Funcionários do Facebook fizeram um protesto virtual contra a recusa do CEO Mark Zuckerberg de remover postagens enganosas e incendiárias feitas pelo presidente Trump. É o primeiro protesto público da história da empresa, relata o New York Times.

Como os funcionários do Facebook ainda estão trabalhando de casa devido ao COVID-19, aqueles que protestaram desconectaram os sistemas do Facebook durante o dia e colocaram mensagens de resposta automática em seus e-mails para dizer que estavam “fora do escritório” em protesto. Muitos funcionários também externaram sua frustração com posts no Twitter, em que discordavam abertamente da política de não-retirada de Zuckerberg:

“É inaceitável fornecer uma plataforma para incitar violência e espalhar a desinformação, independentemente de quem você é ou se é digno de notícia. Discordo da posição de Mark e trabalharei para que mudanças aconteçam”, disse Andrew Crow, chefe de design do Portal do Facebook.

“A falta de ação do Facebook em derrubar a publicação de Trump incitando a violência me deixa com vergonha de trabalhar aqui. Discordo absolutamente disso. Gosto das partes técnicas do meu trabalho e trabalho ao lado de pessoas inteligentes/gentis, mas isso não está certo. O silêncio é cumplicidade”, disse Lauren Tan, que é engenheira do Facebook.

Dois funcionários sênior do Facebook também disseram ao New York Times que deixariam a empresa se Zuckerberg não revertesse sua decisão. Outra pessoa que falou com o NYT recebeu recentemente uma oferta para trabalhar no Facebook, mas recusou a oportunidade devido à decisão do CEO da empresa.

Durante uma audiência no Congresso em outubro de 2019, Zuckerberg disse à congressista Alexandria Ocasio-Cortez que “se alguém, incluindo um político, estiver dizendo coisas que podem causar, que incitem violência ou podem incitar danos físicos iminentes, removeremos esse conteúdo”.

Na última semana, Zuckerberg efetivamente mudou o que tinha dito no Congresso, afirmando que o Facebook não é um “árbitro da verdade” e não removerá nem sinalizará certas postagens que Trump fez que glorificam a violência, especificamente o post de Trump em 28 de maio, em que ele disse: “Quando o saque começa, o tiroteio começa”.

Por outro lado, o Twitter colocou um aviso em sua plataforma no post: “Este tuíte violou as Regras do Twitter sobre glorificar a violência. No entanto, o Twitter determinou que pode ser do interesse do público que o tuíte permaneça acessível”. O Facebook ainda não fez o mesmo.

Falando à Universidade de Georgetown no mesmo mês de sua audiência no Congresso sobre a “importância de proteger a liberdade de expressão”, Zuckerberg disse:

“Como princípio, em uma democracia, acredito que as pessoas devem decidir em que elas devem acreditar, não as empresas de tecnologia. É claro que existem exceções e, mesmo para os políticos, não permitimos conteúdos que incite violência ou cause danos iminentes — e, é claro, não permitimos a supressão de eleitores. Votar é expressar sua voz. O combate à supressão de eleitores pode ser tão importante para o movimentos dos direitos civis quanto a liberdade de expressão. Assim como somos inspirados pela Primeira Emenda, também somos inspirados pela 15ª”.

O Facebook não sinalizou o post de Trump de 26 de maio sobre a supressão de eleitores. “Não há possibilidade (ZERO!) de que as cédulas [de votação] enviadas por correio sejam nada menos que substancialmente fraudulentas”, disse Trump. A construção do presidente está confusa, mas a ideia do post é tirar a legitimidade do voto por correio, algo que é comum nos Estados Unidos.

O Twitter rotulou os tuítes de Trump com um link de verificação de fatos, que direciona qualquer pessoa que clica nele para a própria página do Twitter com informações que contestam as alegações de Trump.

No fim do ano passado, mais de 250 funcionários entraram em conflito com Zuckerberg por ele ter permitido que políticos exibissem anúncios falsos ou enganosos. O Facebook supostamente está introduzindo uma opção que permitirá que os usuários vejam menos anúncios políticos. Não é o mesmo que indicar as mentiras ditas pelos políticos, mas pelo menos não teremos que ser submetidos a tantas mensagens impulsionadas por eles.

Na noite de domingo (31), Zuckerberg disse que o Facebook doaria US$ 10 milhões a grupos que lutam contra a injustiça racial. Ele observou que os “US$ 10 milhões não podem consertar [os motivos dos protestos que ocorreram nos EUA]”, mas que ele e sua esposa Priscilla estão comprometidos com este trabalho e “esperam estar nessa luta por muitos anos vindouros”.

Infelizmente, essa promessa financeira veio logo após seu post, explicando por que o Facebook não adotaria a mesma ação que o Twitter, e pouco ajudou para acalmar os ânimos dentro da empresa.