Após os protestos sobre as mudanças climáticas a nível internacional na sexta-feira (20), um relatório das Nações Unidas publicado no domingo (22) mostra que o período de cinco anos que termina no final deste ano (2015-2019) está programado para ser o mais quente de todos os períodos de cinco anos já registrados.

O documento, baseado em dados compilados pela Organização Meteorológica Mundial da ONU, descobriu que os seres humanos já aqueceram o planeta a uma média de 1,1 graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais e que a perda de geleiras na Antártica está aumentando. Segundo a Agence France-Presse:

“Atualmente, estima-se que esteja 1,1° C acima do período pré-industrial (1850-1900) e 0,2 ° C mais quente que 2011-2015”, disse o relatório intitulado United in Science, uma síntese das principais conclusões.

Outras principais conclusões do relatório incluem que a extensão de gelo do mar do Ártico no verão diminuiu a uma taxa de 12% por década nos últimos 40 anos, apresentando os quatro valores mais baixos entre 2015 e 2019.

No geral, a quantidade de gelo perdida na camada de gelo da Antártica aumentou seis vezes por ano entre 1979 e 2017, enquanto a perda de geleiras de 2015 a 2019 também é a mais alta em qualquer período de cinco anos já registrado.

Embora isso já seja ruim o suficiente por si só, a descoberta mais ameaçadora do relatório é que os humanos não estão nem perto do “pico de emissões” – o ponto máximo estimado após o qual os humanos começarão a liberar menos carbono para a atmosfera. As emissões de CO2 aumentaram dois por cento em 2018 para 37 bilhões de toneladas, de acordo com a AFP.

Além disso, o Financial Times informou que o aumento anual do nível do mar acelerou até 5 mm por ano, passando de 3 mm por ano durante o período de 1997-2006, enquanto a taxa de crescimento da concentração de CO2 na atmosfera foi 20% maior em relação a 2015- 2019 do que no período de cinco anos anterior. O oceano, que absorve a maior parte do excesso de calor retido pelo planeta devido às mudanças climáticas, teve as maiores medições de calor em 2018 do que em qualquer outro ano já registrado.

O documento estimou que, se os negócios continuarem como de costume, com os países cumprindo apenas os compromissos do Acordo de Paris, o pico de emissões não será atingido até 2030 e haverá aquecimento de 2,9 a 3,4 graus Celsius até o ano 2100. O mundo precisaria triplicar seus compromissos de redução para manter o aquecimento abaixo de 2° C, um nível já considerado inseguro. A ONU também alertou que o aumento da temperatura média global “aumenta os riscos de cruzar pontos críticos de inflexão”, isto é, pontos sem retorno após os quais mudanças bruscas ou irreversíveis podem ocorrer.

“As causas e os impactos das mudanças climáticas estão aumentando em vez de diminuir”, disse o chefe da Organização Meteorológica Mundial e consultor de ciências climáticas da ONU, Petteri Taalas, ao Times. “Como vimos este ano com um efeito trágico nas Bahamas e Moçambique, o aumento do nível do mar e intensas tempestades tropicais levaram a catástrofes humanitárias e econômicas”.

“O aumento do nível do mar acelerou e estamos preocupados com o declínio abrupto das camadas de gelo da Antártica e da Groenlândia, que exacerbarão o aumento futuro”, acrescentou Taalas.

“As mudanças climáticas causadas por nós estão acelerando e em um curso muito perigoso”, disse à BBC o presidente do Instituto Grantham e professor de meteorologia da Universidade de Reading, Brian Hoskins. “Deveríamos ouvir os gritos vindos dos alunos. Há uma emergência – e ela requer uma ação para reduzir rapidamente nossas emissões de gases de efeito estufa para zero e nos adaptarmos às mudanças inevitáveis ​​no clima”.

A ONU está convocando uma cúpula especial de um dia sobre mudanças climáticas nesta segunda-feira (23) em sua sede em Nova York, que o secretário geral da ONU, António Guterres, descreveu como uma oportunidade para os líderes mundiais “não virem com discursos sofisticados, mas com compromissos concretos”, segundo o Times. Guterres acrescentou que “as pessoas querem soluções, compromissos e ações. Espero que haja um anúncio e a apresentação de vários planos significativos para reduzir drasticamente as emissões durante a próxima década e alcançar a neutralidade do carbono até 2050”.

No entanto, questões sobre a contínua dependência da indústria do carvão levaram o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe e o primeiro-ministro australiano Scott Morrison a serem impedidos de participar, segundo o Times. Arábia Saudita, Brasil e EUA também não estarão presentes.

“Isso parece um extrato de cartão de crédito depois de uma farra de gastos de cinco anos”, disse à AFP o professor da Universidade de Edimburgo, Dave Reay. “Nosso limite de crédito global de carbono está estourado. Se as emissões não começarem a cair, os juros serão bem altos”.