Esse é Michael Fremer. Ele está ouvindo “Avalon”, do Roxy Music, em seu sistema estéreo de US$ 350 mil. Soa excelente. Ele é meio louco, mas se você ama música, precisa dele.

Fremer, se você ainda não se ligou, é um audiófilo do mais alto calibre. Literamente milhões de dólares em equipamento de áudio premium já passaram pela sua sala de audição, em reviews para a revista “Stereophile”, e ele é obcecado por vinil desde que tinha quatro anos de idade e memorizava os selos dos 78 rotações de seus pais. Um homem que, quando a gravação e os métodos de reprodução digitais começaram a emergir, culminando na transformação do compact disc como formato de música predominante, tornou-se um representante de destaque do movimento pela superioridade do vinil, advogando firmemente sua maior resolução tonal em relação à máxima do CD, de 44,1 kHz. (Confira este clipe da MTV para ver Fremer em ação, em 1993.)

Em resumo, é uma espécie de humano que eu não conhecia antes de passar um tempo com ele em sua sala de audição no porão de sua casa em Nova Jersey, na última semana, e uma espécie sobre a qual, francamente, eu era cético de simplesmente todas as maneiras possíveis.

Ao ser pego por Fremer na estação de trem perto de sua casa, meus medos imediatamente começaram a parecer todos muito reais. Já no primeiro ou no segundo minuto do nosso passeio de carro partindo da estação, uma crítica indignada à insignificante resenha de Walt Mossberg sobre o Airport Express, mini-roteador da Apple que transmite música e que tanto eu quanto Fremer usamos em nossos home systems, começa com intensidade:

“Se não vai dizer às pessoas como ele soa, qual é o maldito ponto? Não ponha os pés no meu mundo, Walt!” Múltiplos e-mails de queixa ao pobre Walt são mencionados. Definitivamente penso “uh oh” neste momento.

Mas então, estabelecido no solitário banco de couro no templo de áudio de Fremer, acomodado bem no ponto ideal de seus falantes Wilson MAXX3 de US$ 65 mil, eu ouço a agulha cair sobre “Run”, do álbum “Talkie Walkie”, do Air. É uma canção que eu nunca ouvira (meio que desencanei de Air depois de ouvir bastante o “Moon Safari”), mas que agora ouço toda hora. Porque, com toda a sinceridade, eu nunca ouvira algo como aquela canção tocada naquele sistema estéreo naquele momento. Nunca.

A canção termina, e, depois de eu emergir de um nevoeiro meio entorpecente, ouço um chiado. E, sim, enquanto a gravação tocava, ouvi um estalo ou outro. Mas esse não é um sistema audiófilo um tanto high-end? O som não deveria ser de uma pureza tamanha a sustentar a vida no lugar da água por dias e dias?

Menciono esse pequeno – muito pequeno, mas notável – chiado a Fremer, e é provavelmente uma frequencia que mais de 50 anos de atividade eliminaram do espectro dele. Ele nem se importa. É aí que eu começo a entender.

Depois de ouvir que sou fã de Bowie, Fremer vai a suas estantes quase infinitas e coloca pra rodar uma edição de “Heroes” com uma parte do refrão da faixa-título em alemão. Solto pequenas risadas de prazer com o nível obsceno de detalhe que ouço (“Ich! Ich werde König!”), mas, claro, ouço os estalos que uma gravação com mais de 30 anos está propensa a ter. Um sistema estéreo de US$ 350 mil não deveria ser completamente livre dessas impurezas?

“É como quando você vai ver uma sinfônica, e os velhos tossem – é a mesma coisa”, diz Fremer. Impurezas necessárias. Lembretes de estarmos no mundo real.

Tocamos um sólido MP3 VBR com 256 kbps de “Heroes” do meu iPod; ele soa feito merda. Livre de estalos, sim, mas completamente sem vida, achatada de todas as maneiras. Esse é o detalhe que importa: audiófilos são basicamente sinestésicos. Eles “veem” música em espaço visual tridimensional. Você fecha os olhos na cadeira de Fremer e consegue perceber uma detalhada matriz de som 3D, com cada elemento ocupando seu próprio espaço especial no ar. É um negócio louco, e eu nunca experimentara algo assim.

É dentro desse espaço 3D que o audiófilo vive e opera e gasta todo o seu dinheiro. O próprio Fremer é o primeiro a admitir que custaria apenas de US$ 3.000 a US$ 5.000 para montar um sistema que satisfaria profundamente a maioria dos fãs de música. Em uma escala de 1 a 100 totalmente inventada por mim, deixemos esse sistema por volta de 85. Agora imagine que você experimentou 85 e quer subir ainda mais; você quer que os gritos de Bowie sobre o beijo ao muro habitem o ponto mais perfeito da matriz do seu sistema. É aí, meus amigos, que você pode acabar pagando centenas de milhares.

Nossa pequena escala, infelizmente, é logarítmica, em que ir de zero para 85 não toma muito esforço ou dinheiro, mas ir de 98,6 para 99,1 com uma troca de um cabo de energia AC de US$ 2.600 por um de US$ 4.000 torna-se justificável. Fizemos exatamente isso, e esforcei-me para ouvir alguma diferença, mas para Fremer, a diferença era abundantemente clara – não necessariamente melhor com os cabos mais caros, mas diferente, um som mais quente, mais cheio, como Fremer o descreveu. Eis o hardware atual de sua sala de audição:

fremer-gear-11fremer-gear-10fremer-gear-9fremer-gear-8fremer-gear-7fremer-gear-6fremer-gear-5fremer-gear-4fremer-gear-3fremer-gear-2fremer-gear-1

O ponto é que pessoas como Fremer não apenas conseguem ouvir a diferença, elas almejam isso. Entrei em sua sala de audição esperando discernir absolutamente zero diferença nos testes de comparação que havíamos planejado, trocando cabos de falantes que custam tanto quanto uma refeição no melhor restaurante de Nova York por outros que custam tanto quanto um ano de graduação em Harvard. Eu de fato ouvi uma pequena diferença. Mas para pessoas como Fremer, essa pequena diferença torna-se uma disparidade espantosa, e vale a pena pagar por ela se isso significa alguns pontos decimais mais próximos da perfeição. Infelizmente, a curva logarítmica é assimptótica: não existe um teto. Fremer será o primeiro a admitir que esse tipo de vício não é e não deve ser para todos.

A obsessão por pequenas diferenças explica a fervorosa defesa de Fremer das fontes de música analógica sobre as digitais. Duas anedotas são particularmente iluminativas.

A primeira é a lembrança de correr à loja de discos em 1979 para pegar “Bop ‘Til You Drop”, de Ry Cooder, o primeiro lançamento de rock mainstream a ser gravado usando um processo todo digital, o que no tempo era louvado como a próxima grande coisa. Mas ao chegar em casa e colocar o álbum em seu sistema high-end, os resultados não foram bons.

“Ele me fez sentir horrível!”, lembra. Embora tenha sido tocado em vinil, Fremer conseguiu detectar alguns elementos ausentes do espaço audiófilo 3D. “E não é como se eu fosse um digifobo nesse ponto – eu não tinha razão para sê-lo. Estava tão empolgado quanto qualquer um para ouvir isso.”

A segunda anedota é de alguns mais tarde: a sua primeira reprodução de um compact disc, para uma sala cheia de audiófilos expectantes. Enquanto eles aplaudiam empolgadamente a primeira faixa tocada no dispositivo que tinha o tamanho de uma geladeira, Fremer estava horrorizado. Ele ouviu os mesmos achatamento e falta de detalhes no mundo de áudio 3D que ele amava habitar. “Eu me senti… estranho. Minhas mãos tremiam. Tudo o que eu podia pensar, então, era ESTAMOS FODIDOS!” Alguns dias depois, um novo adesivo de para-choque customizado estava colado em seu carro: “COMPACT DISCS SUCK”.

E assim começou uma longa batalha que felizmente parece ter terminado bem. Com o advento dos SACDs – dos quais Fremer é um grande fã, provando que não é obcecado por nostalgia – e a grande aceitação e a vida continuada do vinil, Fremer é um homem feliz estes dias. “Estou no topo do mundo neste momento. Eu me pus a salvar a vinil, e nós conseguimos.”

Porque o negócio é que Fremer ama música antes e acima de tudo. O audiófilo que eu temia era um que se importa mais com gadgetry supercaro do que com música em si. Não foi quem acabei conhecendo. Esse homem ouve música e certifica-se de que ela foi gravada com a melhor fidelidade, de que os intentos do artista foram preservados. E graças a Deus ele faz isso, porque nós certamente não o fazemos.

Ouço a maioria da minha música em MP3s baixados, comprimidos, com perdas, e vocês também. Mas mesmo que você não consiga ouvir a qualidade do som, nós precisamos de alguém como Fremer, um preservador de gravações de arquivo e um ombudsman para novas técnicas de gravação, porque um dia você desejará ouvir, e ele estará lá por causa dos audiófilos.

Esses guardiães de dentro e fora da indústria musical asseguram que, seja em uma sala de cinema amanhã ou em sua própria sala de audição em alguma longínqua data futura, você sempre será capaz de voltar a uma gravação que expressa cada frequência, cada grama de calor e vida, da performance original. Porque se você puder ouvi-la, caso um dia consiga viver naquele espaço 3D, ficará contente por Fremer ter ajudado a defendê-la.