As Ilhas Salomão – a nação composta por cerca de mil ilhas localizadas ao nordeste da Austrália, entre Vanuatu e Papua Nova Guiné – são um canto impressionante do globo. Uma floresta densa e exuberante cobre a maioria das ilhas, e a biodiversidade do coral de recife do país está entre as mais ricas do mundo. Muitas das plantas e animais nas Ilhas Salomão evoluíram em incrível isolamento, e agora um desses animais se revelou de sua idílica reclusão, apresentando-se para a ciência pela primeira vez: o Vika (Uromys vika), um rato imenso, com quatro vezes o tamanho até mesmo daquele que era considerado o maior rato da cidade.

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Descrito em um artigo recém-publicado no Journal of Mammalogy por pesquisadores do Field Museum, de Chicago, e da  Área de Gestão de Recursos Zaira das Ilhas Salomão, o vika é um espetáculo. Incluindo a cauda escamosa, o robusto roedor castanho escuro chega a 45 centímetros de comprimento e pode pesar tanto quanto um abacaxi. O vika, como seus parentes mais próximos, é um ávido alpinista e, provavelmente, passa a maior parte de seu tempo no alto das árvores da floresta, escalando por aí no meio da noite, meio como um gambá. Essa nova espécie pode ser distinguida de outras espécies Uromys, muitas das quais são também encontradas nas Ilhas Salmoão, por diferenças mensuráveis na forma do crânio e pelos seus genes. Até agora, o vika só é conhecido na ilha onde foi descoberto, Vangunu.

Embora o Uromys vika seja “novo” no sentido formal, científico, o animal já fazia parte do conhecimento tradicional dos moradores de Vangunu. Era conhecido por muitas pessoas na ilha como um rato corpulento que gostava de devorar coco verde, furando-os com seus seus dentes incisivos. Algumas das histórias mais antigas registradas do vika pelos habitantes locais incluem histórias de que ele era supostamente comum em algumas das pequenas ilhas de plantações próximas a Vangunu. A introdução do vika à comunidade científica veio depois de anos de pesquisa, após o principal autor do estudo, Tyrone Lavery, ouvir descrições do rato por habitantes de Vangunu em 2010. Depois de muito tempo e esforço tentando encontrar o rato gigante na floresta tropical do Vangunu, um único espécime foi finalmente encontrado saindo de uma árvore caída. A observação e a coleta de uma amostra física eram as peças finais do quebra-cabeças.

Atualmente, há muito a aprender sobre a Vika e seu estilo de vida. Por exemplo, não foi confirmado através de observações se o animal derruba cocos. No entanto, em Vangunu, as nozes das árvores Canarium foram encontradas com furos redondos e a carne interior removida. Dado o tipo específico de marcas de dentes sobre esses buracos nas nozes, pensa-se que os ratos gigantes recém-descobertos são os culpados. Se o vika consegue perfurar as paredes espessas das nozes galip, não é improvável pensar que cocos podem de fato estar no cardápio também.

Estas são nozes com as marcas de dente características do Uromys vika. Imagem: cortesia de Tyrone Lavery, The Field Museum.

O vika é o primeiro roedor descoberto nas Ilhas Salomão em 80 anos e se encaixa em um panteão notável de mamíferos dessas ilhas, metade dos quais não é encontrada em nenhum outro lugar na Terra. Alguns deles incluem a raposa voadora anã (o menor morcego do mundo) e o morcego Pteralopex atrata. Este foco de endemismo de mamíferos é em grande parte devido à posição das ilhas entre massas de terra: perto o suficiente para que as coisas voem ou flutuem para lá de vez em quando, mas longe o bastante para tornar a saída das ilhas difícil. Os mamíferos terrestres nativos das Ilhas Salomão são quase exclusivamente morcegos e ratos, ambos os animais aparentemente muito bons em alcançar locais distantes.

“Os antepassados de Vika provavelmente flutuaram para a ilha em cima de vegetação, e uma vez que eles chegaram lá, eles evoluíram para estas espécies maravilhosamente novas, nada parecido com o que eram no continente”, explicou Lavery em um comunicado.

Tragicamente, logo após a sua estreia científica, Lavery e seus colegas esperam que o vika seja imediatamente designado como “criticamente em perigo”, já que é tão raro e sua região nativa minúscula em Vangunu está ameaçada pelo desmatamento.

Imagem do topo: Velizar Simeonovski, The Field Museum