Olhe bem para esse cara aí ao lado e sua pose de "pessoa realizada financeiramente de comercial de margarina". Você acha que ele é legal? Olhe o sorriso dele. Mas calma. Antes de responder, tem algumas coisas que você precisa saber.

1) Ele esteve no Brasil esta semana, e há muito tempo nós do Gizmodo não nos divertíamos tanto em uma palestra de um guru em inovação. 2) Ele já trabalhou com Steve Jobs. 3) Ele já perdeu não um, mas dois bilhões de dólares (!!!) por defender suas próprias convicções (uma delas foi não ter aceitado o cargo de CEO da Yahoo em plena Era pré-bolha). 4) Pessoalmente, ele prefere camisas berrantemente estampadas com as mangas dobradas, bem no estilo low profile-nerd-americano de ser – e isso a gente mostra mais lá embaixo.

Ele é Guy Kawasaki, nipo-americano, dois filhos, morador da Califórnia e referência mundial em empreendedorismo – um dos grandes nomes das redes sociais, conforme suas próprias credenciais. O guru esteve esta semana em São Paulo, a convite da LG, para o lançamento da plataforma para a troca de ideias entre estudantes e profissionais da América Latina Life’s Good Lab.Falando, obviamente, sobre inovação.

Guy quis nos mostrar como sermos inovadores em 10 passos simples. Teve tiradas geniais como "tenha um mantra, não uma missão" e "don’t worry, be crappy" ("não se preocupe, seja um lixo"). O exemplo do primeiro caso foi a rede de fast food americana Wendy’s. "A missão deles é servir um produto de qualidade e deixar o consumidor feliz, mas nunca vi um atendente deles realmente preocupado com isso". Para amostrar o segundo, Kawasaki foi taxativo: "O primeiro Mac era uma merda, assim como a primeira impressora laser era uma merda. Mas não estou falando em colocar no mercado coisas que sejam pura porcaria. Você deve lançar algo revolucionário, mesmo que ele venha inicialmente com um milhão de defeitos. Lance logo o negócio, depois você vê se ele funciona", resumiu. E não poupou "elogios" à ex-empregadora. "Eu acredito em Deus, porque ele é a única explicação para a Apple existir e ter tanta benevolência das pessoas", disse, referindo-se aos notórios "defeitinhos" das primeiras gerações dos produtos da empresa.

Outros conselhos para alcançar o sucesso, segundo Guy: não tenha medo de escolher um público-alvo e apenas um, porque as pessoas devem amar ou odiar o seu produto e ponto; abrace o crowdsourcing e deixe o talento dos outros florescer; não contrate pessoas só porque elas têm MBA, seus projetos devem fazer sentido e melhorar o mundo. E mais um ponto alto daquela manhã: "Fuja dos palhaços bem sucedidos, não escute o que eles falam. A ‘bozosite’ é uma doença contagiosa, como a Influenza. Um exemplo de palhaço bem sucedido é Ken Olsen, co-fundador da Digital Equipament Corp., que em 1977 desprezou a criação dos computadores pessoais porque defendia não haver razão nenhuma para uma pessoa querer ter um PC em casa."

(Guy Kawasaki versão palestrante, em foto de @henriquemartin)

Antes de receita de bolo de caixinha e apenas mais um papo divertido, Guy nos fez pensar. No que andamos fazendo, no que as empresas andam fazendo, se estamos realmente em busca de sucesso e felicidade (e dá-lhe comercial de margarina). Mas, principalmente: será que existe mesmo uma fórmula para se dar bem?

Nós defendemos o "pensar fora da caixa", ou seja, esquecer fórmulas para criar algo, propor ideias mesmo que elas parecem inicialmente totalmente imbecis, mas isso mesmo não é uma fórmula?

E aqui no Brasil, conseguimos inovar? Nosso sistema bancário e  também o eleitoral nos provam que sim, e são dois exemplos de serviços públicos. Mas e em outras áreas? Conseguimos ter melhores executivos? Melhores desenvolvedores de produtos? Engenheiros? Sistemas que ajudam os atendentes a identificarem o que o consumidor quer e não perder uma venda ou um fã só que seja?

Corre uma lenda (não confirmada) de que todos os grandes inovadores do mercado brasileiro são rapidamente expatriados para as matrizes e centros de desenvolvimento assim que identificados por quem entende da coisa. De qualquer forma, a discussão sobre inovação ainda é tímida por aqui. Onde estão essas pessoas?

Algumas delas podem ser encontrada na rede social Inovadores Digitais, por exemplo – e é só um começo. Um estudo feito no ano passado pelo IEA (Instituto de Estudos Avançados da USP) mostrou que a inovação industrial no Brasil é dez vezes menor do que a produção científica – e isso porque somos a décima economia mundial. Segundo o instituto, publicamos por aqui apenas 2% de todas as revistas científicas do mundo, e possuímos míseros 0,2% de todas as patentes já registradas. Mesmo com o excelente trabalho dos pólos tecnológicos instalados no nordeste, sul e sudeste. Aliás, pelas contas do IEA, 50% de todos os estudos científicos desenvolvidos no Brasil saíram do interior paulista.

Qual a razão, na opinião de vocês? Falta incentivo governamental? Falta grana? Ou nossos maiores pensadores simplesmente preferem se reunir a seus pares no estrangeiro para desenvolver suas pesquisas com menos intempéries? 

Ah, antes de soltar a voz nos comentários, vale conferir as lições da concorridíssima palestra de Guy, O CARA, extraídas também pelo pessoal da Exame, da INFO e da Galileu.