A OMS (Organização Mundial da Saúde) decidiu suspender seu ensaio clínico de hidroxicloroquina para pacientes de COVID-19 pela segunda vez em menos de um mês. A decisão foi tomada após uma revisão de evidências mais recentes, bem como de seus próprios dados preliminares, que concluíram que o medicamento provavelmente pode não ajudar a evitar que as pessoas morram por causa da doença viral.

Em meados de março, a OMS lançou seu estudo SOLIDARITY, destinado a testar uma variedade de tratamentos em potencial para COVID-19. Entre eles estava a hidroxicloroquina, um medicamento antigo usado para tratar a malária, além de alguns distúrbios autoimunes, como lúpus.

Naquela época, havia evidências encorajadoras de estudos de caso que indicavam que ela e a cloroquina poderiam afetar a capacidade do vírus de se replicar e possivelmente melhorar o prognóstico de um paciente.

As evidências para a eficácia da droga desde então foram variadas, mas uma pesquisa controversa pode, ironicamente, ter adiado seu provável fim como um tratamento de COVID-19.

No fim de maio, um estudo observacional publicado na revista científica Lancet alegou não encontrar evidências de que os medicamentos pudessem prevenir a morte em casos graves, bem como evidências de que ele poderia aumentar o risco de morte.

O estudo foi logo sinalizado por outros pesquisadores por usar dados falsos e foi retratado após duas semanas, mas não antes de a OMS decidir interromper seu teste com hidroxicloroquina por questões de segurança.

Após o escândalo de dados, e um dia antes da retratação do estudo pela maioria dos coautores em 4 de junho, a OMS retomou os testes depois que uma análise concluiu que os medicamentos eram seguros o suficiente para continuar sendo testados em pessoas.

Um dia depois, pesquisadores do Reino Unido anunciaram seus próprios resultados de um estudo em larga escala de hidroxicloroquina, que ainda não encontrou benefícios que salvassem vidas. Embora seus dados ainda não tenham sido publicados em uma revista científica nem revisados por pares, os resultados foram muito influentes.

Na segunda-feira, a FDA (Food and Drug Administration; órgão análogo à Anvisa no Brasil) disse que estava retirando sua autorização de uso emergencial de hidroxicloroquina e cloroquina, citando dados do estudo britânico e de outras pesquisas.

Nesta quarta-feira (17), durante conferência de imprensa, Ana Maria Henao-Restrepo, da OMS, anunciou que o estudo SOLIDARITY com pacientes randomizados e tratados com hidroxicloroquina seria interrompido.

De acordo com Henao-Restrepo, a decisão foi tomada pouco antes da conferência de imprensa e se baseava amplamente de duas coisas: o estudo RECOVERY do Reino Unido e dados do SOLIDARITY, que não encontraram evidências de redução da mortalidade com o uso da droga.

Mais tarde, ela esclareceu que a OMS também considerava as evidências coletadas pela Cochrane Collaboration, uma organização independente e respeitada que conduz revisões sistemáticas de tratamentos propostos.

Neste momento, não se sabe o que os dados do SOLIDARITY mostram, quantas pessoas foram tratadas e quando a OMS divulgará esses dados ao público. Mas, embora ainda existam outros estudos em andamento com hidroxicloroquina em outros lugares, a decisão da OMS provavelmente diminuirá ainda mais as esperanças de que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam úteis para tratar COVID-19.