De um modo geral, os cientistas não gostam dos hipopótamos de Pablo Escobar.

Quando a polícia nacional colombiana assassinou o chefão da cocaína em 1993, ele deixou para trás quatro hipopótamos adultos. Eles são considerados uma das principais espécies invasoras do mundo. Um estudo de janeiro mostrou que o cocô deles estava contribuindo para a proliferação de algas e arruinando as características químicas dos lagos locais. Estes animais são pragas brutas que podem arruinar os ecossistemas locais.

Mas um novo estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Science nesta semana, exibe uma visão diferente desses hipopótamos. Especificamente, a nova pesquisa diz que a introdução de grandes herbívoros não nativos em ecossistemas — como é o caso desses hipopótamos na Colômbia — pode, na verdade, restaurar traços ecologicamente benéficos na área que podem ter sido perdidos por milhares de anos.

“Enquanto descobrimos que alguns herbívoros introduzidos são combinações ecológicas perfeitas para os extintos, em outros casos as espécies introduzidas representam uma mistura de características observadas em espécies extintas”, diz John Rowan, pesquisador de biologia da Universidade de Massachusetts Amherst e co-autor do estudo.

Os hipopótamos de Pablo, por exemplo, são semelhantes em alimentação e tamanho às agora extintas lhamas gigantes, que outrora vagavam pela região. Eles também são semelhantes em tamanho e comportamento semiaquático a outra espécie extinta da ordem Notoungulata, que desapareceu há milhares de anos. Isso lhes permite desempenhar dois papéis desocupados no ecossistema colombiano, onde foram introduzidos depois da morte de Escobar, quando começaram a explorar a zona rural do país.

Em outras palavras, Pablo Escobar, sem querer, responsável por renaturalizar seu país de origem e trazer de volta os serviços ecossistêmicos que estavam faltando desde que a megafauna morreu. Isso não significa necessariamente que os hipopótamos de Pablo são bons. Mas isso significa que os cientistas devem olhar para espécies introduzidas, como é o caso dos hipopótamos, sem preconceitos de que são pragas invasivas e negativas. Só não espere que o pessoal lá na Colômbia concorde com essa opinião.

E isso vai além dos hipopótamos de Pablo. Os pesquisadores analisaram 72 casos de espécies invasoras — ou “introduzidas”, como dizem os autores — de herbívoros que entraram em um ecossistema, comparando suas características ecológicas com as dos animais que povoavam estas áreas no passado pré-histórico e pré-humano.

Em 64% dos casos, os autores descobriram que espécies introduzidas eram mais semelhantes a espécies extintas do que as que atualmente povoam aquele determinado ecossistema. Isso significa que, na maioria das vezes, essas espécies introduzidas podem potencialmente preencher nichos ecológicos que estão vagos há muito tempo, o que pode afetar vários aspectos da saúde do ecossistema, desde quais nutrientes são dispersos na água e no solo até a frequência com que ocorrem incêndios florestais.

Os hipopótamos, por exemplo, eram considerados prejudiciais porque o cocô fertiliza os lagos. Mas “na África, a fertilização das vias navegáveis ​​conduzidas pelos hipopótamos desempenha um papel fundamental no aumento da produtividade da pesca”, Erick Lundgren, doutorando do UTS Centre for Compassionate Conservation que liderou o estudo, disse ao Gizmodo. Isso é fato.

“Não afirmamos que os hipopótamos são benéficos ou não — mas que eles devem ser estudados sem esses tipos de rótulos, no contexto do tempo profundo”, disse Lundgren.