conseguir". Ou seja, não tente isso em casa (deformar qualquer coisa feita de Liquidmetal).

Mas antes de começar a criar uma mitologia aqui, em volta do material, devemos lembrar que ele não teve muito sucesso em produtos reais. Tem aquele pen drive da SanDisk, e a Samsung enfiou algumas partes feitas de Liquidmetal em alguns telefones – molduras de tela e articulações, para ser específico. Mas é notável que os modelos específicos que incluem estas peças são basicamente indistinguíveis dos modelos que não incluem.

Mas quanto mais nos afastamos do segmento de eletrônicos de consumo, mais empolgante a história do Liquidmetal fica. Em versões prévias, ele foi usado tanto dentro de bolas de golfe quanto nos tacos, de US$ 600. A extrema "quicabilidade" foi uma vantagem, mas a falta de refino foi um grande obstáculo. Alguns tacos ficaram conhecidos por se quebrarem espetacularmente (este pequeno fiasco acarretou dívidas "substanciais" à empresa Liquidmetal).

Ele tem sido usado em bastões de baseball da Rawlings e em raquetes de tênis da Head, assim como ao redor de alguns esquis. As empresas tratam o Liquidmetal como se fosse titânio: algo que torna um produto prêmium, e que soa bonito no papel, mas que você provavelmente nem perceberia a diferença se não te falassem. O Andre Agassi usou uma raquete com Liquidmetal por um tempo, mas alguém aqui realmente acha que foi por isso que ele venceu o 2003 Australian Open?

O exército moldou o material nas pontas das balas anti-armadura KEP (Kinetic Energy Penetrator). Ele também já foi usado para fazer bisturis ultra-duros e em substituições depara articulações de humanos. Ele tem fãs na NASA, de onde já foi mandado ao espaço para experiências. Segundo um antigo contrato de perfuração da BP/Transocean, é praticamente certo que o equipamento de perfuração que devastou o Golfo do México usava Liquidmetal – sob o nome de Armacor – na sua broca. (A Armacor não foi acusada de envolvimento no desastre.)

Resumindo: o Liquidmetal é útil onde quer que você possa imaginar utilidade para um troço extremamente resistente, ainda que relativamente flexível, e facilmente moldável. O que torna ainda mais estranho o fato da Apple querer a tecnologia inteiramente para si. Ela comprou os direitos exclusivos para uma substância que, até onde se sabe, teve muito menos sucesso em gadgets do que na maioria das outras indústrias onde foi usada.

Por que a Apple quer isso?

Só há duas maneiras de saber o que a Apple faria com o Liquidmetal. A mais óbvia, e menos provável de dar certo, é perguntar diretamente para o Steve Jobs, o Jonathan Ive ou algum engenheiro da Apple. Rá. Alternativamente, você pode simplesmente ver como a Apple já o usou. Sim. Antes da compra, a Apple foi responsável pelo que pode ter sido uma das maiores distribuições de um produto com Liquidmetal da história: o iPhone.

Conversando com Leander Kahney, do Cult of Mac, o Dr. Peker percebeu algo estranho no pino de ejeção do cartão SIM do iPhone: "Eu reconheci imediatamente. Confie na palavra de um expert: isto é Liquidmetal". Qualquer americano (porque no resto do mundo o pino é feito de aço) pode abrir agora mesmo a caixa do seu iPhone 3G ou 3GS e maravilhar-se por ter um pedaço de Liquidmetal nas mãos (donos de iPhone 4, desculpem, mas o MicroSIM de vocês atrapalhou toda a diversão, de novo).

Isso dos mostra que… bem, não mostra muita coisa. Mostra que não é de agora que a Apple está interessada no Liquidmetal. Também mostra que ela encontrou alguém, em algum lugar, capaz de produzir milhões de pequenas pecinhas do negócio. O Dr. Peker nota que a razão do Liquidmetal não ter decolado no segmento de eletrônicos de consumo tem provavelmente menos a ver com o potencial do material do que com a "falta de uma infraestrutura apropriada de fabricação". Ninguém até agora realmente se interessou em realmente fabricar coisas com ele, então ele até agora está saindo muito caro. Mas isso não é um problema tão grande assim. Só precisamos de uma empresa com dinheiro, paciência e influência sobre as fabricantes de hardware. Uma empresa como a Apple.

Na imaginação mais louca de um cientista especializado em materiais de fabricação, o que será que a Apple poderia fazer com essa coisa? O Dr. Peker aponta para o uso mais óbvio de um material duro, resistente, impossível de deformar, não-corrosivo e à prova de arranhões: cases e estruturas.

Os plásticos são flexíveis, mas não fortes, e os metais são fortes, mas não tão flexíveis. As ligas de Liquidmetal podem fornecer uma carcaça mais durável, bem mais resistente a batidas, arranhões e quebras do que o mais resistente dos plásticos.

Se você deixa cair um telefone de plástico, ele racha ou quebra. Um de metal se deforma ou se machuca. Um revestido de Liquidmetal provavelmente só sairia quicando pelo chão. Por um minuto e 21 segundos. Talvez. Em teoria.

Ainda no papo com o Leander Kahney, Peker também propôs um uso inspirado diretamente pelas manchetes: poderia ser usado em uma antena – o que de fato já foi, em um modem wireless da Novatel feito para a Verizon. O fato da sensível antena do último iPhone ser parte da estrutura também pode não ser exatamente uma coincidência – o Liquidmetal é facilmente moldável, e, considerando o tamanho do sapo que a Apple teve que engolir por causa do tal "antennagate", não seria nenhum absurdo pensar que eles estão desesperados atrás de uma alternativa. E esta não teria os vincos.

Mas o resultado mais realista desta aquisição será, para usar a palavra do dia, sutil. Assim como qualquer outro bom material, a exigência que se fará do Liquidmetal é que ele desapareça em um produto a serviço do design. Um iPhone com uma antena de Liquidmetal, por exemplo, não seria anunciado como um "Liquidmetal iPhone", mas sim como um iPhone levemente melhor.

E digamos que o material vá parar nas articulações dos nossos Macbooks, sob o pretexto de que elas demorarão mais para se soltar ou amolecer; ou que acabe compondo o corpo hilariamente pequeno do novo iPod Shuffle. Estes produtos trariam o tipo de melhoria sutil sob os seus predecessores que nós geralmente damos por certa. Poderá ser difícil sequer reparar.

O que poderá ser mais fácil de notar é a vantagem que este novo material poderá dar à Apple. Lembre-se, não havia nada terrivelmente transformador no processo de fabricação unibody que a Apple adotou para os Macbooks. Era apenas melhor. Fez os produtos parecerem mais luxuosos e estruturalmente fortes. Deu um visual distinto. Talvez tornou-os mais duráveis, é difícil saber por enquanto. De qualquer forma, essa sucessão de diferenças e melhorias sutis acabou por definir a linha de laptops da empresa, e, obviamente, a Apple tratou de patentear tudo rapidão. Se – quando – o Liquidmetal se infiltrar na nova geração de produtos da Apple, talvez você nem consiga dizer onde ele está. Mas ele estará lá.