O organismo mais pesado da Terra não é uma baleia ou um elefante. É uma árvore — ou melhor, um sistema de mais de 40 mil árvores clonais, todas conectadas por suas raízes. Acredita-se que o Pando, um organismo de 5,8 milhões de quilos no centro de Utah, nos Estados Unidos, tenha surgido no fim da última era glacial.

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Porém, depois de milhares de anos de prosperidade, o Pando vem enfrentando problemas. Um estudo publicado na PLOS One na quarta-feira (17) traz o primeiro exame abrangente de todos os 42,8 hectares de floresta clonal e conclui que o Pando não está crescendo. Na verdade, a floresta não tem conseguido se reproduzir há pelo menos 30 a 40 anos.

“As pessoas estão no centro desse insucesso”, disse o coautor Paul Rogers, diretor da Western Aspen Alliance, da Universidade do Estado do Utah, autor de um estudo parecido no ano passado com uma porção menor do Pando.

As pessoas permitiram que a população local de cervos e gado prosperasse, disse Rogers. O pastoreio voraz resultou em menos mudas e em um monte de árvores velhas e moribundas. Durante sua análise, a equipe não conseguiu encontrar nenhuma árvore do tamanho de uma muda que não tivesse os topos consumidos.

Superpredadores como ursos, lobos e onças-pardas costumavam manter a população de veado-mula sob controle, mas eles mal existem hoje em dia por causa da caça. Além disso, existem fazendeiros que não impedem seu gado de pastar nas árvores. Funcionários estaduais e federais são quem pode ajudar a remediar esse problema, então Rogers culpa os humanos, e não os animais.

“Os humanos decidem quantos animais existem e como eles se movimentam”, Rogers contou ao Earther. “Por haver pessoas lá, recriando e tendo casas na área e nas estradas na área, não é permitido caçar. Por causa da presença humana, os veados estão mais seguros, o que causa uma superabundância localizada dos animais.”

Isso, meu amigo, é o incrível Pando de Utah. Foto: Cortesia de Lance Oditt (Studio 47.60 North)

Uma pesquisa foi realizada em junho de 2016 e de 2017, em que os pesquisadores mediram o tamanho, a idade e a saúde das árvores em todo o bosque. E eles observaram a quantidade de esterco: “Nós contamos o cocô para ver que animais existem lá e quais são as taxas de visitação deles”, disse Rogers.

Os pesquisadores também observaram duas áreas da floresta onde as árvores eram protegidas por cercas e encontraram que as cercas nem sempre foram eficazes em manter para fora a vida selvagem.

O que o sistema de árvores precisa é de tempo livre de pastadores para se regenerar. O Pando não é como as outras árvores, explicou Roger.

“Elas (árvores do Pando) não vivem tanto quanto (as outras árvores) e elas crescem novamente”, Roger disse ao Earther. “Elas enviam um sinal hormonal sempre que uma deles morre para se espalhar a partir das raízes, não das sementes. Esse é o seu mecanismo de sobrevivência. Quando as árvores estão morrendo e você não vê nenhum novo crescimento, isso é um sinal de alerta.”

Sequência de fotos aéreas ao longo de 72 anos mostra a cobertura de floresta dentro do Pando em Utah. O amarelo contorna a fronteira do Pando. Imagem: Cortesia do USDA Aerial Photography Field Office, Salt Lake City, Utah

A falta de recrescimento do Pando se tornou ainda mais evidente quando as fotos aéreas analisadas dos autores datam de 1939. Aqui, outros impactos humanos se tornaram óbvios, incluindo o desmatamento para a criação de casas ou acampamentos. “Nada cresceu de novo (nessas áreas) por causa da combinação de (pessoas) cortando e depois graças à presença de veados e gado”, disse Rogers.

Embora esse estudo conte uma história importante, há mais trabalho a ser feito. Existem questões abertas sobre como a mudança climática pode impactar ainda mais o Pando. O estudo também não entra em outros ecossistemas clonais, como os da Europa. Mais pesquisas também podem ser feitas usando câmeras ou colares com GPS para rastrear animais que interagem com o Pando.

Mas, por ora, o objetivo é soar o alarme para esse organismo único. O que o Pando precisa é de uma ação coordenada para protegê-lo, nos níveis estadual e federal. Ainda existe muito a se aprender sobre essa floresta, mas as árvores precisam estar vivas para que essas descobertas sejam feitas.

Imagem do topo: Cortesia de Lance Oditt (Studio 47.60 North)