O Luna é a próxima incursão da Amazon no mundo dos jogos na nuvem. Teve gente que provavelmente revirou os olhos com o anúncio e pensou: “Mas a Amazon quer se meter em tudo?” Especialmente porque, quando você faz uma análise e vê o que o serviço oferecerá no lançamento, não há nada de surpreendente nele. Dá para dizer que é ainda menos do que o Stadia quando ele foi lançado, há quase um ano, e olha que não houve grandes progressos desde então. Existem grandes problemas com os jogos na nuvem, e o Luna até agora não mostrou como vai resolver nenhum deles.

Jogos exclusivos são o problema mais imediato com o qual a Amazon parece estar tendo dificuldades. “É uma questão real se a Amazon vai ou não consegui-los”, disse Joost van Dreunen, cofundador e ex-CEO da Superdata, professor da NYU Stern e autor da newsletter SuperJoost Playlist.

Isso porque a única coisa que o Luna atualmente tem de vantagem em relação ao Stadia é sua parceria com a Ubisoft. A Ubisoft terá um canal próprio de jogos no Luna no lançamento, em que os futuros usuários encontrarão Assassin’s Creed: Valhalla e Far Cry 6 lançados no mesmo dia em que chegarem a outras plataformas. Esses jogos não serão exclusivos do Luna, no entanto. Neste momento, a Amazon não tem grandes títulos exclusivos.

Em comparação, o Google teve exclusivos em bons momentos e assinou acordos com desenvolvedores para trazer seus novos jogos para o Stadia no próximo ano. E quando o Stadia ainda estava em fase de testes, Assassin’s Creed: Odyssey era o jogo disponível para os beta testers. Assassin’s Creed: Valhalla também estará no Stadia no lançamento.

Claro, o Stadia não tem um canal dedicado da Ubisoft como o Luna, mas você ainda pode jogar Assassin’s Creed e outros jogos da Ubisoft em quase todas as plataformas, até mesmo no GeForce Now.

“O que vimos [com o Stadia] é que o streaming será [grande]. Queremos jogos que sejam fáceis de acessar e que possam ser jogados por todos ”, disse o CEO da Ubisoft, Yves Guillemot, em uma entrevista de junho de 2019 para a VentureBeat.

Quando você leva tudo isso em consideração, a Ubisoft era provavelmente uma empresa fácil para a Amazon abordar porque era quem tinha mais chance de dizer sim. A Ubisoft tem seu próprio canal no Luna, mas os desenvolvedores de jogos estão entusiasmados com as ferramentas que podem usar para fazer jogos? Não agora, e vai saber se ou quando isso acontecerá.

A Amazon possui o Lumberyard, uma engine que se integra ao Amazon Web Services, então é possível que eles consigam um ou dois jogos exclusivos pequenos para começar, como o Stadia fez com o Gylt. Mas não parece que a Amazon gastou nenhum de seus bilhões em comprar exclusivos. A empresa poderia ter feito um barulho maior com seu anúncio se tivesse um lançamento exclusivo e chamativo com Luna.

Esse pode ter sido o plano original, mas seu primeiro lançamento de um jogo importante, Crucible, voltou a um beta fechado após ser liberado. Isso não é normal no mundo dos videogames, e o desenvolvedor tomou a decisão depois de o jogo ter recebido um caminhão de feedbacks negativos.

Os títulos não são um dos pontos fortes da Amazon, até menos do que do Stadia e da Apple. O que a Amazon fez bem foi criar plataformas e dispositivos para distribuição de conteúdo. A Amazon tem o Kindle. The Marvelous Mrs. Maisel, um programa vencedor do Emmy, é um exclusivo do Prime Video. Mas com videogame a história é diferente.

Um histórico da Amazon com games

A Amazon meio que tentou isso antes e falhou. Em 2009, ela lançou uma loja de jogos digitais composta em grande parte de jogos casuais, mas acabou incluindo títulos de grandes editoras e desenvolvedores.

No entanto, nesse ponto, você já podia comprar jogos nas lojas digitais de PlayStation e Xbox. Steam também. Não havia necessidade de comprar jogos da Amazon, a menos que fosse um jogo casual, e mesmo assim o Google Play e a App Store da Apple já existiam.

Era mais fácil comprar um jogo diretamente da fonte em vez de comprar um código de jogo da Amazon que você precisava inserir em outro lugar. Você poderia comprar uma cópia física, mas a indústria já estava se deixando isso de lado.

As ruínas da antiga loja ainda permanecem, onde cópias digitais de jogos podem ser compradas nas lojas dos desenvolvedores e editores hospedadas no marketplace da Amazon. Mas o mercado de jogos da empresa é principalmente de gift cards carregados com as moedas de games.

Assim como a loja de jogos da Amazon em 2009, o Luna também parece ter sido pensado muito depois. “Games, levando em consideração todo o universo de coisas que a Amazon faz, é uma iniciativa estranha, que não necessariamente combina com o resto dos produtos”, diz van Dreunen.

Um de seus grandes apelos parece ser a maneira como o Amazon Web Services (AWS) pode ser aproveitado para integrar alguns recursos com o Twitch, que também é da gigante da tecnologia. Mas, novamente, isso não é criar conteúdo original. Isso é apenas distribuição, e é mais complicado com jogos do fazer alguns acordos com Hollywood para colocar programas em seu serviço de streaming.

“Construir um ecossistema com provedores de conteúdo terceirizados, construir um público que gosta das operações ao vivo do seu jogo, que faz login e se envolve com o seu conteúdo, é um esforço muito diferente”, explica van Dreunen.

De acordo com van Dreunen, a menos que a Amazon esteja disposta a gastar de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões nos próximos dois anos para adquirir conteúdo exclusivo, o Luna pode levar vários anos para pegar. Talvez seja ainda mais lento do que o Stadia.

“Seja Apple, Facebook, Google ou Amazon, as grandes empresas de tecnologia têm muita dificuldade em entender que o conteúdo é central. Eles não dão a mínima para os criadores de conteúdo da mesma forma que, digamos, a Microsoft e a Sony têm feito com seus consoles”, diz van Dreunen. “Portanto, essa diferença na capacidade de valorizar o conteúdo mostra que a […] Amazon tem muito pela frente. Ela não tem o conteúdo, nem sensibilidade para criar o conteúdo.”

E ele está certo. O Luna não tem nada especial a oferecer que ainda não seja oferecido pelo Stadia ou por outra plataforma no momento. Isso significa que a Amazon vai desistir como desistiu de sua loja digital de videogames? Isso significa que a Amazon não se tornará um player importante na indústria de jogos? Victor Kao, sócio e analista sênior de tecnologia da RSM US LLP, não pensa assim.

O futuro dos games depende do futuro da internet

“Sabe o que é assustador na Amazon? Se houver algo em que estejam interessados, eles vão investir dinheiro nisso. Se você olhar para o setor de mercearia e varejo, eles simplesmente investiram dinheiro nisso.”

Os jogos na nuvem não vão desaparecer. Muitas grandes empresas investiram pesadamente nisso, e é realmente a próxima etapa na evolução dos jogos. Como Kao aponta, cartuchos viraram CDs, CDs viraram downloads digitais e agora estamos no processo de mudar dos downloads digitais para jogos que são armazenados e jogados inteiramente na nuvem.

“Todos os grandes players estão começando a se envolver em jogos na nuvem. Você tem a Microsoft. Você tem o Google. Você tem a Amazon. Você tem a Nvidia”, disse Kao. “A Amazon é certamente uma grande ameaça ao ambiente geral de jogos. Ela normalmente não sai de investimentos como esses.”

Mas, em última análise, o sucesso do Luna não será determinado pelo funcionamento do seu controle, apoio de plataformas, ou mesmo número de jogos.

Até certo ponto, o número de jogos importa apenas se houver muitos títulos principais e diversos, mas os jogos na nuvem como foram imaginados só podem decolar se tivermos a infraestrutura para isso. E se o tempo gasto lutando pela neutralidade da rede e expandindo conexões confiáveis e acessíveis para centros urbanos e rurais não for o suficiente, vai demorar muito até que tenhamos a infraestrutura para que os jogos na nuvem se tornem uma plataforma importante.

“São os primeiros passos agora, mas acho que isso vai ficar maior quando você pensar em 5G. Quando você pensar em conexões de fibra Gigabit na casa de todos. Tudo isso eventualmente vai chegar”, disse Kao.

E, quando chegar, poderá ter latências equivalentes ou mais rápidas do que jogar em uma máquina local. Para quem não quer gastar centenas de dólares em um console, ou mesmo milhares em um PC, os jogos na nuvem são o caminho, especialmente porque mais jogos, grandes e independentes, podem encontrar seu espaço nessas plataformas. Mas até que legisladores e provedores se reúnam e forneçam acesso equitativo à Internet em todo o país, os jogos na nuvem permanecerão fora do alcance de grande parte da população. A Microsoft afirma que mais de 157 milhões de americanos não usam banda larga.

Portanto, embora os jogos na nuvem permaneçam fora do alcance de muitos, a Amazon precisa trazer algo novo para fazer o Luna parecer emocionante. O Stadia tem ferramentas de desenvolvimento e títulos exclusivos, a Microsoft tem o Xbox Game Pass, o GeForce Now da Nvidia funciona no ChromeOS. O Luna, bem, ele vai ter que tentar copiar todo o resto.