Os Emirados Árabes Unidos são um dos estados mais avançados no quesito vigilância do século 21.

Uma das economias mais fortes do Oriente Médio, os EAU investiu pesadamente por anos para estar na crista da tecnologia de vigilância e repressão. O governo gastou milhões de dólares comprando e desenvolvendo capacidades de invasão digital que foram utilizados para atacar vítimas proeminentes como o ativista dos direitos humanos nascido nos EUA Ahmed Mansoor que agora está em uma prisão secreta por criticar o regime.

E qual seria o próximo passo da máquina de vigilância dos EAU? Para um vendedor sagaz a resposta é fácil: vigilância com reconhecimento facial.

E a titã tecnológica americana IBM, junto com as gigantes chinesas Huawei e Hikvision estão vendendo sistemas de vigilância biométrica para a polícia e agências de espionagem dos Emirados Árabes, de acordo com uma extensa reportagem do BuzzFeed.

A ditadura dos EAU é famosa pela opressão de dissidentes, violação dos direitos humanos, abuso de trabalhadores e migrantes. O país tem banido trabalhadores internacionais defensores dos direitos humanos e lutado contra a liberdade de expressão. Fora que os Emirados Árabes também são um regime autoritário e extremamente rico do Golfo Pérsico, o que o torna um baita cliente para empresas dispostas a fazer negócios com ditaduras.

Nos Estados Unidos, a vigilância com reconhecimento facial é ponto de séria controvérsia. São Francisco se tornou a primeira cidade americana a banir completamente o uso dessa tecnologia por entidades governamentais, apesar da resistência da polícia local. Pesquisadores apontaram problemas com vieses e, mais fundamentalmente, como o reconhecimento facial pode expandir os poderes a um escopo sem precedentes.

Para os fãs de longa data da IBM, notícias de que a empresa está aparentemente envolvida com ditaduras pode soar familiar. Certamente trará à memória as críticas que a companhia recebeu com um suposto envolvimento com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

“As autoridades dos EAU lançaram um ataque contínuo à liberdade de expressão e associação desde 2011″, diz a Human Rights Watch. “Os residentes dos EAU que falaram sobre questões de direitos humanos correm sérios riscos de detenção arbitrária, prisão e tortura. Muitos estão cumprindo longas penas de prisão ou deixaram o país sob pressão”.

Nenhuma das empresas envolvidas respondeu aos pedidos de comentário do Gizmodo. A IBM disse ao BuzzFeed que a empresa tem “processos robustos em vigor para garantir que os potenciais compromissos dos clientes sejam consistentes com os nossos valores, bem como com as leis locais e dos EUA”.

As leis locais de que estamos falando, é claro, permitem a repressão brutal da dissidência.

Os valores que constam no site da IBM falam menos sobre ética do que sobre vitórias nos negócios.

Grandes empresas de tecnologia americanas experimentaram recentemente uma onda de ativismo vinda de seus trabalhadores e até mesmo de alguns executivos que falaram sobre os riscos inerentes à vigilância de reconhecimento facial.

O presidente da Microsoft, Brad Smith, pediu a regulamentação federal de reconhecimento facial no ano passado e disse que se recusou a vender a tecnologia a pelo menos uma agência de aplicação da lei dos EUA. Outras empresas, incluindo a Amazon, também pediram regulamentação.

Trabalhadores da Amazon protestaram quando souberam que a empresa vende softwares de vigilância com reconhecimento facial à polícia. Na semana passada, especialistas foram a uma audiência no Congresso americano para expor as armadilhas e perigos da tecnologia.

Enquanto o ruído em torno de vigilância de reconhecimento facial vai esquentando, a IBM se mantém silenciosa. Quando ela diz alguma coisa, está tentando desviar do problema.

A IBM alegou ao BuzzFeed que sua plataforma PowerAI Vision não poderia “reconhecer rostos individuais”, como a reportagem colocava, e apenas identificar “objetos” em vídeo. Porém, no próprio site da IBM é dito que a tecnologia pode ser utilizada não apenas para reconhecimento de rostos, mas também para análise de sentimentos. “Demonstrações do produto mostram rótulos em objetos e seres humanos”, escreveu o BuzzFeed.