Olhando friamente, parecia um programa de índio: ver um filme em preto e branco, mudo, com som em mono, tela irregular, com falta de cadeiras, frio, possibilidade de chuva, duas pausas na sessão de mais de três horas. Mas o que rolou ontem no Auditório do Ibirapuera, sem 3D e grandes efeitos, foi mais mágico que qualquer Avatar no iMAX, ao menos para mim e boa parte das 12 mil pessoas que estavam juntas, em silêncio absoluto e aplaudiram de pé no final. Um bocado do motivo da mágica estava abaixo da tela: uma orquestra executando a trilha, ao vivo.

O filme em questão era Metrópolis, de Fritz Lang, clássico de ficção científica de 1927 que foi projetado em uma versão estendida, pela primeira vez na América Latina, na programação da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Abaixo, a trilha, que diminuía de intensidade, mas nunca parava totalmente, era brilhantemente executada pelos 82 músicos da Orquestra Jazz Sinfônica. Quando o ponteiro do relógio em cena avançava um segundo, o xilofone tocava em perfeita sincronia. De arrepiar (além do frio). Para dar certo, o silêncio era necessário. E fora uma escola de samba ou algo parecido que tocou ao longe, não dava para ouvir qualquer coisa além do filme. Nada de celular ou conversas em tom normal. Uma fantástica aula de civilidade:

Sobre o filme em si, a história é relativamente simples para os nossos padrões "Origem" de hoje. Grosseiramente falando: há uma cidade maluca do século 21 em que os trabalhadores vivem no underground e a burguesia no alto. O povo se mata para alimentar máquinas, e estão prestes a se rebelar. O filho do "dono" fica do lado dos oprimidos, entra um cientista maluco que cria um robô que pode parecer com um humano qualquer, e ele é usado para enganar a população. No fim a classe operária e o governante se entendem, há uma história de amor por trás e tal. 

O que é sempre interessante assistir é a visão de futuro que as pessoas tinham no início do século XX. Antes de Metrópolis, costumava-se achar que tudo ia ser uma maravilha por causa da tecnologia, com os robôs cuidando de tudo e a gente só curtindo. Metrópolis mais ou menos criou a tal distopia do futuro: cidades com abismos sociais cada vez maiores, com um submundo, sujas, onde as pessoas são meio escravas das máquinas. Em termos tecnológicos, há muitos carros em estradas elevadas, aviões, prédios gigantescos e, apesar de não haver nada parecido com um computador pessoal (mas andróides sim!), em uma determinada cena dois personagens se comunicam por videofone. E o Steve Jobs achando o FaceTime novo.   

Em termos de universo e história, o legado de Metrópolis foi visto em vários filmes depois, de Star Wars a Blade Runner. E tecnicamente, apesar de hoje ser tudo estranho, o filme foi bastante importante. Com um dos orçamentos mais caros da história – US$ 200 milhões em valores de hoje, o custo de um Senhor dos anéis, ajustado para a inflação – a obra de Fritz Lang inaugurou alguns efeitos especiais malucos para a época. O diretor de fotografia filmava os atores e, a partir de um jogo de espelhos, colocava-os dentro da cidade de maquete, ao vivo, por exemplo. Isso virou padrão na indústria nas décadas seguintes.

Quando vi o filme pela primeira vez há uns 10 anos achei um bocado confuso, com frases meio perdidas e a história com buracos, especialmente no final. Ele ainda tem um bocado disso, mas descobri que a coisa já foi pior. A versão que estreou em Berlim em janeiro de 1927 tinha mais de duas horas de duração. Outros cinemas se recusaram a exibí-la inteira e o próprio estúdio – sem a mão de Fritz Lang – picotou o filme e tirou meia hora dele para que fosse projetado em mais lugares. A coisa ficou confusa. Apenas em 2008 acharam o pedaço cortado em Buenos Aires (!) e o filme foi colado de volta inteiro e reestreou este ano no Festival de Berlim. Como eles conseguiram descobrir onde cada parte nova se encaixava, sem o roteiro ou o diretor vivo? A trilha sonora original indicava. E por isso ela se encaixa tão perfeitamente bem. Especialmente quando tocada ao vivo. Como disse a Ana Paula Sousa, na Folha

E a cidade, discretamente, prestou sua homenagem a esse filme de imagens inesquecíveis, definitivas.

Uns espectadores levaram mantas, uns levaram garrafas e taças de vinho, outros levaram seus cães.

Mas todos, em silêncio, viveram o cinema como arte, como experiência que, só se for coletiva, é completa de verdade.