Qualquer fã de Carl Sagan sabe que somos feitos de poeira estelar. Os prótons não decaem para quaisquer outras partículas (até onde sabemos), então você pode presumir, com confiança, que maior parte dos pedaços de você mesmo estiveram por aí desde um segundo após o Big Bang. Mas se você pensar um pouco mais localmente, pode se perguntar se a Via Láctea se formou completamente antes que você fosse feito.

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Acontece que, se as novas estimativas estiverem corretas, metade dos átomos em nossa galáxia pode ter sido tomada de outras galáxias. A nova análise, de uma equipe de astrofísicos de Estados Unidos e Canadá, mostra que a formação da galáxia (e das coisas em geral) é um processo complexo de troca.

“Em geral, nossos resultados destacam o papel dos ventos galácticos como contribuidor principal para o conjunto de matéria bariônica de galáxias centrais”, escreveram os autores no estudo, publicado nesta quinta-feira, na Monthly Notices of the Roual Astronomical Society. A Via Láctea é apenas algumas centenas de milhões de anos mais jovem que o universo em si e se formou como o gás quente inicial no início do universo aglomerado. Esse novo estudo mostra que, em uma simulação, 50% de uma galáxia como a nossa Via Láctea hoje é composta de coisas ejetadas de outras,

“A questão de quantas das estrelas da Via Láctea foram construídas ‘no local’, em comparação com terem sido conseguidas de outras fontes, sempre foi intrigante”, contou ao Gizmodo, por email, o astrofísico Dylan Nelson, do Instituto Max Planck de Astrofísica, na Alemanha.

Os autores citam estudos que datam desde 2003 e que descrevem a importância da troca de matéria na formação de galáxias, mas incluí-la em modelos tem sido difícil devido a certas complexidades físicas de menor escala. Porém, uma simulação chamada de Feedback in Realistic Environments (FIRE), ajudou esses pesquisadores a criar um jeito de modelar o comportamento de gases dentro de galáxias e entre elas.

Os pesquisadores levaram em conta coisas como a formação de estrelas, supernovas, ventos estelares e outros fatores para modelar galáxias e seus ventos galácticos. Sua simulação então pôs uma galáxia principal no centro das outras e fez o sistema reverso. Depois de várias análises de números e supercomputação, os pesquisadores descobriram que apenas cerca de 50% do material de galáxias do tipo da Via Láctea que estavam presentes ali vinham de processos internos, como a formação de estrelas e a sugação de ventos galácticos previamente ejetados. O restante veio de outras galáxias.

Isso, é claro, foi apenas uma simulação. Mas pelo menos uma pesquisadora não envolvida no estudo, Jessica Werk, da Universidade de Washington em Seattle, contou à New Scientist que o trabalho incluía “uma das melhores simulações”. Ela apontou que entender de onde vêm os átomos na Via Láctea é um tópico importante na astrofísica.

Nelson apontou, sim, que o modelo apenas observa simulações de três galáxias do tipo da Via Láctea e que o número chega entre 30% e 60% de coisas externas. “Não está claro se a nossa verdadeira Via Láctea correspondente intimamente a alguma, ou a qual, dessas simulações em particular. Um número muito maior de galáxias simuladas (como tentamos fazer em projetos como o www.tng-project.rog) seria necessário para definir a importância e a frequência do efeito descrito nesse trabalho.” Mas ele concorda que o modelo era sofisticado e contou ao Gizmodo que o trabalho foi “sem dúvidas, aproximadamente correto”.

Bom, vai saber. Talvez em alguns bilhões de anos o corpo de alguém será feito dos seus átomos. Isso seria legal.

[MNRAS]

Imagem do topo: NASA, ESA, Hubble Space Telescope; Processamento: Douglas Gardner