É possível uma pessoa comum ler todos os termos de uso espalhados por todos os serviços que usamos sem ficar louca? Alex Hern, do Guardian, fez esse teste e passou a ler todas as condições de uso dos serviços que fazem parte do seu dia. O resultado não foi lá muito bom.

Hern explicou o que fez:

“Para entender bem quantas coisas ignoramos ao aceitar essas condições, decidi passar uma semana da minha vida sem verificar a caixa “Eu li e concordo com os termos e condições” até que eu tivesse de fato lido eles. Eu faria isso de forma retroativa, me sentando para ler os termos de uso de serviços que estou cadastrado há anos.

O resultado final: coletei 146.000 palavras de juridiquês – o suficiente para encher três quartos de um livro como Moby Dick, só com explicações do que posso ou não fazer online – a partir de apenas 33 documentos de termos de uso. Cada documento me consumiu cerca de 15 minutos para ler, mas ainda assim eu passei oito horas em uma semana apenas sentado lendo página a página de uma prosa seca e impenetrável.”

O primeiro documento que ele leu foi o da Apple, com 21.586 palavras definindo como Hern deve usar seu iPhone. Sempre que uma atualização do iOS é liberada, a Apple avisar que termos de uso foram modificados – e, portanto, os usuários devem ler mais uma vez.

No entanto, algumas coisas bem antigas continuam perdidas em meio a tanto juridiquês. Por exemplo, os termos de uso do Google Maps – ou melhor, um link para os termos de serviço do Maps no site do Google: a Apple substituiu o serviço do Google por um próprio em 2012, mas parece que ainda não teve tempo de fazer essa mudança no documento. Ops.

O Google, por sua vez, parecia assustador, mas não era. Com “apenas” 5.500 palavras, os termos gerais de uso do Google são bem claros e fáceis de serem compreendidos, por mais que ainda exijam um tempo considerável na frente da tela até ler, entender e aceitar tudo aquilo. O Google deixa bem claro, por exemplo, que a responsabilidade por uploads é totalmente sua – e assim tira o seu da reta em relação a pirataria no YouTube, por exemplo. O importante, no entanto, é que qualquer um consegue entender o que aquilo tudo significa. Isso é ótimo!

O destaque positivo fica por conta do Simplenote, que tem apenas 140 palavras. Um serviço simples – armazenamento e sincronização de texto – com termos de uso simples. É quase um milagre! “Está claro que o Simplenote se preocupa com o que um usuário não-especialista vai ver na página dele, e se esforçou ao máximo para tornar o documento o mais claro e legível possível.” Em resumo, o Simplenote quer que você saiba que é o responsável por manter seu nome de usuário e senha seguros, assim como recomenda que ele não seja usado para informações sigilosas como contas de banco, dados de cartão de crédito e coisas assim.

Mas, se o Simplenote era curto, os outros estavam longe disso. Além dos já citados Google e Apple, Hern também leu os termos do Facebook (3.300 palavras), Dropbox (1.500), Sony PlayStation 4 (20.000 palavras) – isso inclui a licença de software, uso do software, PSN etc. – MacBook (20.000 palavras) – isso inclui OS X e iTunes – entre outros.

Longos e com passagens assustadoras (a Sony diz que pode fazer seu console parar de funcionar caso você não atualize o sistema operacional para a versão mais recente), são coisas que nem todo mundo entende, e menos gente ainda tem tempo para ler.

Em 2008, duas pesquisadoras da Universidade Carnegie Mellon fizeram um teste semelhante, contando o número médio de palavras nos termos de serviço. Elas descobriram que cada pessoa teria que dedicar 25 dias do ano apenas para ler esses termos, o que resultaria em uma perda de US$ 365 bilhões no total.

Então é praticamente impossível um ser humano normal ler todos esses termos de uso antes de começar a de fato a usar um serviço. Não chega a ser novidade, mas é preocupante pensar como não temos nenhum poder de negociar isso.

Mesmo lendo esses documentos imensos e cheios de expressões complicadas para uma pessoa comum entender, o máximo que poderíamos fazer caso não concordássemos com algo – e tenho certeza que se tirar um dia para ler essas coisas eu vou discordar de muita coisa – é simplesmente não usar tal serviço. Mas já pensou como seria uma vida sem poder usar Gmail? Ou sem ter acesso a serviço de mapas em geral por simplesmente não concordar com o que nenhum deles propõe? Não é fácil.

Voltando ao que escrevi há alguns anos, quando o Instagram mudou seus termos de uso para poder vender usar fotos de usuários para fins publicitários, tudo depende do quanto um usuário confia em um serviço. Se um dia pararmos de confiar em Facebook, Google, Apple ou qualquer outra empresa e começarmos a ler e discordar desses termos, eles certamente vão se mexer para tentar recuperar os usuários. Só que eu realmente não acho que isso vá acontecer tão cedo. [The Guardian]