Um incêndio destruiu o Museu Nacional na noite deste domingo (2), queimando parte imensurável da história brasileira. O fogo foi controlado na madrugada desta segunda-feira (3), e desde o início da manhã, os bombeiros trabalham no rescaldo das chamas.

O Museu Nacional é a instituição científica mais antiga do país e completou 200 anos em junho. O espaço continha um acervo de mais de 20 milhões de itens catalogados.

Entre os destaques do acervo estavam o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas; o maior meteorito já achado no país; coleções de Paleontologia que incluem o Maxakalisaurus topai, dinossauro proveniente de Minas Gerais e a coleção egípcia, que começou a ser adquirida pelo imperador Dom Pedro I.

De acordo com uma reportagem do G1, os bombeiros afirmaram que praticamente tudo foi destruído. As equipes chegaram ao local por volta das 19h30 de domingo e conseguiram recuperar itens da parte botânica e alguns documentos, mas o restante foi consumido pelo fogo. Ou seja, a maior parte do acervo aparentemente foi destruída por completo. O Brasil perdeu registros históricos, pesquisa, obras de arte, múmias e fósseis.

Não houve feridos. O fogo começou pouco depois do fechamento para os visitantes. Quatro vigilantes estavam no local, que conseguiram sair a tempo. A Polícia Civil abriu inquérito e repassará o caso para que seja conduzido pela Delegacia de Repressão a Crimes de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, da Polícia Federal, que irá apurar se o incêndio foi criminoso ou não.

A tragédia parecia anunciada. Desde o histórico do museu até o momento do combate às chamas, o País mostrou descaso e incompetência.

Cortes no orçamento da ciência

A ciência definitivamente não é prioridade para o governo brasileiro. Notícias sobre possíveis cortes no orçamento do CNPq e do Capes, que fomentam a pesquisa científica, já aparecem desde o ano passado. A Folha publicou no ano passado, todos os institutos de pesquisa que podem fechar. E esta é só a ponta do iceberg.

Em uma reportagem de maio, a Folha de S. Paulo já denunciava os problemas de manutenção do Museu Nacional: desde 2014, a instituição não recebia integralmente a verba de R$ 520 mil anuais que bancam sua manutenção. Meio milhão de reais.

O pior momento foi em 2015, quando o Museu chegou a fechar por falta de dinheiro. Não havia dinheiro para pagar serviços básicos como limpeza e vigilância. Naquele ano, 257 mil reais foram destinados ao espaço, praticamente a metade do valor ideal.

Pior do que isso, é saber que as condições de infraestrutura do Museu Nacional são vergonhosas há mais de uma década. Em 2004, conforme o arquivo da Agência Brasil, já se falava do risco de incêndios no prédio. Wagner Victer, então secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo, denunciava várias irregularidades no espaço. “O museu vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico”, afirmou na época.

Sérgio Sá Leitão, ministro da cultura, publicou no Twitter que a tragédia “poderia ser evitada”.

“Lamentavelmente isso acontece justo quando medidas estavam sendo tomadas. O BNDES assinou em junho um contrato de patrocínio no valor de R$ 21,7 milhões […] Tenho procurado ajudar o Museu Nacional desde que entrei no MinC, em julho de 2017. O Instituto Brasileiro de Museus realizou diversas ações. Participei da articulação para viabilizar o patrocínio do BNDES. Infelizmente não foi a tempo. A tragédia poderia ter sido evitada […] O projeto previa a proteção contra incêndio”, disse ele, em uma sequência de tuítes.

Falta d’água atrapalhou bombeiros

O incêndio se espalhou rapidamente e o trabalho foi atrasado em cerca de 40 minutos por falta de carga (força) nos dois hidrantes mais próximos ao museu. Os bombeiros precisaram pedir caminhões-pipa para auxiliar no combate ao incêndio e foi necessário retirar água do lago que fica na Quinta da Boa Vista para ajudar no controle das chamas.

Pesquisadores e funcionários do Museu Nacional se reuniram com o Corpo de Bombeiros para tentar auxiliar na operação – eles tentaram orientar o trabalho dos bombeiros para que o fogo não chegasse a uma parte do museu que continha produtos químicos.

Dois séculos de história

Foto: Wikimedia

Segundo seu próprio site oficial, o Museu Nacional é uma instituição autônoma, integrante do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro e vinculada ao Ministério da Educação. Como museu universitário, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem perfil acadêmico e científico.

O Museu Nacional foi fundado em junho de 1818, então como Museu Real. “Querendo propagar os conhecimentos e estudos das ciências naturais no Reino do Brasil, que encerra em si milhares de objetos dignos de observação e exame e que podem ser empregados em benefício do comércio, da indústria e das artes: hei por bem que nesta Corte se estabeleça um Museu Real”, escreveu dom João VI (1767-1826) no decreto de criação.


Histórico de incêndios

Diversos prédios sob custódia da UFRJ, que sofre com falta de orçamento, sofreram incêndios nesta década:

Em 2011, um dos prédios no campus da universidade na Praia Vermelha, pegou fogo;
Em 2012, o prédio da Faculdade de Letras também sofreu com um incêndio;
Em 2014, foi a vez do Laboratório do Centro de Ciências da Saúde;
Em 2016, o 8º andar da Reitoria da UFRJ também pegou fogo;
Em 2017, houve um incêndio no alojamento estudantil da universidade e um estudante ficou ferido

Museus e espaços culturais e científicos brasileiros também não escapam do histórico:

Em 2008, Teatro Cultura Artística, em São Paulo, sofreu um incêndio;
Em 2010, foi a vez do Instituto Butantan, que perdeu o maior acervo de cobras do Brasil;
Em 2013, o auditório do Memorial da América Latina também foi atingido;
Em 2013, o acervo do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas também foi vítima;
Em 2014, o fogo destruiu o acervo do Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios;
Em 2015, o Museu da Língua Portuguesa também foi acometido pelo fogo;
Em 2016, a Cinemateca Brasileira pegou fogo.

Imagem do topo: Tânia Rego/Agência Brasil