Quando o Facebook surgiu, em 2004, foi com uma missão aparentemente inocente: conectar amigos de faculdade. Sete anos e 800 milhões de usuários depois, a rede social já dominou a maioria dos aspectos das vidas pessoais e profissionais de quem o usa, e está rapidamente se tornando a plataforma de comunicação dominante do futuro.

Mas este novo mundo de conexões sempre presentes tem um lado maligno. No meu último post, eu observei que o Facebook e as mídias sociais como um todo são grandes contribuintes para a ansiedade profissional. Depois de ver alguns comentários e reações sobre o post, ficou claro que o Facebook em particular vai ainda um pouco além: ele está de fato nos deixando extremamente infelizes.

A explosiva taxa de crescimento do Facebook (inclusive no Brasil) e os recentes lançamentos, como o proeminente News Ticker, as Top Stories direto no Feed e as fotos maiores, foram todos focados em um objetivo: encorajar mais compartilhamentos. Acontece que é exatamente isso que está ameaçando a nossa sensação de felicidade.

Enquanto escrevia Passion & Purpose, eu monitorei e observei como o Facebook estava impactando as vidas de centenas de jovens profissionais. Na condução da pesquisa, foi ficando claro para mim que por trás de toda a curtição, compartilhamentos e postagens, havia traços fortes de inveja, ansiedade e, em um caso, depressão. Uma pessoa entrevistada disse sobre um amigo do Facebook: “Ele é o meu melhor amigo, mas eu meio que odeio as atualizações dele”. Outra pessoa: “Agora, o Facebook É o meu dia de trabalho”. Me aprofundando mais, eu descobri perturbadores subprodutos da rápida ascensão do Facebook – três novas e preocupantes maneiras em que o Facebook está alterando fundamentalmente o nosso senso diário de bem-estar, tanto na vida pessoal quanto profissional.

Primeiro, ele está criando um ninho de comparações. Já que os nossos perfis do Facebook são curados por nós mesmos, os usuários têm uma forte tendência a compartilhar realizações positivas e evitar mencionar as partes mais negativas ou sem graça das suas vidas. Coisas como “Legal, fui promovido!” ou “Vejam as fotos do meu carro novo!” se sobressaem ao compartilhamento dos problemas pequenos do dia-a-dia ou de um divórcio doloroso. Isso cria uma devastadora cultura online de comparação. Uma pessoa entrevistada foi clara: “Eu já sou bem competitivo por natureza, então quando meus amigos postam notícias boas eu sempre tento postar coisas ainda melhores”.

Nos comparar com outros é um dos principais motores da infelicidade. Tom DeLong, autor de Flying Without a Net, chega a descrever a comparação como uma “armadilha”. Ele escreve: “Não importa o quanto somos bem-sucedidos ou quantos objetivos nós alcançamos, esta armadilha faz com que nós recalibremos as nossas conquistas e aumentemos o nível do que chamamos de sucesso”. Ao comparar as nossas vidas inteiras com o melhor 1% das vidas dos nossos amigos, estamos nos estabelecendo padrões impossíveis de alcançar, o que nos torna mais infelizes do que nunca.

Segundo, isso está fragmentando o nosso tempo: não é surpreendente que estratégia “horizontal” do Facebook esteja fazendo com que os usuários entrem mais frequentemente, e a partir de mais aparelhos. Meus entrevistados geralmente acessavam no serviço com o computador, em casa com outro computador ou iPad, e fora de casa pelo smartphone. Isso significa que menos pessoas estão “presentes” onde elas estão. Você está rabiscando uma apresentação chatíssima para a reunião? Talvez seja hora de checar as mensagens. Preso no trânsito? Vamos dar uma olhadinha no Feed de Notícias. “Eu quase fui atropelado por um carro quando atravessava a rua usando o Facebook”, disse um outro entrevistado.

Deixando de lado o risco de danos físicos, a questão da constante alternância entre a vida real e o Facebook é o que os economistas chamam de “switching cost” (que eu traduziria como “custo de alternância”), a perda de produtividade associada ao ato de parar uma tarefa para começar ou retomar outra. O famoso autor Dr. Srikumar Rao classifica o hábito de trocar o modo multitarefa pelo foco em uma coisa de cada vez como um dos dez passos para a felicidade no trabalho. Ele argumenta que distrações constantes levam a resultados atrasados e com má qualidade, o que impacta negativamente o nosso senso de valor próprio.

Por último, ocorre um declínio das relações muito próximas. Foi-se o tempo em que o Facebook meramente complementava as nossas relações na vida real. Agora ele está capturando uma fatia das nossas interações offline. Um participante resumiu de maneira simples: “Nós nos falamos pelo chat do Facebook em vez de nos encontrarmos. É mais fácil.”

Com o Facebook introduzindo novos recursos como o Video Chat, ele rapidamente se torna um substituto cada vez mais viável para reuniões, conversas e até mesmo encontros de família. Mas cada vez que uma conversa no Facebook substitui uma forma mais rica de interação, as pessoas perdem uma oportunidade de se relacionar de uma maneira mais profunda do que as que o Facebook jamais poderá acomodar. O Facebook vai continuar acrescentando recursos para melhorar a eficiência das interações online, e a batalha para manter relações offline vai ficar cada vez mais difícil, o que terá um impacto na sua qualidade geral, especialmente a longo prazo. O Facebook está afetando negativamente o que o professor de psicologia Jeffrey Parker chama de “as propriedades de proximidade da amizade”.

Mas o que podemos fazer para evitar estas três armadilhas? Levando em conta que sair completamente do Facebook não é realista, ainda podemos tomar medidas para alterar os nossos padrões de uso e fortalecer os nossos relacionamentos offline. Algumas táticas úteis que eu já vi incluem separar alguns horários para entrar no Facebook, em vez de ficar entrando intermitentemente o dia todo; selecionar melhor os amigos para evitar pessoas indesejáveis e colegas fofoqueiros; e investir mais tempo em construir relacionamentos offline. Quem for particularmente corajoso escolhe deletar o Facebook do smartphone e do iPad e/ou ficar longos períodos sem entrar.

O Facebook está te tornando infeliz? Quais outras dicas você pode compartilhar?

Este texto foi originalmente publicado no Harvard Business Review. Você pode acompanhar o autor, Daniel Gulati, pelo Twitter.