Humanos não gostam de morrer, não gostam da noção da morte e, em sua maioria, têm como uma prioridade em suas vidas evitar a morte. Muitas pessoas são interessadas em nos fazer viver o máximo possível, então foi meio chato quando, no ano passado, um time de pesquisadores disse que o máximo da duração da vida humana está limitada em torno dos 115 anos de idade. Algumas pessoas podem até viver mais, mas seriam exceção.

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Quando os cientistas por trás dessa ideia publicaram sua pesquisa na Nature, em outubro passado, ela chamou muita atenção da imprensa. Também levantou uma discussão e acusações de que o estudo tinha buracos, além de dúvidas sobre a quantidade de dados. Hoje, a Nature está publicando cinco refutações de pesquisadores que têm problemas com o estudo, que acham que uma pesquisa mais profunda em cima dos dados é necessária e que as conclusões dos autores podem estar incorretas.

Um pesquisador que revisou a primeira publicação na Nature acha que a controvérsia mira o foco errado. “Os autores das refutações ficam criticando coisas pequenas sobre como lidar com a matemática de pequenos números em uma idade muito avançada”, S. Jay Olshansky, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Illinois, em Chicago, escreveu em um email para o Gizmodo. Um dos pontos que eles esqueceram de notar, ele acha, foi “se eles parassem de olhar tanto para as fórmulas matemáticas, perceberiam que… a morte sempre acontece e ela é tão consistente nos humanos pois existe um limite para a duração da vida”.

Basicamente, no ano passado, pesquisadores da Faculdade de Medicina Albert Einstein, em Nova York, reuniram as idades das pessoas mais velhas a morrerem em um determinado ano em Estados Unidos, França, Japão e Reino Unido, com base em informações do International Database on Longevity. Quando observaram todos os dados, pareceu para eles que o máximo da idade anunciada de morte cresceu até os anos 1990 e então se estabilizou desde então, na média de 115 anos. Eles fizeram outras análises, procurando da segunda à quinquagésima idade mais avançada de morte, e acrescentaram dados de outras fontes. Os autores da pesquisa concluíram que podemos estar perto do limite da longevidade humana.

O que se seguiu, obviamente, foi ampla cobertura da imprensa. O principal investigador do estudo, Jan Vijg, me disse que ele não queria que parecesse como se houvesse um limite absoluto para a longevidade humana, mas que nós alcançamos o limite dos avanços no seu campo, a genética do envelhecimento, que a nossa medicina pode eventualmente ultrapassar. “Eu não posso descartar que esse teto pode ser ultrapassado”, ele disse ao Gizmodo. “Talvez possamos criar novas drogas que funcionem contra as doenças. Trabalhos contra o processo de envelhecimento merecem muito mais publicidade.”

Outros não viram dessa forma. Toda a imprensa popular “permite às pessoas dizerem que o ‘Tio João’ (cidadão médio) não pode viver mais do que 115 anos. Essa foi a impressão que todos tiveram. Existe um limite para o quanto você pode dizer que não quis dar essa impressão de que existe um limite claro de idade”, disse ao Gizmodo um dos refutadores, Nick Brown, da University Medical Center Groningen, da Holanda. “Pareceu para mim que as pessoas não estavam tentando muito corrigir essa impressão.”

“Eu não posso descartar que esse teto pode ser ultrapassado.”

Então, o time de Brown e outros quatro times reviram a publicação da Nature e descobriram vários problemas. A análise de Brown descobriu que a existência do limite de 115 anos depende da idade e do ano de morte da pessoa mais velha de todas, a francesa Jeanne Louise Calment, que viveu até os 122 anos. Outros mencionaram que o aumento do número de pessoas que vivem mais de 100 anos vai tornar mais provável pessoas viverem além dos 115, ou até dos 122 anos. Outros também indicaram problemas com as estatísticas e o método usado para analisar uma amostragem tão pequena, ou defenderam que não temos dados o bastante para ter certeza. Um trabalho indicou que quebrar os dados em anos individuais que as pessoas morreram é arbitrário, já que anos são uma divisão arbitrária de tempo. Talvez a presença de um patamar de 25 anos seja em si uma flutuação estatística.

Além disso tudo, uma investigação da jornalista holandesa Hester van Santen achou que a aceitação do artigo original na Nature era em si meio esquisita. Ele foi rejeitado, mas os editores depois mudaram de ideia e o aceitaram com revisões. O artigo, van Santen diz, entrou em uma batalha entre os demógrafos sobre a mesma questão, se existe um limite para a duração da vida humana. Ela comentou que, dada a carreira profissional de Olshansky, ele pode não ter sido capaz de fazer uma avaliação independente como alguém de algum dos lados da discussão. E ela entrevistou demógrafos que acharam que a análise foi feita incorretamente por pessoas que não estavam familiarizadas com o campo, que então receberam um treino para melhorar a pesquisa com uma análise falha e um título atraente.

Nada disso significa que as conclusões da equipe de Vijg estavam erradas, apenas que as pessoas não concordaram com seus métodos. Um dos autores de uma das réplicas, Jim Vaupel, diretor do instituto alemão Max Planck Institut für Demografische Forschung, destruiu Vijg no artigo de van Santen (ele disse que “eles simplesmente enfiam os dados no computador, como se estivessem empurrando comida em um vaca.”). Ele está do outro lado do debate demográfico de Olshansky. Mas apesar de suas críticas, Vaupel colocou seu nome em um artigo que analisou os dados da duração da vida de centenários na Suécia e Dinamarca e chegou exatamente às mesmas conclusões. “Também parece que o limite máximo, medido como a idade da pessoa mais velha a morrer, não está crescendo atualmente”, ele escreveu em um artigo publicado no mês passado, no Journal of Internal Medicine. Ele recusou conversar com o Gizmodo.

Então é o seguinte: cientistas costumam discutir sobre a melhor forma de fazer ciência. Mas você vai morrer de qualquer jeito. Além disso, a duração média de vida de um humano é bem menor do que 100 anos, e esses 115 anos são exceções estatísticas, olhando para a população geral. É difícil conseguir qualquer informação sobre a humanidade como um todo ao olhar para essas amostras extremas. E o time de Vijg não deu nenhum motivo para o que causa um limite para a idade. É só um jogo de números.

Com tudo isso em mente, acho que devemos apenas encerrar com o que a cobertura de outubro do ano passado provavelmente deixou passar. Existem problemas com a revisão e também muitas formas de observar dados. Mas, por outro lado, embora você não vá, estatisticamente, ser uma das pessoas mais velhas do mundo, as pessoas realmente querem descobrir quais podem ser os limites para as pessoas mais velhas. E, na opinião de Vijg, “o que é realmente importante é que precisamos colocar mais dinheiro em remédios e intervenções que realmente funcionem contra o envelhecimento, e não apenas contra doenças individuais”.

Com isso, provavelmente podemos concordar.

[Nature, 1,2,3,4,5]

Imagem do topo: AP