Se o Planeta 9 existe, ele passou por um grande calvário. É isso o que sugerem novos estudos que questionam como um planeta pode ter se colocado em uma órbita tão estranha. Isso também pode ajudar a explicar as órbitas improváveis de diversos objetos do Cinturão de Kuiper.

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O Planeta 9 é um mundo hipotético com mais ou menos a massa de Netuno que orbita o Sol em uma elipse gigante, a uma distância entre 60 bilhões e 160 bilhões de km. Apesar de astrônomos teorizarem a existência do planeta há anos, a versão mais recente – dos cientistas Mike Brown e Konstantin Batygin, do Caltech – vem ganhando força desde seu anúncio em janeiro. O potencial planeta é tão convincente que astrônomos escreveram diversos artigos sobre como podemos fazer para encontrá-lo e como ele pode se parecer.

Quase tão interessante quanto a localização atual do Planeta 9 é como este planeta foi parar 10 vezes mais longe do Sol do que Plutão. Diversos modelos feitos por cientistas do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics agora tentam responder essa questão.

Existem essencialmente três hipóteses. A mais provável, proposta pelos astrônomos Scott Kenyon e Benjamin Bromley, posiciona o Planeta 9 como um gigante gasoso que se formou na parte interna do sistema solar antes de se aproximar de mais de Júpiter e ser jogado para longe.

“As chances de que outros gigantes gasosos se formaram nos primórdios do sistema solar são bem grandes,” disse Kenyon ao Gizmodo, adicionando que os primeiros milhões de anos da vida do Sol foram tempos caóticos, com pequenos gigantes gasosos sugando toda a matéria e colidindo com outros à toa. “Poderia ter surgido uns dez planetas e Júpiter pode ter comido alguns deles.”

Essa teoria enfrenta um problema: assim que a gravidade lançou o Planeta 9 para os confins do sistema solar, o que fez ele parar? Por que ele não continuou viajando pelo espaço interestelar? Uma possibilidade, diz Kenyon, é que os chamados “discos gasosos” que rodearam o Sol pelos primeiros 20 milhões de anos da sua vida produziram atrito o suficiente para fazer o Planeta 9 desacelerar. “Se você tiver a massa certa de planeta e a massa certa de gás, pode amortecer a órbita e torná-la circular,” explicou.

Os dois cientistas também propuseram uma teoria ainda mais estranha: talvez o Planeta 9 se formou onde ele está mesmo. Neste cenário, o Planeta 9 é uma grande bola de neve em vez de um gigante gasoso, que passou por uma versão muito mais lenta e fria do processo que formou a Terra.

“Nossa ideia é que conforme esse disco gasoso ia embora, ele desenvolvia um buraco, que crescia mais e mais conforme o disco se desfazia,” explicou Kenyon. “Conforme esse buraco crescia, material de fora dele varria partículas sólidas como um arado de neve, e depositava-as a uma grande distância.” Ao longo de centenas de milhões de anos, todo esse gelo arado se juntou, resultando em um quebra-queixo com duas vezes o tamanho da Terra.

Kenyon admite que a ideia é especulativa. Felizmente, há uma boa forma de testar essas hipóteses – observando o Planeta 9. “O bom desses dois cenários é que eles preveem coisas bem diferentes para o planeta,” disse. “Se ele for um gigante gasoso, será como uma versão fria de Netuno. Se for um objeto gelado que se formou a 500 AU, será uma versão maior de Plutão.”

O cenário final parece roteiro de filme B de ficção científica, e parece ser o mais improvável de todos. O Planeta 9 pode ser um invasor extraterrestre. “O Planeta 9 pode ser um exoplaneta no nosso próprio sistema solar,” diz Gongjie Li, astrônoma do Harvard’s Center for Astrophysics que recentemente publicou um artigo que explora essa possibilidade, entre outras.

Astrônomos acreditam que nossa estrela se formou como parte de um aglomerado denso que se dissipou após cerca de 100 milhões de anos. Nos primórdios do sistema solar, encontros com estrelas vizinhas seriam bem mais comuns. É possível – embora improvável – que as bordas do nosso sistema solar tenham trocado materiais, incluindo planetas, com outros sistemas.

“É uma possibilidade, mas acho que as coisas precisariam acontecer da forma certa,” diz Kenyon “É um cenário bastante afinado.”

Os modelos de Li também revelam uma pequena, mas significativa, chance de que uma estrela de passagem ter perturbado a órbita do Planeta 9 sem destrui-la. Isso explicaria o porquê do planeta estar em uma órbita tão incomum hoje em dia.

Tudo bem que tudo isso é só especulação que não vai dar em nada se nunca encontrarmos um objeto enorme muito longe daqui. Por outro lado, é sensacional que só a ideia da existência do Planeta 9 está fazendo cientistas considerarem todas essas coisas malucas que poderiam ter acontecido nos primórdios do nosso sistema solar. Mesmo que nossos telescópios não detectem nada, um sistema em que exoplanetas e bolas de neve maiores que a Terra são possíveis é um lugar incrível de viver.

Imagem do topo: Conceito artístico do Planeta 9. Crédito: Caltech/R. Hurt.