Dois anos atrás, uma equipe de cientistas italianos afirmou ter descoberto um lago subglacial próximo ao polo sul marciano. A mesma equipe coletou mais evidências para sustentar essa afirmação, incluindo a aparente descoberta de ainda mais corpos enterrados de água líquida. A nova pesquisa fala até sobre o potencial de vida em Marte. No entanto, nem todos os especialistas foram convencidos pelas evidências.

Pode haver mais água líquida abaixo da superfície marciana do que imaginávamos, de acordo com uma nova pesquisa publicada nesta segunda (28) na Nature Astronomy. O novo artigo descreve vários corpos d’água subglaciais recém-detectados abaixo do polo sul marciano, além do que havia sido encontrado e descrito dois anos atrás.

Existia água líquida em Marte há bilhões de anos, mas ela quase acabou, por razões que ainda não foram totalmente compreendidas. A perspectiva de água líquida sob a superfície certamente atrairá a atenção dos astrobiólogos, já que lagos subglaciais semelhantes na Terra, incluindo o Lago Vostok na Antártida, são conhecidos por abrigar vida microbiana.

Para ser justo, essa água líquida, se é que existe — ainda não há certeza disso — é supersalgada e provavelmente muito lamacenta. A solução aquosa hipersalina permanece na forma líquida apesar das temperaturas muito mais baixas do que o ponto de congelamento da água, de acordo com Elena Pettinelli, principal autora do estudo e professora associada da Università degli Studi Roma Tre, em Roma.

As regiões azuis mostram alta permissividade reflexiva — um sinal potencial de água líquida. Imagem: S. E. Lauro et al., 2020 / Nature Astronomy

“Algo interessante está acontecendo aqui, mas há uma barreira realmente alta para provar quando se trata de falar sobre água líquida em Marte”, disse Cassie Stuurman, cientista de radar do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, por e-mail. “Para ser realmente convincente, a maioria dos cientistas gostaria de ver isso corroborado por outras linhas de dados e evidências”, disse Stuurman, que não está envolvida com o novo estudo.

Em 2018, Pettinelli e seus colegas detectaram sinais de um lago subglacial em uma região chamada Ultimi Scopuli usando o instrumento Mars Advanced Radar for Subsurface and Ionosphere Sounding (MARSIS) a bordo do satélite Mars Express. Os dados do radar apontaram para a existência de uma região aquosa de 20 quilômetros de largura cerca de 1,6 quilômetro abaixo da superfície, que os pesquisadores interpretaram como um lago subglacial ou uma mancha de água líquida.

Foi uma descoberta intrigante, mas várias questões permaneceram sem resposta, como a origem do suposto lago, a hidrodinâmica dele e até a plausibilidade de tudo isso, como explicou Stuurman. Para Pettinelli e sua equipe, uma questão importante não resolvida era se esse corpo d’água representava uma única ocorrência ou uma de muitas.

“A descoberta de múltiplos lagos responde a essa pergunta, mostrando que a água líquida subglacial pode ser comum”, escreveu Pettinelli por e-mail. “Isso nos força a considerar os processos globais de formação e estabilização da água líquida, que são peças essenciais do quebra-cabeça para a nossa compreensão do passado e do presente do clima, da geologia e das possíveis condições de habitabilidade em Marte.”

Para o novo estudo, a equipe usou o MARSIS novamente, mas desta vez eles escanearam uma área muito maior do que antes, refletindo o radar em uma região de 300 quilômetros de largura. A equipe então aplicou um método semelhante usado por cientistas para detectar lagos subglaciais na Terra, ou seja, os da Antártica, Groenlândia e norte do Canadá.

“Queríamos estabelecer a extensão da água subglacial nesta região, por isso adquirimos novos dados, alcançando uma cobertura de radar sem precedentes na área de estudo”, disse Pettinelli. “Usamos um novo método de análise do conjunto de dados MARSIS completo, baseado em procedimentos de processamento de sinal normalmente aplicados a mantos de gelo polares terrestres. Finalmente, comparamos os novos resultados com o método anterior, encontrando resultados muito semelhantes.” O novo método “nos deu confiança sobre a validade e confiabilidade dos resultados”, acrescentou ela.

Stuurman disse que o novo artigo aborda a suavidade da terra sob a calota polar e as diferenças físicas entre esta região e as áreas periféricas. Ela disse que é “realmente difícil discordar de que esta região parece única nos dados do radar”.

O novo documento, além de afirmar mais uma confirmação da natureza líquida do lago encontrado em 2018, também resultou na descoberta de outras três manchas menores de água nas proximidades. Como mostra a nova análise, a água está agrupada na mesma área geral, mas é cercada por um leito rochoso seco.

“Nossos resultados reforçam a afirmação da detecção de um corpo de água líquido em Ultimi Scopuli e indicam a presença de outras áreas úmidas nas proximidades”, disse Pettinelli. “Sugerimos que as águas são salmouras de perclorato hipersalinas, conhecidas por se formarem nas regiões polares de Marte e que sobrevivem por períodos de tempo geologicamente significativos em temperaturas bem abaixo do ponto de congelamento.”

Stuurman disse que o novo artigo traz implicações importantes para a probabilidade de existência de vida microbiana em Marte. No entanto, ela expressou algumas reservas sobre o estudo.

“Para ser sincera, acredito que este artigo vai gerar muita discussão”, disse ela. “A ideia de que poderia haver grandes quantidades de água líquida no Marte atual não é uma hipótese muito popular.”

Stuurman estava preocupada, por exemplo, com a equipe ter usado uma técnica para detectar lagos subglaciais na Terra e que eles fizeram isso “sem qualquer validação cruzada” para mostrar que também funciona para “um planeta totalmente diferente”.

Além disso, os critérios usados ​​pela equipe para determinar se um sinal de radar corresponde a um lago subglacial — também emprestados das ciências da Terra — “não são cumpridos por este estudo”, disse ela.

Usando os critérios citados no estudo deles, “há quatro propriedades diferentes que devem ser atendidas antes que um lago seja definido”, disse Stuurman, mas “dados os dados disponíveis, é impossível atender a no máximo três delas, e isso significa — pela própria definição dos autores — que o lago não é ‘definido’ neste caso.”

Pensando em pesquisas futuras, Pettinelli disse que sua equipe gostaria de caracterizar melhor a topografia dessas particularidades geográficas, já que o formato é um parâmetro chave que permite aos cientistas identificar a presença de um lago subglacial na Terra.

Dadas as limitações do MARSIS, entretanto, a equipe não pôde “determinar as variações topográficas do leito rochoso”, deixando algumas questões importantes sem resposta. Além disso, a equipe procurará áreas semelhantes em Marte e, presumindo que existam, fará varreduras semelhantes, disse Pettinelli.

A existência de água líquida salgada abaixo do polo sul marciano pode ser uma proposta controversa, mas não é tão estranha quanto pode parecer. Como outras pesquisas mostraram, nosso sistema solar é um lugar surpreendentemente úmido — mas essa umidade fica bem escondida.