Normalmente, associamos vulcões a calor extremo. Mas novos resultados científicos mostram que o maior asteroide do Sistema Solar, o Ceres, é coberto por vulcões que, ao longo de sua história, cuspiram gelo.

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Cientistas analisaram imagens do Ceres, uma rocha de 946 quilômetros de largura e maior asteroide do cinturão de asteroides, tiradas pela espaçonave Dawn, da NASA. Eles descobriram que o Ceres é coberto por vulcões de gelo, além de estimarem que apareça um vulcão novo a cada 50 milhões de anos na história da rocha. A pesquisa mostra que o Ceres é um importante corpo para o estudo de vulcões de gelo, já que outros corpos celestiais no Sistema Solar externo, como as luas Europa e Titã, além de Plutão, também podem ter vulcões de gelo.

“O Ceres é o único mundo criovulcânico plausível a ser orbitado por uma espaçonave até agora”, escreveu uma equipe de cientistas norte-americanos no artigo, publicado nesta segunda-feira (17), na Nature Astronomy.

Criovulcões são características planetárias que cospem gelo (ou material gelado) das profundezas de um corpo celestial — imagine os vulcões da Terra, mas substitua a lava por gelo. A sonda Dawn, da NASA, que orbita o Ceres, identificou pela primeira vez uma grande montanha na superfície do asteroide chamada Ahuna Mons em 2015, e cientistas interpretaram a característica como um vulcão de gelo.

Os pesquisadores por trás do novo estudo analisaram imagens tiradas pela Framing Camera, da Dawn, e procuraram por características em forma de cúpula com mais de dez quilômetros de diâmetro, uma assinatura de atividade criogênica. Eles conseguiram obter medições confiáveis ​​de 22 deles e até encontraram um do mesmo tamanho do Ahuna Mons (maior montanha do planeta anão Ceres), embora mais largo e menor. Sua modelagem computacional, baseada em dados anteriores, demonstrou que essas cúpulas tinham em torno de 50% de gelo em volume.

A análise dos pesquisadores, baseada no conteúdo de gelo e no tamanho desses domos, revelou que eles tinham centenas de milhões de anos de idade e que uma nova cúpula se forma no Ceres a cada 50 milhões de anos, em média. Eles estimaram que o asteroide cospe cerca de dez mil m³ de gelo por ano — o que poderia preencher um e meio dos dirigíveis da Goodyear. Eles concluem que esses vulcões de gelo não são tão importantes para a estrutura de Ceres quanto os vulcões de lava são para a modelagem da Terra. Mas eles ainda são importantes — como já apontamos no passado, eles podem estar contribuindo para o apagamento das crateras do Ceres.

Um estudo como esse tem uma série de limitações, como apontam os cientistas. Eles não podem garantir que cada domo medido seja realmente um vulcão de gelo — e provavelmente existem formações criovulcânicas sem formato de domo, como o afloramento vulcânico após impactos. Eles também não podem identificar se a quantidade de atividade aumentou ou diminuiu ao longo do tempo.

Ainda assim, escrevem eles, outros lugares no Sistema Solar, como a lua Europa, de Júpiter, têm vulcões de gelo que poderia ejetar muito mais gelo e servir um papel mais importante.

A missão Dawn está chegando ao fim, mas, desde seu lançamento em 2007, nos ensinou muito sobre o cinturão de asteroides e jogou luz sobre muito dos mistérios do Ceres. Talvez existam ainda mais segredos sobre os vulcões de gelo desse asteroide gigante se escondendo debaixo dos dados coletados pela sonda.

[Nature Astronomy]

Imagem do topo: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA