“Oi! Eu estou vendo você, mas estou focado na leitura agora. Eu posso conversar durante o próximo intervalo!” Esta mensagem apareceu no stream de Ryan Blake Hall, mais conhecido como Storyteller Mars no Twitch.

Ele estava ocupado lendo A Book of Giants: Tales of Very Tall Men of Myth, Legend, History, and Science, livro de Henry Wysham Lanier (publicado em 1922). Sentado em frente a xícaras de chá e livros decorativamente abertos, ele até faz as vozes dos personagens -vozes ásperas e trovejantes para os gigantes, uma voz calma para a narração.



Alguns espectadores conversaram entre si durante a transmissão de Hall. Ele adora conversar com sua pequena, mas crescente comunidade (seus 242 seguidores, com cerca de 20 espectadores em cada stream), mas ele não interage com eles até o intervalo, quando o capítulo termina.

Captura de tela: Storyteller Mars no Twitch

“Tinha um casal adorável quando eu estava lendo Treasure Island em novembro”, disse Hall ao Gizmodo. “Eles faziam o ritual noturno de ir pra cama, apagar todas as luzes, me colocar [na TV] e me ouvir ler até pegarem no sono. Isso me faz sentir que o que estou fazendo vale 157% do meu tempo e esforço. Sabendo que mesmo que seja apenas uma pessoa que eu esteja ajudando a lidar melhor com a vida, a passar por todas as dificuldades que estiverem tendo, sinto que estou devolvendo ao mundo toda a gentileza e generosidade que recebi na minha vida”. 

O Twitch é conhecido principalmente como um site de streaming de videogame ao vivo, no qual os usuários fazem vários streams de jogos: transmissões ao estilo “Let’s Play” que mostram um jogo até o final, além de jogadores treinando profissionalmente para torneios e ligas e mais tarde exibindo a partida competitiva oficial.

Na maioria das vezes, os vídeos de maior audiência são rápidos, excitantes e, muitas vezes, exagerados. League of Legends, Fortnite e Player Unknown’s Battlegrounds estão liderando os números de audiência por esse motivo. (Usuários do Twitch assistiram “dezenas de milhões de horas de Fortnite no Twitch” em 2018, o Kotaku informou no ano passado. No mês passado, o jogo trouxe uma média de 140.740 telespectadores, com mais de 10.000 canais ao vivo transmitindo a todo momento, de acordo com o Twitch Metrics).

“… parece que estou devolvendo ao mundo toda a gentileza e generosidade que recebi em minha vida até agora”.

Mas há um lado mais tranquilo do Twitch, com muito menos estímulo e gritaria. Há alegria e diversão entre os barulhentos grupos de streamers, mas é um setor emergente da plataforma – “Twitch para introvertidos”, como Hall o chama- está oferecendo uma experiência diferente e mais leve.

Esses lugares mais tranquilos no Twitch evocam a uma forma mais lenta de entretenimento, não muito diferentes da slow TV da Noruega, que transmite longas viagens de trem ou uma maratona de tricô de 12 horas, e a tradicional transmissão de uma lareira queimando.

Agora propriedade da Amazon, o Twitch foi lançado em 2011 como uma alternativa à plataforma mais ampla de transmissão ao vivo Justin.tv. Atualmente, o Twitch conta com três milhões de streamers usando a plataforma para transmitir seus conteúdos todos os meses, a empresa  anunciou em dezembro de 2018.

Em média, são quase meio milhão de usuários transmitindo ao vivo no Twitch todos os dias, atingindo mais de 15 milhões de espectadores diariamente. De acordo com o Twitch, cada um desses usuários gasta cerca de 95 minutos, em média, assistindo a transmissões todos os dias.

A maioria das transmissões se concentra principalmente em videogames, mas também há streams de músicos, tricoteiros, contadores de histórias, maquiadores, cientistas e fotógrafos. Há pessoas costurando fantasias, montando coisas de LEGO e fazendo pinturas digitais de seus personagens favoritos.

Contas como essas estão no Twitch desde o princípio, mas a plataforma oficialmente reconheceu essas transmissões sob a categoria “Criativo” quando lançou o novo gênero em outubro de 2015. Ele foi lançado com uma maratona de uma semana do programa The Joy of Painting de Bob Ross, definindo um padrão para o que os canais da seção “Criativo” poderiam ser.

Captura de Tela: Bob Ross no Twitch

Quando Jennifer Chambers, de 58 anos, fala sobre seu canal, ela não está falando de si mesma. Chambers, conhecida no Twitch como JennyKnits, fala como nós. Estamos entrando em nosso quarto ano de streaming. Nós nos inscrevemos no programa de parceria. Nós ganhamos o status de parceiro meses depois de criar o canal, ela disse ao Gizmodo.

(Os parceiros no Twitch são um status de nível de elite, disponível para streamers mais produtivos, que lhes proporciona benefícios e ferramentas de criação de comunidades, como a capacidade de exibir anúncios e ter mais emotes personalizados).

Chambers começou a transmitir no Twitch em 2016, mas vem assistindo outras pessoas transmitirem World of Warcraft da Blizzard Entertainment há anos. Tricoteira a vida toda, ela dava aulas de tricô em lojas de artesanato.

Quando a seção criativa do Twitch foi inaugurada em 2015, ela percebeu que ensinar tricô no Twitch também era uma opção. “Sinceramente, eu não achava que nem 10 pessoas estariam interessadas”, disse Chambers. Agora, ela tem um grupo modesto de espectadores, cerca de 100, que assistem, tricotam e conversam com ela todos os dias. “Se tornou algo muito maior do que apenas ensinar tricô”, acrescentou.

Captura de tela: JennyKnits no Twitch

Não muito tempo depois que ela começou a transmitir, Chambers foi diagnosticada com câncer de mama. “Recebi o e-mail do Twitch dizendo: ‘Seu trabalho foi recompensado e você vai se tornar uma parceira'”, disse ela. “No dia seguinte, fiz uma cirurgia para instalar um cateter para iniciar a quimioterapia. [No dia seguinte] eu fiz quimioterapia pela primeira vez. Eu estava muito doente desde o momento em que recebi o meu botão no Twitch”.

“ Sinceramente, eu não achava que nem 10 pessoas estariam interessadas”.

Chambers transmitiu todas as dificuldades físicas e psicológicas do tratamento e agora ela está livre do câncer. “Foi uma jornada incrível”, ela disse. “Eu sinto que ao me abrir sobre o que estava acontecendo na minha vida real, eles se tornaram como minha família”.

É por essa razão que o streaming no Twitch, para Chambers, é menos parecido com um músico tocando em um estádio cheio de fãs e mais como um clube de tricô, naturalmente.

Um streamer como Tyler Blevins – mais conhecido como Ninja, o streamer de Fortnite de cabelo colorido, famoso por suas transmissões engraçadas e escandalosas – atrai espectadores por uma série de motivos, um deles é sua habilidade de fazer os fãs se sentirem conectados ele. O rapaz, inclusive, fechou um acordo com a Microsoft para fazer suas transmissões na Mixer, abandonando o Twitch – ele alcançou um milhão de inscritos na nova plataforma, apenas cinco dias após a mudança. 

Este é um fenômeno que o antropólogo digital Dr. Crystal Abidin chama de “interconexão percebida”, algo próximo das relações parassociais, mas atualizado para a era digital. Com cem mil espectadores sintonizados em cada um dos streams de Ninja, é impossível (e provavelmente inseguro) que ele considere ter um relacionamento pessoal com seus espectadores. Considere o caos de uma transmissão típica também – Fortnite é um jogo rápido, barulhento e colorido para começo de conversa.

Frequentemente, Ninja joga com outros streamers famosos, cada um transmitindo o show para seus respectivos canais, criando um ambiente que é visualmente e auditivamente estimulante.

Em vez de fazer conexões pessoais com cada um de seus espectadores, o que seria quase impossível, ele pode praticar a intimidade percebida, abrindo sua vida aos espectadores de formas calculadas.

Entre as partidas, Ninja fala diretamente com os espectadores, respondendo a perguntas, às vezes pessoais e individualmente, agradecendo aos espectadores que se inscrevem durante a transmissão. Ele não pode falar diretamente com cada um de seus estimados 23.000 assinantes (ainda mais quando estava no auge de sua popularidade, quando tinha cerca de 200.000 assinantes), mas o ato de falar com alguns espectadores, sendo que ele tem milhares a cada transmissão, faz eles sentirem que poderiam ser um deles.

Os canais criativos são geralmente menos visualmente avassaladores do que os frenéticos vídeos de jogos, removendo um elemento de distração para abrir caminho para a construção de uma comunidade mais pessoal.

Chambers considera muitos em sua comunidade como seus amigos, simplesmente pessoas com as quais ela tricota diariamente. (O canal de Chambers é muito menos popular que o de Ninja, com 3.760 seguidores comparado aos 14 milhões de Ninja. Ele costuma ter cerca de 40.000 espectadores, enquanto Chambers tem uma média de 60 a 80 espectadores. Mas Chambers não quer necessariamente atingir a fama de Ninja, uma comunidade tão grande pode parecer impessoal).

“Um grupo [de telespectadores] decidiu fazer esse pequeno projeto especial, que me deixou em lágrimas quando me mandaram”, disse Chambers. “Vários deles tricotaram laços de lã cor-de-rosa. Eles fizeram isso sem me dizer, e enviaram todos para uma pessoa que reuniu todas esses laços pendurados em fios. Todos eles anexaram bilhetes de encorajamento para mim. Eu fiquei em prantos”.

“Às vezes, o ritmo mais lento e a capacidade da emissora de voltar sua atenção mais rapidamente para a janela do bate-papo podem produzir uma qualidade mais conversacional”

Entre os milhões de streams transmitidos no Twitch, certamente há uma diversidade entre os streamers de videogame. Existem estrelas do Twitch, como Ninja, mas há muitos com comunidades menores e mais silenciosas. A percepção dominante do Twitch, no entanto, coloca os Ninjas na frente.

Um vislumbre do bate-papo dessas transmissões maiores – literalmente uma sala de bate-papo à direita de uma transmissão – muitas vezes revela o pior da comunidade de streaming. O bate-papo move-se rápido – muitas vezes rápido demais para realmente ser lido – e é preenchido com piadas e memes internos. Dependendo da moderação do bate-papo de um streamer, a toxicidade racista e sexista pode passar despercebida.

O cofundador do Twitch, Kevin Lin, disse à GamesIndustry.biz em 2017 que canais menores no Twitch estão criando comunidades de base que auto-policiam o comportamento tóxico, algo que tem o potencial de se espalhar pelos maiores canais e chats do Twitch. “Se você for a canais menores com centenas de participantes, em vez de dezenas de milhares, verá muito menos [comportamento tóxico]”, continuou Lin. Streamers com comunidades menores são capazes de interagir mais diretamente com os espectadores, permitindo que eles gerenciem o ambiente de uma transmissão de maneira mais eficaz.

“Às vezes, o ritmo mais lento e a capacidade do streamer voltar sua atenção mais prontamente para a janela do bate-papo podem produzir uma qualidade maior de conversação”, disse TL Taylor, professor de Estudos de Mídia Comparativa do MIT e autor de Watch Me Play: Twitch and the Rise of Game Living Streaming. “Ao contrário de assistir a uma grande partida de esport ao lado de dezenas de milhares de pessoas onde a experiência do público domina, os canais criativos geralmente possuem comunidades menores com histórias ricas e mais atenção à manutenção do grupo ao redor da transmissão”.

Captura de Tela: StarStryder noTwitch

Dra. Pamela L. Gay é uma astrônoma, apresentadora de podcast e cientista do Planetary Scientist Institute, que lê livros e pinta planetas no Twitch. A Dra. Gay usa uma técnica de pintura super fluida que emula como diferentes atmosferas se misturam “devido a diferenças na densidade [da tinta]”, ela explicou.

Quando a tinta é derramada e colocada sobre placas circulares, as cores se espalham umas nas outras para criar padrões e texturas. A astrônoma usa fogo para aplicar diferentes efeitos na superfície da pintura, dependendo do visual que ela escolheu para cada projeto específico, como se ela estivesse pintando planetas gigantes gasosos ou luas escuras e cheias de crateras. Cada um de seus planetas é projetado para parecer relativamente realista – isto é, planetas que são cientificamente possíveis – mas ela toma algumas liberdades com as cores, ela disse.

Quando não está pintando planetas ou lendo histórias científicas, a Dra. Gay está transmitindo um programa diário de notícias sobre o espaço, apropriadamente chamado Daily Space, através de seu trabalho diário com a Cosmo Quest e o Planetary Science Institute.

Quando o programa, que ajuda cientistas cidadãos a trabalhar em projetos da NASA, perdeu o financiamento Dra. Gay e sua equipe organizaram uma maratona de arrecadação de 40 horas no Twitch. “De repente, toda a minha equipe estava desempregada logo antes do Natal”, disse Gay. “Mas conseguimos levantar dinheiro suficiente para manter minha equipe pelo menos em meio período, e continuamos trazendo fundos para que as pessoas possam fazer ciência”.

“Estamos alavancando a plataforma Twitch para comunicar o que nós estamos fazendo para dizer: ‘Estamos aqui para fazer ciência com você, para explicar o que estamos fazendo e para você fazer parte disso. Você pode nos apoiar?’”

A camaradagem de uma atividade compartilhada é o que reúne as pessoas regularmente no Twitch. “A razão pela qual eu continuo fazendo isso é porque isso se tornou uma parte divertida da minha vida”, disse Chambers. “Eu mal posso esperar para passar o tempo com todo mundo”. A conversa flui dependendo do dia; às vezes, Chambers fala com seus telespectadores sobre seu jogo recente de World of Warcraft. Outras vezes, ela responde a perguntas sobre sua técnica de tricô. Em um stream recente, ela explicou aos espectadores como fazer uma coisa chamada troca de cor planejada, que usa fios variados para criar padrões.

“Eu mal posso esperar para passar o tempo com todo mundo”.

Um interesse em tricô e aprendizagem é o que atrai os espectadores, mas eles ficam por causa da comunidade. Afinal, tricotar não é algo tão empolgante assim de assistir, disse Chambers. Tricô envolve uma série de movimentos pequenos e repetitivos.

Uma peça de vestuário é unida com milhares de pontos. Projetos levam horas. “Tricô é como pescar”, disse Chambers. “É divertido para a pessoa que está fazendo, mas nem sempre é muito interessante assistir alguém fazendo isso”. O elemento interativo da coisa, como se você estivesse tricotando com um grupo de amigos, muda a dinâmica.

Às vezes, Chambers olha para o computador onde o bate-papo é exibido e, embora haja uma centena de pessoas no canal, o bate-papo está morto. “Eu falo: ‘Olá? Alguém ainda está aí? e eles ficam tipo ‘Sim, ainda estamos aqui. Estamos tricotando! Alguns deles geralmente começam a digitar novamente [após esses momentos], mas eu sei que eles estão apenas fazendo suas coisas enquanto estão comigo”.

“Esses canais oferecem uma espécie de prazer estético ligeiramente diferente dos canais de jogos tradicionais”.

“Pode haver algo não apenas atraente, mas reconfortante, em assistir a streams criativos”, disse Taylor, sociólogo do MIT. “Às vezes é o lento desdobramento de ver um trabalho imaginativo ser criado. O som de um canal também pode atraí-lo, com a alternância entre momentos de silêncio e depois ouvir o locutor descrever seu processo enquanto trabalham com as mãos. Esses canais oferecem uma espécie de prazer estético ligeiramente diferente dos canais de jogos tradicionais”.

Criar um ambiente no Twitch como este não é um esforço consciente de todos os streamers, mas Chambers, Hall e Gay expressaram o desejo de criar espaços tranquilos para onde os espectadores podem escapar de um mundo excessivamente estimulante.

Hall cria esse ambiente lendo livros eletrônicos gratuitos disponibilizados pelo Project Gutenberg, uma iniciativa online que é como uma biblioteca para livros que estão no domínio público. Hall começa e termina seus streams com pelo menos 15 minutos para conversar com sua comunidade. Ele está criando um espaço calmo, mas também está fazendo um esforço mais explícito para falar sobre saúde mental – um tópico que ele acha que não é discutido o bastante, no Twitch ou qualquer outro lugar.

“Eu tive essa ideia de começar este canal há mais de um ano, mas minha depressão e ansiedade me deixaram com muito medo”, disse Hall. “Isso me fez sentir como se fosse um esforço inútil. Eu me derrotei antes mesmo de começar”.

“Eu quero desesperadamente ajudar outras pessoas a não caírem na escuridão como eu caí”.

Assim que ele conseguiu ajuda, incluindo medicação e terapia, a ansiedade de começar um canal do Twitch não era mais um problema. “Eu apenas fiz o negócio e fiz sucesso quase que imediatamente”, acrescentou. “Eu quero desesperadamente ajudar outras pessoas a não caírem na escuridão como eu caí”.

Para muitos, esse tipo de apoio os afeta profundamente.

“Eu amo esse aspecto do Twitch, onde existem streamers do Twitch que se assumem através da positividade”, disse Gay. “Eles fornecem um lugar seguro para ser uma pessoa introvertida, para ser alguém com problemas que apenas quer consumir conteúdo e saber que não está sozinho, mesmo que não esteja participando do chat ativamente. As pessoas no Twitch realmente cuidam umas das outras”.

Nicole Carpenter é escritora e repórter em Massachusetts.