Os polvos, com seus oito braços (não confundir com tentáculos) cobertos por ventosas, podem saborear objetos simplesmente ao tocá-los. E uma equipe de pesquisadores finalmente descobriu como esses cefalópodes são capazes de realizar esse truque que, diga-se de passagem, é bastante notável.

O polvo é uma das criaturas mais intrigantes do mundo biológico. Eles são superinteligentes, excelentes solucionadores de problemas e até um pouco travessos. Esses cefalópodes não têm escolha a não ser serem inteligentes, já que são forçados a se levantar imediatamente após o nascimento. Eles até respondem ao MDMA (Ecstasy) de uma maneira semelhante a como os humanos reagem a essa droga.

Seus braços, que estão repletos de centenas de ventosas, são uma grande parte de seu sucesso, já que os polvos podem literalmente sentir o gosto do objetos ao apenas tocar neles. Esta habilidade pode ser muito útil quando um polvo tem que alcançar uma fenda escura e profunda enquanto procura por comida ou enquanto vasculha o fundo do mar. O oceano está repleto de criaturas desagradáveis ​​e nocivas, então a capacidade de discernir uma refeição genuína de algo mais prejudicial é claramente vantajosa.

“As estratégias que [os polvos] desenvolveram para resolver problemas em seu ambiente são exclusivas para eles, e isso inspira muito interesse de cientistas. As pessoas ficam interessadas em polvos e outros cefalópodes porque eles são totalmente diferentes da maioria dos outros animais”, disse Peter Kilian, co-autor do novo estudo e biólogo do Bellono Lab da Universidade de Harvard.

Apesar desse fascínio, nossa compreensão dos fundamentos químicos e moleculares de sua capacidade de saborear ao tocar é extremamente insuficiente. E uma nova pesquisa, publicada na Cell, marca um passo importante nessa direção para entender melhor como essa magnífica espécie funciona.

Nicholas Bellono, autor do estudo e biólogo molecular de Harvard, e seus demais colegas cientistas deram início ao projeto para confirmar a capacidade de toque e sabor nos polvos. Eles fizeram isso com um polvo-da-Califórnia (Octopus bimaculoides), que em testes de laboratório exibiu comportamentos diferentes quando seus braços tocavam 1) uma presa ou 2) algo menos apetitoso.

Um polvo e uma xícara de café. Imagem: Lena van Giesen

Um polvo analisando o “gosto” de uma xícara. Imagem: Lena van Giesen

Na verdade, com o sentido do tato-paladar afirmado, o próximo passo para os cientistas era fazer exatamente isso: estudar os sugadores nos braços do polvo em nível molecular. A busca pelas células sensoriais únicas envolvidas no processo levou os cientistas a descobrir uma população distinta de células localizadas nas pontas das ventosas. Esses sensores recém-detectados são agora chamados de “receptores quimiotáteis”, pois a equipe acredita que eles são responsáveis ​​pela capacidade de tocar e saborear.

Em testes subsequentes, a equipe demonstrou que esses sensores reagiram a moléculas que não se dissolvem bem na água. Como as moléculas não desaparecem por completo, “elas poderiam, por exemplo, ser encontradas na superfície das presas dos polvos [e o que quer que os animais toquem]”, disse Bellono.

A equipe também encontrou um segundo tipo de célula — uma população de células mecanossensoriais — dentro das ventosas. Essas células convertem a estimulação mecânica em sinais que o cérebro pode entender como toque, entre outros sentidos.

Como os autores explicam, os receptores quimiotácteis dos polvos são capazes de detectar e então discriminar entre diferentes sinais químicos. Os receptores quimicamente sensíveis formam complexos de canais de íons discretos que podem captar sinais específicos e, em seguida, transmitir sinais elétricos para o sistema nervoso do polvo, que são interpretados como sabor. Isso é importante “porque pode facilitar a complexidade dos sentidos do polvo e também como ele pode processar uma série de sinais usando o sistema nervoso semiautônomo do braço para produzir comportamentos complexos”, disse Bellono.

Vale ressaltar que este sistema único de filtragem de sinal é possibilitado pelo sistema nervoso distribuído dos polvos, no qual os braços podem funcionar independentemente do cérebro. Cerca de dois terços dos neurônios do polvo estão em seus braços, e é por isso que um braço decepado ainda pode tentar se estender para agarrar as coisas.

“Essas descobertas demonstram que o sistema nervoso do polvo, que é distribuído perifericamente, é também um local chave para o processamento de sinais, e destacam como as características moleculares e anatômicas evoluem sinergicamente para se adequar ao contexto ambiental de um animal”, escreveram os autores do estudo.

A nova pesquisa também mostrou que os receptores dos polvos são sensíveis aos terpenoides — um alerta químico produzido por muitos animais marinhos quando estão ameaçados. Na natureza, um polvo que de repente sente o gosto de terpenoides pode recuar, pois é um sinal potencial de uma presa venenosa.

Os autores suspeitam que os terpenoides são um dos muitos outros compostos desconhecidos capazes de estimular os receptores quimiotáteis dos polvos — por isso, recomendam pesquisas futuras nesta área. Além disso, eles gostariam de saber se outros cefalópodes, como lulas e chocos, têm capacidades semelhantes de sabor do toque encontradas nos polvos.