Pode-se dizer que a Microsoft escolheu esta semana para tirar o escorpião do bolso. Na segunda-feira (21), a empresa anunciou um contrato de US$ 7,5 bilhões para adquirir a ZeniMax Media, que controla a Bethesda e outros estúdios de jogos de videogame. Agora, a companhia confirmou outro acordo que também pode ter grande impacto ao longo dos próximos anos: uma licença exclusiva para o modelo de linguagem de inteligência artificial GPT-3, da OpenAI.

Há anos a OpenAI tem ganhado destaque no cenário de tecnologia, principalmente pelo fato de Elon Musk ter sido um dos primeiros investidores. Mais recentemente, os modelos de linguagem da OpenAI têm chamado a atenção por conta própria, e outros grandes investidores surgiram no caminho. A própria Microsoft injetou US$ 1 bilhão na empresa no ano passado.



Esse relacionamento ficou ainda mais estreito com o anúncio desta quarta-feira (23) – superando a concorrência (e aqui leia-se a competição da Amazon) -, embora valores da negociação não tenham sido revelados. Os primeiros produtos a serem impactados pelo uso da IA da OpenAI devem ser os serviços em nuvem da Microsoft, no caso aqueles que utilizam a plataforma Azure.

E o que a GPT-3 tem diferente? Apesar de não ser a primeira inteligência artificial do mundo, a tecnologia da OpenAI tem sido considerada um modelo de linguagem bastante convincente, capaz de superar qualquer coisa que vimos até então quando se trata de imitar a fala humana e receber instruções diretas.

No tuíte abaixo, o desenvolvedor Sharif Shameem exemplifica o poder da inteligência artificial da OpenAI. Primeiro, ele descreve o layout para uma página da internet. Na sequência, a GPT-3 gera os códigos da solicitação automaticamente, com resultados quase perfeitos.

Kevin Scott, vice-presidente executivo e diretor de tecnologia da Microsoft, escreveu em um comunicado que está animado em alavancar as “inovações técnicas da GPT-3 para desenvolver e fornecer soluções de IA avançadas para nossos clientes, bem como criar novas soluções que aproveitem o incrível poder de uma avançada geração de linguagem natural”.

Scott foi vago sobre quais “soluções” a empresa tem em mente, mas enfatizou o valor que o GPT-3 terá para a Microsoft. De acordo com o executivo, a companhia usará os recursos do modelo “em nossos produtos, serviços e experiências para beneficiar nossos clientes”, e que o trabalho da OpenAI oferece benefícios em “criatividade humana e engenhosidade em áreas como escrita e composição, descrevendo e resumindo grandes quantidades de dados (incluindo código), convertendo a linguagem natural para outra linguagem”.

O anúncio não é totalmente claro sobre o que a licença da OpenAI cobre. O Gizmodo pediu mais detalhes à Microsoft e um porta-voz nos disse que “uma licença exclusiva dá à Microsoft acesso ao código por trás do modelo GPT-3, que inclui um conjunto de avanços técnicos, para que possam integrar esses recursos de forma rápida produtos e serviços da Microsoft, entregando, assim, novas e poderosas soluções baseadas em IA para seus clientes”.

Scott escreveu que os desenvolvedores continuarão a ter acesso à API fechada da OpenAI, que será executada exclusivamente no serviço de nuvem Azure da Microsoft. Ele citou especificamente “pesquisadores, empresários e companhias” como exemplos de grupos que ainda poderão usar o modelo.

Em comunicado, a OpenAI também deixou claro que “o acordo não tem impacto sobre o acesso contínuo ao modelo GPT-3 por meio da API”. Entramos em contato com a Microsoft para obter mais detalhes sobre quais áreas serão de uso 100% exclusivo da empresa, mas ainda não recebemos uma resposta.

E quais aplicações seriam beneficiadas? Podemos esperar que a Microsoft se concentre em soluções corporativas que nunca serão relevantes para o consumidor final. No entanto, a GPT-3 pode ser usada para geração de conteúdo, atendimento automatizado ao cliente, chatbots, design de sites simples, serviços de tradução, otimização de assistente de voz e realização de entrevistas de emprego. A inteligência artificial da OpenAI pode até escrever artigos inteiros, como este que você está lendo agora mesmo.

Por conta do número elevado de possibilidades, o uso dessa IA causou muita controvérsia sobre um potencial risco de abuso do sistema, bem como preconceitos inerentes que provavelmente podem ser encontrados em todos os produtos de aprendizado de máquina.

Quando a OpenAI mostrou pela primeira vez a GPT-2, modelo anterior da versão atual, a própria startup disse se preocupar de que seria perigoso demais lançar a inteligência artificial na íntegra para o público. Para ter uma perspectiva de quão longe o modelo chegou, basta saber que a GPT-2 tinha 1,5 bilhão de parâmetros; a GPT-3, por sua vez, está trabalhando com 175 bilhões de parâmetros. Isso só mostra que, ao mesmo tempo em que a versão mais recente é uma evolução bastante significativa, também apresenta um risco muito maior para aqueles que estão preocupados com a possibilidade de transformá-la em uma máquina de desinformação.

A GPT-3 ainda tem um longo caminho a percorrer antes de poder se comunicar com segurança e enganar os humanos sobre suas origens sintéticas – no melhor (ou pior, né?) estilo Skynet de O Exterminador do Futuro. Mas qualquer um que tenha dado uma olhada nos fóruns que falam da teoria da conspiração Qanon, sabe que a desinformação online não precisa conter clareza ou coerência para ter um impacto massivo.