O debate sobre as origens de Covid-19 está atingindo o mundo em um nível desproporcional. Na segunda-feira (08), o Wall Street Journal publicou um artigo descrevendo o relatório divulgado no governo dos Estados Unidos no ano passado, que indicava que um laboratório de pesquisa de vírus em Wuhan, China, poderia ter sido o ponto inicial da pandemia. Ao mesmo tempo, porém, nada parece ter mudado quando se trata de evidências reais sobre a origem do vírus.

De acordo com o WSJ, o documento em questão foi preparado pelo Laboratório Nacional Lawrence Livermore, um centro de pesquisa federal na Califórnia, em maio de 2020. Posteriormente, foi citado em uma avaliação conduzida pelo Departamento de Estado no final da presidência de Trump. O relatório analisou a genética do coronavírus conhecido como SARS-CoV-2 e concluiu que a “hipótese de que o vírus vazou de um laboratório chinês em Wuhan” era plausível e merecia uma investigação mais aprofundada, de acordo com o artigo. Lawrence Livermore National Lab, no entanto, não respondeu a um pedido de resposta feito pelo jornal.

Contudo, a reportagem do WSJ na segunda-feira não deve ser confundido com uma coluna de opinião, publicada no domingo, intitulado: “A ciência sugere um vazamento no laboratório de Wuhan”. No artigo de opinião, Steven Quay e Richard Muller argumentam que o SARS-CoV-2 contém uma “pegada genética que nunca foi observada em um coronavírus natural”. Quay e Muller têm treinamento científico, mas a especialidade de Quay parece ser a pesquisa do câncer de mama, e Muller tem fama de ser um físico negador das mudanças climáticas – apesar de ter mudado de ideia anos mais tarde. 

O fato é que muitos cientistas já criticaram a premissa defendida na coluna — de que o SARS-CoV-2 não poderia ter surgido naturalmente. Em uma sequência de tweets no  Twitter, a bióloga evolucionária treinada e repórter do Nature News Amy Maxmen disse que um pedaço de código genético referenciado no artigo do WSJ, chamado de códon CGG, “é raro em coronavírus, mas existe”. 

O virologista Kristian Anderson e o biólogo evolucionário Andrew Rambaut, entre outros, em uma carta para a revista Nature Medicine no ano passado já argumentavam que alguns dos traços genéticos encontrados no SARS-CoV-2 podem ser relativamente raros entre os coronavírus, mas ainda assim, são explicáveis ​​por mutação natural ou recombinação.

Ao contrário da desinformação da direita, alguns cientistas levaram a sério a possibilidade de um vazamento de laboratório desde o início da pandemia. Muito desse debate inicial, infelizmente, foi desperdiçado em ter que lidar com afirmações sem base de que o vírus foi geneticamente modificado ou liberado como uma arma biológica ligada ao HIV. Por outro lado, parece haver apenas evidências circunstanciais para a possibilidade de que, de fato, um acidente de laboratório tenha introduzido o vírus para a grande população humana. 

Exemplo disso é o Instituto de Virologia de Wuhan que fazia testes com coronavírus e alguns cientistas que trabalhavam lá parecem ter adoecido com uma doença semelhante à gripe, mais ou menos na época dos primeiros casos registrados de coronavírus, em novembro de 2019.

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Isso dito, também há evidências circunstanciais a favor da teoria da origem natural do vírus. E há muitos cientistas que continuam a acreditar em sua origem zoonótica — significando que o vírus surgiu em um animal e passou para os humanos –, que continua sendo o cenário mais provável. Isso, na verdade, acontece o tempo todo.

Apesar disso, é fato também de que nas primeiras semanas e meses do surto na China, funcionários do governo nacional tentaram censurar cientistas, médicos e cidadãos que queriam alertar o público sobre o perigo da nova doença. Mas a culpa da China dificilmente absolve os EUA e outros países de seus próprios fracassos depois que o vírus chegou à sua porta.

Teorias à parte, para alguns cientistas, talvez nunca seja possível descobrir a verdade sobre a origem do coronavírus, eles dizem que se isso acontecer, levariam muitos anos para os pesquisadores encontrarem um reservatório natural do vírus, se é que existe um.